Oito ou oitenta

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Maria Regina Canhos Vicentin
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Estive refletindo a respeito das mudanças que se efetivaram em nosso país e no comportamento das pessoas de uns anos para cá. Às vezes, tenho a sensação de que houve uma divisão em dois grandes blocos. O dos organizados, responsáveis e trabalhadores; e o dos desleixados, irresponsáveis e desocupados. O segundo parece ser bem maior que o primeiro e, ao que tudo indica, o grupo um carrega o dois nas costas. Bem, alguns dirão que isso sempre foi assim, afinal, não é de hoje que existem as diferenças individuais. Sim, concordo; no entanto, tem crescido dia a dia o número de pessoas pertencentes ao grupo dois. Imagino comigo que o cenário político vigente contribuiu muito para isso, pois ao invés de se “ensinar a pescar” entrega-se o “prato feito”, e sempre à custa dos contribuintes, obrigados a arcar com significativos percentuais nos impostos e tributos.

Isso seria simples se a cada dia diminuísse o número de pessoas participantes do grupo dois; mas, ocorre o contrário, o grupo dois fica cada vez maior, enquanto que o grupo um cada vez menor e mais assoberbado. Atualmente, existem pessoas que vivem apenas para trabalhar. Privam-se dos prazeres da vida como se isso fosse um grande pecado. Não têm tempo para descansar, ouvir uma música, chupar um sorvete, assistir um filme, fazer uma caminhada. Enquanto isso, existem pessoas que descansam o tempo todo, já que não trabalham. Dormem até tarde, ficam horas diante da televisão ou na rua. Muitas usufruem do seguro desemprego, e não querem correr o risco de perdê-lo. Desvirtuam a finalidade inicial do programa, e sobrecarregam as pessoas que se esforçam para conseguir ganhar a vida com seu suor.

Tenho a impressão de que isso não vai acabar bem. Aqueles que trabalham gastam cada vez mais para pagar os impostos responsáveis pelo sustento daqueles que nada fazem. Enquanto isso, o consumo de bebidas e substâncias entorpecentes aumenta vertiginosamente. Quem trabalha não tem tempo nem condições para ir atrás disso; mas quem fica ocioso, meu Deus, quanto tempo possui para buscar essas coisinhas. Daí, aquele que trabalha se vê numa situação muito mais complicada, pois esses desocupados passam a invadir a sua casa em busca de dinheiro ou objetos que possam ser transformados em moeda de troca para conseguirem mais entorpecentes.

Bom, reflita comigo, se uma parte do dinheiro ganho através do trabalho foi empregado no pagamento de impostos e taxas, e outra parte foi surrupiada através de furtos ou empregada em melhorias no imóvel para evitar a ação de bandidos, verificamos que o cidadão trabalhador ficou em situação bem triste e desfavorável. Além de lhe faltar tempo, também não lhe sobra dinheiro para o necessário lazer. Assim vai se configurando a cultura do oito ou oitenta, em que ou se trabalha ou se usufrui. Se você ainda consegue fazer os dois, aproveite; pois não faço ideia de por quanto tempo isso será possível.


Maria Regina Canhos Vicentin
Natural de Jaú/SP. Formou-se em Psicologia pela USP de Ribeirão Preto e em Direito pela Instituição Toledo de Ensino de Bauru. Especializou-se em Educação pela Faculdade Claretianas de Batatais. Psicóloga Judiciária no Fórum da Comarca de Jaú. Profissional Especialista em Psicologia Clínica e em Psicologia Jurídica.Autora dos livros: Buscando a Felicidade (Ed.Celebris), Sementes de Esperança (Ed.Santuário), Temas do Cotidiano (Ed.Santuário), e Superdicas para ser feliz no amor (Ed.Celebris). Agente de Pastoral da Evangelização da Paróquia de São João Batista em Jaú (SP) escreve regularmente para diversos jornais; entre eles, Folha da Região (Araçatuba – SP) e O Lutador (Belo Horizonte – MG), além da Revista O Mensageiro de Santo Antônio (Santo André – SP), e Família Cristã Online (São Paulo – SP).
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