O vendedor de histórias

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Mariana Dorigatti
maridorigatti@gmail.com
 

Na correria do dia a dia, os olhares apressados nem sempre percebem os detalhes que enfeitam nossa selva de pedras com ricas hist√≥rias, exemplos grandiosos e li√ß√Ķes para toda a vida.

Em Campinas, na esquina das avenidas Andrade Neves com Benjamin Constant trafegam, todos os dias, milhares de carros, mas s√£o poucos os motoristas que se atentam para um rapaz alto, magro, com uma mochila nas costas e um sorriso no rosto. Das 8h30 √†s 15 horas, o jovem fica no sem√°foro abordando os condutores da primeira fila, vendendo livros e DVDs evang√©licos a um valor simb√≥lico. Seu nome √© Walter Augusto Prado, de apenas 20 anos, mas com a maturidade que a vida lhe imp√īs.

Com o rosto sofrido, camuflado pela simpatia e gentileza, o rapaz se apresenta como estudante de Direito, que vende os artigos para ajudar a pagar a faculdade. Faz isso todos os dias, viajando duas horas de Engenheiro Coelho para Campinas e mais duas horas para voltar ao munic√≠pio onde reside e estuda. Com muito esfor√ßo consegue tirar algum dinheiro, sem se importar com as grosserias que, eventualmente, acontecem. √Č s√≥ levantar a cabe√ßa e aguardar pelo pr√≥ximo sinal vermelho.

Faz tudo isso sem se importar com o passado difícil, que castigou ele e seu irmão gêmeo, Walter. Com apenas 6 meses de vida os dois foram abandonados pelos pais em uma caixa de papelão e quase morreram, antes mesmo de começar a receber o carinho de uma família. Só se livraram da morte graças aos tios que os resgataram e os criaram até os 15 anos na cidade de Cuiabá-MS.

Foi nessa √©poca que os insepar√°veis ‚ÄúTico e Teco‚ÄĚ, como costumavam ser chamados, resolveram sair de casa para n√£o depender mais dos tios. Foram para um col√©gio interno em Cascavel-PR, onde recome√ßaram suas vidas, visto que a dupla aprontou muito na cidade natal, fazendo coisas das quais se arrependem at√© hoje.

Após concluírem os estudos, Walter voltou para Cuiabá e Wagner foi atrás de seus sonhos. A faculdade de Direito é o caminho para exercer uma profissão que ajuda a resolver ou minimizar os problemas das pessoas, além de garantir um futuro próspero, com um lar constituído. O sonho maior é o de ter uma família e poder oferecer aos filhos uma vida diferente da que viveu.

Atualmente, o que Wagner mais precisa é de um emprego que lhe garanta uma renda fixa para o seu sustento, mas, mais do que isso, deseja continuar no caminho certo, sendo humilde, seguindo a Deus, tendo esperança e vontade de vencer na vida para ser bem-visto pela sociedade.

Enquanto isso, a cada sinal vermelho do sem√°foro, Wagner segue, como milh√Ķes de pessoas, com um prop√≥sito na vida: caminhar para a vit√≥ria.



Mariana Dorigatti
Bacharel em jornalismo pela Pontif√≠cia Universidade Cat√≥lica de Campinas (PUC-Campinas). Produtora do videodocument√°rio ‚ÄúOp√ß√£o Camel√ī‚ÄĚ, que retrata a realidade em que vive o trabalhador informal de Campinas (2¬ļ colocado no II Pr√™mio Bosch de Talentos em Comunica√ß√£o). Atua no jornalismo como rep√≥rter, assessora de imprensa, editora e colunista.
Email: maridorigatti@gmail.com




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