Minhas 15 "profecias" sobre globalização e outros bichos

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Maurício Góis
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Em 1993/1996 em meu livro Sem Medo do Futuro (publicado em 1997 e j√° esgotado) eu fiz 15 ‚Äúprofecias‚ÄĚ sobre globaliza√ß√£o. Humildemente, venho confessar que, pelo menos 12 delas eu acertei. Bem, estava na cara dos fatos. Qualquer um acertaria.

Quero que voc√™, meu querido leitor, leia cada uma delas com os olhos daquela √©poca e coloque a lupa de hoje e fa√ßa sua an√°lise. Aceitarei de alma aberta as suas cr√≠ticas, afinal, o que eu apenas fiz foi cutucar o futuro, apostar, n√£o prev√™-lo, pois como j√° dizia Fritz Dressler ‚Äúprever o futuro √© f√°cil, dif√≠cil √© dizer o que est√° acontecendo agora‚ÄĚ.

O que mudou da inf√Ęncia da globaliza√ß√£o at√© hoje? √Č certo que vivemos hoje uma economia internacional e n√£o uma economia global e que pouqu√≠ssimos pa√≠ses ‚Äúmais mundializados‚ÄĚ tiveram um menor √≠ndice de desemprego. Penso que √© correto se afirmar que os pa√≠ses est√£o hoje com problemas sociais e econ√īmicos, mais por culpa de decis√Ķes pol√≠ticas internas do que por causa deste monstro h√≠brido chamado globaliza√ß√£o (que j√° existia antes do
império romano).

Há os que dirão que, no fundo mesmo, nunca estivemos globalizados e sim tecnologizados. Que o planeta teve a livre circulação de mercadorias e capitais, mas não de pessoas. Que muitos países implantaram o comércio livre, mas não o comércio justo. Que se maquinário produtivo é mais barato que gente sindicalizada por que não dar valor maior às máquinas em detrimento das pessoas?

O grande dilema da globalização sempre foi e penso que continuará sendo: - Se 20% de trabalhadores produzem 80% de resultados, porque se preocupar com os outros 80%? Se o excedente da produção e o excesso de concorrentes tornaram as empresas menos competitivas e lucrativas por que não produzir nossos produtos em países pobres (e até onde há ainda ditaduras) e vendê-los para países ricos? Por que não lançar produtos com obsolescência programada?

Mas a pergunta que precisamos responder nos dias do Barack Hussein Obama é: - Se há uma tendência de o Mercado não mais controlar a demanda, o Estado conseguirá fazê-lo, sendo que crescimento com igualdade é uma utopia neste modelo neoliberal?

N√£o quero ser um otimista mal informado, mas eu entendo que as √ļltimas tr√™s d√©cadas, (onde ocorreram os mais fant√°sticos progressos, em que o mais √°gil destruiu o mais forte) - montaram um cen√°rio que produzir√° um caos sem precedentes na hist√≥ria do planeta.

Temos que agir imediatamente, para evitar, inclusive a marginalização da juventude, que está excluída e com muito mais estresse do que os idosos.

Pe√ßo sua paci√™ncia para que voc√™ leia o que eu disse h√° quase duas d√©cadas. As 15 ‚Äúprofecias‚ÄĚ:

1.A GLOBALIZA√á√ÉO DAS INCERTEZAS. O que se dizia na √©poca era: - Com a Globaliza√ß√£o os pa√≠ses fracos juntam-se a pa√≠ses fortes e todo mundo fica integrado. √Č dif√≠cil quebrar um feixe de varas. Minha vis√£o cr√≠tica foi: ‚ÄúSim, s√≥ que o problema de um passa tamb√©m a ser o problema de todos. Se houver uma recess√£o, ela n√£o ser√° mais nacional e sim global e ningu√©m sabe o que poder√° acontecer se virar depress√£o. O que se sabe √© que as vontades, vantagens e problemas dos fortes ser√£o tratados como principal. Na √©poca eu pensava: a globaliza√ß√£o reunir√°, mas n√£o integrar√° os pa√≠ses‚ÄĚ.

2. A F√öRIA DOS DESCONSOLADOS. O argumento mais forte a favor da globaliza√ß√£o era forte mesmo: - No s√©culo 19 multid√Ķes de trabalhadores quebraram a m√°quina a vapor que passou a movimentar teares e jogou uma avalanche de bra√ßos humanos no desemprego. O mesmo pode acontecer, se a tecnologia amea√ßar. Eu ironizei, dizendo: ‚Äú√Č mesmo? Voc√™ consegue imaginar multid√Ķes de trabalhadores enfurecidos destruindo computadores e rob√īs?
Acredite: o processo n√£o tem mais volta. Voc√™ j√° ingressou neste futuro‚ÄĚ.

3. O ELDORADO DA INTERNET. Na época a tendência era: - A internet (que estava nos primórdios) crescerá a uma velocidade inimaginável. Teremos muitos benefícios nas áreas de lazer, pesquisa, educação, cultura e finanças. Tudo na nossa vida será simplificado por causa da internet e viveremos uma gostosa e surpreendente navegação.
Minha vis√£o de cutucador do futuro foi ‚ÄúH√° o perigo de perdermos a individualidade. Ou a privacidade. Ou de sermos controlados por interesses superiores. Ou esp√ļrios. A classe menos favorecida tender√° a ‚Äúnavegar‚ÄĚ nas incertezas, apesar de todos os esfor√ßos e previs√Ķes ao contr√°rio. Computadores agilizar√£o, mas n√£o simplificar√£o nossas exist√™ncias‚ÄĚ.

4. O DESAFIO EMPREENDEDOR. Comentava-se naquela √©poca: - Em 2010 estima-se que apenas 10% a 20% dos trabalhadores ter√£o carteira assinada. Isto ser√° bom para as empresas que poder√£o renegociar o trabalho e oferecer√£o desafios no lugar da antiga seguran√ßa. Minha opini√£o: ‚ÄúSer√° √≥timo para o empregado que tiver esp√≠rito competitivo, gosto pelo risco, mente de intrapreneuring e supera√ß√£o pessoal, mas cruel para a maioria que n√£o ter√° como trocar desafios por compet√™ncia atualizada‚ÄĚ.

5. OS FABRICANTES DA PROSPERIDADE. Comentava-se naqueles tempos que com a Globaliza√ß√£o f√°bricas robotizadas e escrit√≥rios informatizados gerar√£o mais lucratividade e prosperidade para as na√ß√Ķes. Eu escrevi: ‚ÄúE a tend√™ncia √© de oper√°rios e funcion√°rios em geral serem dispensados, ou remanejados. Ou perderem a dignidade em subempregos. Alguns se transformar√£o em subclasses. Informatiza√ß√£o pode ser sin√īnimo de tomada de decis√£o, n√£o, necessariamente de lucratividade‚ÄĚ.

6. A FANTASIA DAS ADAPTA√á√ēES. Muitos profetizavam: - Quando uma mudan√ßa surge, ela causa alguma agita√ß√£o inicial, sofre suas crises de desconforto e adapta√ß√£o, mas, no final, sempre se ajusta com uma solu√ß√£o aceit√°vel. Minha vis√£o crist√£ comentou: ‚ÄúN√£o √© o que a hist√≥ria mostra. Algumas crises encontraram solu√ß√Ķes aceit√°veis, mas h√° outras que caminharam para a inviabilidade‚ÄĚ.

7. TODOS POR UNS. Voc√™ lia na imprensa especializada: - A globaliza√ß√£o da economia amplia mercados. E gera oportunidades de trabalho para todo mundo. E eu imaginei: ‚ÄúNem sempre. A globaliza√ß√£o tende a fazer o pa√≠s rico tirar vantagem do pa√≠s pobre, ampliando mercado de uns, mas n√£o de todos globalmente. Caso contr√°rio, n√£o existiriam pa√≠ses com d√©ficits comerciais. Al√©m do mais, as vantagens de uns, n√£o ser√£o para todos, mas sim, s√≥ destes uns. Para dar certo, √© preciso, antes, a globaliza√ß√£o dos sentimentos e do respeito humano‚ÄĚ.

8. COMPETI√á√ÉO INTERNACIONAL. Muitos na √©poca vaticinavam: - Quem ganha com a globaliza√ß√£o √© o povo que poder√° comprar produtos com qualidade excelente a pre√ßos excelentes. Eu concordava, discordando: ‚ÄúTudo bem, s√≥ que a vantagem competitiva que um pa√≠s tinha na produ√ß√£o de algum bem passa a ser amea√ßada pela competi√ß√£o internacional. Al√©m do mais, para poder concorrer com pre√ßos, a pequena e m√©dia empresa precisa, em alguns casos, comprar m√°quinas novas que s√£o, muitas vezes, car√≠ssimas. Ou se endividar. Ou se atualizar com um novo processo ou tecnologia que n√£o domina. Ou treinar todo seu pessoal para a inova√ß√£o predat√≥ria. E, via de regra, pode acabar ficando num beco financeiro sem sa√≠da‚ÄĚ.

9. PERGUNTAS SEM RESPOSTAS. Os otimistas pregavam que a globalização vai multiplicar riquezas. Eu pensei: “Certo, mas a riqueza de quem? E para quem? Com a globalização a empresa sem inovação contínua empobrece e o profissional sem capacitação constante desaparece. E desaparecerá porque não acreditou em seu gigante de potencial interior? E desaparecerá porque não pensou como um campeão, como diz a auto-ajuda irresponsável
(porque é claro: existe a auto-ajuda séria e responsável).

10. PE√áAS DA ENGRENAGEM. Alguns, muito euf√≥ricos, concluiam: - A globaliza√ß√£o valoriza o ser humano e dinamiza seu trabalho. Eu n√£o estava muito convencido e escrevi: ‚ÄúErrado. A globaliza√ß√£o valoriza, primeiramente, a competi√ß√£o e dinamiza a busca pelo lucro. O indiv√≠duo torna-se pe√ßa na engrenagem da organiza√ß√£o‚ÄĚ.

11. VALORES DESVALORIZADOS. O pensamento intelectual era: - Com a globaliza√ß√£o democracia e liberdade tornam-se valores universais. As na√ß√Ķes jamais perder√£o sua identidade cultural, social e pol√≠tica. Eu concordava com ressalvas: ‚ÄúNo papel, sim, mas na pr√°tica a conjuntura pol√≠tica e social das na√ß√Ķes e seus valores passam a ter nenhuma import√Ęncia quando se definem os investimentos‚ÄĚ.

12. A QUALIDADE PARCIAL DA QUALIDADE TOTAL. Os fanáticos por Deming gritavam: - Com a globalização as empresas usarão as ferramentas da Qualidade Total para evitar o desperdício, o retrabalho, uniformizar processos de produção e, assim, enfrentarem a concorrência que vem de fora. Eu, que sempre achei Deming um cara sério, dizia: “O caminho deveria ser este, mas, o que poderá acontecer na prática é as empresas apenas cortarem custos, aumentando a automação, liquidando postos de trabalho e fazendo a reengenharia de pessoas e
n√£o de processos e m√°quinas‚ÄĚ.

13. A OPORTUNIDADE DO OPORTUNISMO. Os f√£s das novidades se empolgavam, dizendo: - N√£o importa que a globaliza√ß√£o leve a uma crise. Crises sempre fazem aparecer l√≠deres e ideias que produzem solu√ß√Ķes duradouras. Minha leitura era outra: ‚ÄúSempre n√£o. Crises tamb√©m s√£o o melhor caminho para o oportunismo pol√≠tico e a manipula√ß√£o das massas‚ÄĚ.

14. PESSIMISMO BOBO. Os adeptos das mudan√ßas necess√°rias ensinavam na √©poca: - Tudo bem que a globaliza√ß√£o cause algum desemprego tecnol√≥gico. Mas toda amea√ßa gera uma oportunidade. √Č a hora, por exemplo, dos demitidos abrirem um neg√≥cio pr√≥prio. Confesso que eu fui um pouco pessimista ao afirmar: ‚ÄĚCerto. Mas s√≥ ter√£o sucesso os demitidos que tiverem capital financeiro, intelectual, moral e social e tamb√©m paix√£o pelo risco, esp√≠rito empreendedor, capacidade de organiza√ß√£o, inova√ß√£o, poder de lobby e talento comercial. Os outros, digamos, poder√£o abrir uma sepultura pr√≥pria‚Äô. Exagerei e pe√ßo desculpas ao futuro.

15. DISCRIMINA√á√ÉO GLOBALIZADA. Os arautos do otimismo discursavam: - N√£o h√° o que temer com a globaliza√ß√£o, pois, quando um empregado √© demitido, ele levar√° consigo o conhecimento da empresa e poder√° virar concorrente de seu antigo patr√£o. √Č o poder da livre iniciativa. Meus conceitos na √©poca eram de um pessimista bem informado (o que √© melhor que ser um otimista mal informado). Eu escrevi: ‚ÄúMas s√≥ os que suportar√£o as promo√ß√Ķes incr√≠veis de sua ex-empresa multinacional que produz em massa com pre√ßos imbat√≠veis sobreviver√£o.

Ent√£o, a globaliza√ß√£o √© discriminadora. Conselhos do tipo ‚Äúencontre um nicho de mercado em que seu ex-patr√£o n√£o atua‚ÄĚ, ‚Äúv√° pelos flancos‚ÄĚ, ‚Äúsegmente seu mercado‚ÄĚ e outros do marketing convencional ou de guerrilha, - o demitido conseguir√°, por exemplo, colocar em pr√°tica sob press√£o?

Bem, √© bom tomar cuidado quando o assunto √© previs√£o, pois h√° um falso profeta dormindo na cama de nossas especula√ß√Ķes e na ingenuidade de nossas pressuposi√ß√Ķes. E ele pode acordar a qualquer momento e come√ßar a atirar adivinha√ß√Ķes b√™badas e n√£o proje√ß√Ķes s√≥brias. Para evitar que isto aconte√ßa acredite que o futuro s√≥ a Deus pertence. O Criador √© o Senhor do Tempo. E voc√™ pode estar pensando agora: Maur√≠cio, por que misturar religi√£o com neg√≥cios e outras coisas s√©rias? Quer saber o que eu acho que √© muito s√©rio neste momento de nosso Planeta? Eu acredito que o futuro ser√° maravilhoso, pois acontecer√° a Segunda Volta de Jesus. E os sinais no mundo pol√≠tico, econ√īmico, social e ambiental mostram que Ele est√° √†s portas. O que precisamos
agora é da globalização das esperanças.


Maurício Góis
Consultor filiado ao IBCO ‚Äď Instituto Brasileiro de Consultores de Organiza√ß√£o desde 1983.
Ficou conhecido nacionalmente como autor da obra ‚ÄúChefia e Lideran√ßa‚ÄĚ da IOB-INFORMA√á√ēES OBJETIVAS, um best seller na √°rea por quase uma d√©cada.

Email: contato@mauriciogois.com.br
Site: www.mauriciogois.com.br




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