Crônica: Adelaide

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Mariana Dorigatti
maridorigatti@gmail.com
 

A primeira vez que a vi ...me apaixonei. Adelaide era seu nome, e não me pergunte como eu sei disso.
- “Uma tônica, por favor.”
Virei - me para ver de onde vinha o som aveludado que suplicava por uma água gaseificada. Não terminei de virar meu corpo. Não conseguia me mexer ao observar os lábios rosados desgrudando lentamente da garrafinha de plástico. Ao perceber que o primeiro gole havia passado pela garganta, me acomodei confortavelmente no banco desconfortável do bar do gaúcho. De lá poderia observar melhor os traços delicados de seu rosto, imaginando qual seria o cheiro de seus cabelos, a pressão de seus lábios, o encaixe do abraço... Já havia me apaixonado e a única coisa que eu sabia era que ela gostava de água tônica.
- “Err... hum... boa tarde.”
Arrisquei um início de conversa com medo que ela fosse embora para sempre. Ela me olhou de cima a baixo, mas não respondeu. Deu mais um beijo na garrafinha e mudou as pernas de posição. Ah... as pernas! Essa menina poderia conseguir o que quisesse com aquelas pernas. Gostaria que ela me quisesse, mas ela estava com muita sede naquele momento, talvez depois. Mas voltando às pernas, teimo em dizer que o melhor ainda estava por vir: os pés, que deveriam ser tamanho 35 ou 36, e que pareciam ter sido feitos de algum doce, pois o tempo todo tive vontade de colocá-los na boca.
- “Quanto é?”
- “R$ 2,50”, disse o gaúcho, explorando a pobre moça.
Um desespero tomou conta de mim. Ela iria embora para onde? Algum maníaco poderia ficar admirando seus pés pela rua!
- “Moça!”, eu me arrependi no mesmo instante em que disse isso. Como ousaria chamá-la assim? Deusa, rainha, princesa ...tudo isso era pouco para ela.
Mesmo assim, a moça se virou. Fitou-me fixamente e, como em um sonho, proferiu:
- “Adelaide.”
Há três meses, me sento todas as tardes no bar do gaúcho na companhia singela de uma garrafinha de água tônica, mas Adelaide nunca mais apareceu por lá.


Mariana Dorigatti
Bacharel em jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUC-Campinas). Produtora do videodocumentário “Opção Camelô”, que retrata a realidade em que vive o trabalhador informal de Campinas (2º colocado no II Prêmio Bosch de Talentos em Comunicação). Atua no jornalismo como repórter, assessora de imprensa, editora e colunista.
Email: maridorigatti@gmail.com


Comentários deste artigo:
Ludmila Fontoura
04/10/2010 - 21:18
Mari! Muito bom o seu trabalho. Parabéns. Em quatro anos de faculdade não pude ver um texto seu nestes moldes e confesso que fiquei muito feliz ao ver que você escreve crônica muito bem.

Continue escrevendo!

Onde está Adelaide? De onde veio esta mu
Renan Betê(@)
04/10/2010 - 17:23
Mariana Parabéns! Gostei bastante da sua crônica!
Gostaria de elogiar a qualidade e quantidade de detalhes utilizados para descrição de "Adelaide".


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