Crise de autoridade

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Maria Regina Canhos Vicentin
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De uns tempos para cá, tenho notado em função do meu trabalho no judiciário, que inúmeras pessoas são intimadas para audiências e avaliações psicossociais, e simplesmente não comparecem. Muitas nem justificam as ausências. Outro dia, chamada a depor num inquérito policial, percebi que essa situação acontece também nas delegacias de polícia. Verifiquei que a figura de autoridade parece não mais existir para muitos. O desrespeito está sendo tão natural que várias pessoas não se dão ao trabalho nem de telefonar para esclarecer os motivos que as impossibilitam de comparecer quando convocadas.

Não resta dúvida que estamos diante de uma crise de autoridade. Ela está presente nos lares, onde os pais muitas vezes precisam se submeter aos caprichos dos filhos rebeldes que tiranizam a família e monopolizam as atenções. Está presente nas escolas, onde os professores são submetidos a todo tipo de humilhação, e chegam a ser agredidos física e moralmente pelos alunos. Também está presente na sociedade como um todo, já que as pessoas diuturnamente desrespeitam e são desrespeitadas. Está ficando comum ser nivelado por baixo. As pessoas já não têm receio de dizer bobagens, pois de antemão pressentem que não serão punidas. Parece estar havendo um consenso quanto a uma liberal tolerância em relação ao desrespeito.

Outro dia, atendi a um jovem em meu consultório particular que dizia estar interessado numa orientação. Logo, no entanto, ficou claro que ele não tinha o desejo de trabalhar suas deficiências, mostrando-se desmotivado para empreender necessárias mudanças em seu comportamento. Desde o início da consulta assumiu posturas arrogantes e provocativas, agindo com desrespeito, provavelmente exercitando o modelo utilizado de forma usual com os demais. Quando lhe disse que não aceitaria ser tratada daquela forma, o adolescente ficou espantado e afirmou não entender o que estava acontecendo. Após lhe apontar todas as condutas que foram interpretadas como desrespeitosas, o jovem disse que iria embora, assumindo postura refratária diante das colocações realizadas.

Não houve um pedido de desculpa. A provável educação permissiva no lar e a possível tolerância com suas inadequadas atitudes certamente lhe fizeram supor que outros aceitariam tal tratamento. O jovem sequer conseguiu enxergar como havia sido grosseiro com a profissional, e provavelmente, deve ter se sentido ofendido pelo fato dela solicitar que ele a tratasse com respeito.

Situações assim, entretanto, não estão acontecendo somente com nossos jovens. Há pessoas maduras que também se permitem agir com desrespeito às pessoas e às instituições. Frei Betto me parece um claro exemplo disso pela forma como vem se referindo à Igreja Católica e seus membros. Reproduzindo trecho empregado por Santo Antônio em Sermões: “Cessem, por favor, as palavras; falem as obras. Estamos cheios de palavras, mas vazios de obras, por isso somos amaldiçoados pelo Senhor, como a figueira cheia de folhas e sem frutos.”


Maria Regina Canhos Vicentin
Natural de Jaú/SP. Formou-se em Psicologia pela USP de Ribeirão Preto e em Direito pela Instituição Toledo de Ensino de Bauru. Especializou-se em Educação pela Faculdade Claretianas de Batatais. Psicóloga Judiciária no Fórum da Comarca de Jaú. Profissional Especialista em Psicologia Clínica e em Psicologia Jurídica.Autora dos livros: Buscando a Felicidade (Ed.Celebris), Sementes de Esperança (Ed.Santuário), Temas do Cotidiano (Ed.Santuário), e Superdicas para ser feliz no amor (Ed.Celebris). Agente de Pastoral da Evangelização da Paróquia de São João Batista em Jaú (SP) escreve regularmente para diversos jornais; entre eles, Folha da Região (Araçatuba – SP) e O Lutador (Belo Horizonte – MG), além da Revista O Mensageiro de Santo Antônio (Santo André – SP), e Família Cristã Online (São Paulo – SP).
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