Um "ET" em minha sala (I) - O que aprender

Compartilhar no Facebook

Enviar por email Imprimir este artigo
 

Encontrei uma pesquisa interessantíssima no livro “Os jovens e o saber” organizado por Bernard Charlot, e editado em 2001 pela Artmed, de Porto Alegre. No capítulo “O jovem, a escola e o saber: uma preocupação social no Brasil” destaca um trabalho de pesquisa organizado sob a forma de oficinas de produção de textos, verbais e não-verbais, realizados entre alunos de 13 e 17 anos de idade, que vivem em bairros de baixa renda na cidade de São Paulo e estudam em escolas públicas. A maior parte desses alunos apresentam defasagem na relação idade/série, a maior parte deles não trabalha regularmente ou possuem empregos temporários ou informais.

A esses jovens se prepôs uma questão essencial: “Imagine o que você sentiria se um belo dia encontrasse em sua casa um ET sentado no sofá da sala. (...) A missão dele é levar para seu planeta de origem a experiência de vida dos terráqueos. Então, ele tem uma semana para aprender tudo sobre nós e sobre os conhecimentos que consideramos importantes para a vida. O que você acharia importante ensinar-lhe? Quem poderia ensinar? Onde ele poderia ir para aprender? Como ensiná-lo? Você poderia fazer tudo o que quisesse e achasse que valeria a pela para ele aprender”.

As repostas apresentados por esses alunos, ainda que não surpreendente, parece constituir um alerta importante para todo professor. Em verdade, as entrelinhas da pergunta interrogavam se o que esse aluno efetivamente aprende é o que acredita importante e essencial e que, no lugar de seus professores, ensinaria a alguém para os desafios da adaptação e da sobrevivência. E o que esses alunos responderam?

Suas respostas buscaram, por paradoxal que possa parecer, as tradicionais disciplinas escolares, não mais prisioneiras de um programa estúpido e alienado. Em outras palavras, não seria necessária a criação de outros cursos ou outras disciplinas, mas cada disciplina trabalhando com os pés na Terra, ensinando conteúdos com “cheiro de vida” e plenamente contextualizados nos desafios cotidianos que essa vida propõe. Assim, solicitaram:

· Comunicação e socialização (falar a “nossa linguagem”, falar o português para andar na rua, ler e escrever, respeitar as leis de trânsito, trabalhar, namorar, fazer sexo, casar e ter filhos).

Caso esse conteúdo que reclamam se incluísse em uma disciplina escolar, esta disciplina não poderia ser a Língua Portuguesa e, eventualmente, uma Língua Estrangeira? Claro que sim. Um currículo autêntico e verdadeiro precisaria fugir do rebuscamento de um conteúdo distante e mergulhando-se na vida e na realidade, ensinasse aos alunos ler e compreender, falar e entender. Desejavam também:

· Cuidados pessoais (vestir-se, ir ao médico e ao dentista regularmente, andar sempre limpo, tomar banho, alimentar-se corretamente, usar camisinha, não usar drogas).

Percebe-se nesta procura a busca pelas Ciências, o estudo da Biologia. Ainda uma vez não Ciências distantes da vida e envolta pela erudição, mas na verdadeira ciência que em toda cozinha se encontra, em todas as ruas se vê. Os alunos pesquisados ensinariam ao ET o que queriam aprender e, por isso, pediam:

· Usufruir o lazer divertir-se, jogar bola, andar de bicicleta, nadar, passear, freqüentar festas, etc.

Não seria este o apelo por uma Matemática e uma Educação Física mais realista, plenamente contextualizada em necessidades autênticas e reais? Viver, por acaso, não é superar problemas e quem melhor que a matemática pode simular esses problemas e ensinar a esse aluno que os números não existem apenas para a intelectualidade, mas para a vida viver. Finalmente, ensinariam:

· O relacionamento humano e os afazeres de todo dia, como se relacionar com o outro, percebê-lo em si e também mexer com máquina, lidar com a eletricidade, dirigir veículos.

Ainda que pareça distante, em verdade uma nova roupa que se vestisse a História, Arte e Geografia poderiam aproximar esses conteúdos, dos que os jovens ensinariam aos Ets. Existe disciplina mais próxima do relacionamento e do distanciamento humano que os estudos sociais? Não se aprende o dia a dia de hoje na análise desse cotidiano de ontem? Não se estuda bem o “aqui”, conhecendo melhor o que “ali” se faz?

O resultado dessa pesquisa parece ser bem maior que o que a primeira vista sugere. Parece sintetizar um apelo para que os professores reflitam e transformem o que ensinam e descubram a magia e a surpresa de sua disciplina no caminho que se faz, no dia a dia que se vive, no outro com o qual se convive. Basta querer.


Celso Antunes
Bacharel e licenciado em Geografia pela Universidade de São Paulo, Mestre em Ciências Humanas e Especialista em Inteligência e Cognição; Membro da Associação Internacional pelos Direitos da Criança Brincar (UNESCO); Embajador de la Educacion – Organización de Estados Americanos; colaborador emérito do Exército Brasileiro; sócio fundador do Todos pela Educação - Sociedade Civil que reúne lideranças sociais, representantes da iniciativa privada e educadores; autor de cerca de 180 livros e consultor de diversas revistas especializadas em Ensino e Aprendizagem; ministrou palestras e cursos em todos os estados do país, mais de 500 municípios; ministrou palestras e cursos na Argentina, Uruguai, Peru, México e outros países.
Email: celso@celsoantunes.com.br
Site: www.celsoantunes.com.br




Mais textos deste colunista:
Uma Professora de Belezas
Quem ama o feio... ou Darwin que disse
Se assim somos é porque assim imitamos
O cérebro e a sala de aula
Deficiência
Alienação
Cuidado! O nazismo pode estar voltando...
A criança e o mundo dos números
Ensinar o que? II
Competências do Ensino Médio
Saber fazer é bom, saber porque fazer é mais...
Ser leitor
A disciplina em sala de aula
Margarida
Olhar Empático do Mestre
Um sol que não tem tamanho
Um Programa Alternativo
Os Bichos e os Homens
Cérebro Adolescente
Por que ensinar valores?
Nesta escola não existe...
Bota a gente calça e calça a gente bota...
A Plástica e a Caminhada
Por que as crianças se estressam?
O Espaço Tenebroso
Dificuldade de Aprendizagem ou de Sensibilidade?

COMENTE ESTE ARTIGO:
Nome:
Email:

(0 / 255)
O tamanho máximo do comentário é de 255 caracteres.
Atenção!
Você irá receber um email para confirmar seu comentário para que o mesmo seja publicado nesta página, portanto o campo Email é de preenchimento obrigatório e, ao enviar, você assume a responsabilidade pelas suas palavras inseridas neste comentário.
*NOTA : o JornalRMC abre esse espaço para que nossos colunistas exponham, de forma voluntária, seus pontos de vista sobre os assuntos em que são especialistas. Dessa forma, as opiniões apresentadas são de única e exclusiva responsabilidade dos mesmos, não refletindo necessariamente a opinião do portal e de seus editores.

 
SOS Impressoras
Rádio Novo Tempo Campinas
Cadastro Nacional de Pessoas Desaparecidas

.: Acessos: 7.444.543 :. | .: desde Agosto/2007 :. | .: contato: imprensa@jornalrmc.com.br :. | .: desenvolvido por: LINDEMUTH Comunicação :.