A complexidade que exclui

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Maria Regina Canhos Vicentin
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Constatei com pesar dias atrás que, buscando a erudição, muitas vezes alguns veículos de comunicação acabam privando os menos instruídos do acesso às informações. Quando isso se dá nos meios acadêmicos é até compreensível, visto que se espera maior conhecimento dos letrados, entretanto, quando isso ocorre no âmbito religioso, remete a questionamentos em relação a qual o objetivo a ser atingido. Complicar a religião equivale a prolongar o sofrimento daqueles que anseiam por um copo d’água. Jesus veio para simplificar, mas continuam a existir os que desejam catalogar um sem número de preceitos, envolvendo-os em embalagens sagradas e intocáveis, ininteligíveis aos simples, que não conseguem decifrar os intrincados labirintos do saber soberbo. É sempre possível escrever de modo a dificultar a compreensão, não é mesmo?

Verifico que muitos possuem aquilo que já foi denominado por alguém de “Síndrome do Professor Astromar”. Para quem não se lembra ou não teve a oportunidade de ver e ouvir, professor Astromar foi um dos personagens que fez parte do elenco da novela global Roque Santeiro, exibida em 1985. Proferia longos discursos, com palavras rebuscadas, e era aplaudido pelo povo em geral que, no entanto, não entendia absolutamente nada do que ele dizia. Tal referência também me fez lembrar de um texto que foi distribuído num curso de formação de expositores do qual participei, intitulado: “fale bonito e não diga nada”. Muitos “Astromares” desconhecem até mesmo o significado das palavras que empregam, usando-as tão somente pela bela sonoridade que provocam quando proferidas, ou para angariar admiração frente ao aparente domínio de terminologia complexa.

Para muitos intelectuais nada é mais prazeroso que se jactar diante de pessoas humildes, que se vêem perdidas frente tanto bazofiar. A incompreensão alheia acaba por lhes conferir a idéia de maior saber, quando na verdade deveria lhes envergonhar ante o precioso momento desperdiçado. Pena não termos todos as mesmas oportunidades! O saber não deveria ser destinado a elites ou grupos privilegiados, mas a toda a população.

Ainda que assim não seja, urge que as pessoas instruídas desçam de seus pedestais, onde comodamente arquivam assombrosas manifestações de admiração coletiva, para garimpar talentos junto aos prodigiosos populares, ansiosos por uma palavra necessária e inteligível que sacie a sede que sentem em seu interior. Elitizar a religião utilizando terminologia complexa e incompreensível aos menos favorecidos equivale a soterrar o exercício das bem-aventuranças pregadas pelo Mestre, que priorizou o simples, enalteceu os humildes, e referiu-se aos soberbos com as denominações de hipócritas e sepulcros caiados.


Maria Regina Canhos Vicentin
Natural de Jaú/SP. Formou-se em Psicologia pela USP de Ribeirão Preto e em Direito pela Instituição Toledo de Ensino de Bauru. Especializou-se em Educação pela Faculdade Claretianas de Batatais. Psicóloga Judiciária no Fórum da Comarca de Jaú. Profissional Especialista em Psicologia Clínica e em Psicologia Jurídica.Autora dos livros: Buscando a Felicidade (Ed.Celebris), Sementes de Esperança (Ed.Santuário), Temas do Cotidiano (Ed.Santuário), e Superdicas para ser feliz no amor (Ed.Celebris). Agente de Pastoral da Evangelização da Paróquia de São João Batista em Jaú (SP) escreve regularmente para diversos jornais; entre eles, Folha da Região (Araçatuba – SP) e O Lutador (Belo Horizonte – MG), além da Revista O Mensageiro de Santo Antônio (Santo André – SP), e Família Cristã Online (São Paulo – SP).
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