Sinal amarelo com falta de investimento industrial

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José Milton Dallari
mdallari@decisaoconsultores.com.br
 

Os números das nossas exportações mostram um cenário promissor. De janeiro a setembro o Brasil registrou um superávit comercial de R$ 20,3 bilhões. Mas é preciso parar para avaliar a estratégia. O impulso de hoje pode resultar num mau negócio a longo prazo.

O motivo é a qualidade das exportações. Nada menos do que 56,83% da receita com as vendas externas deste ano foram obtidos com produtos básicos, de baixo valor agregado. Os manufaturados representaram apenas 36,7%.

Na nossa parceria comercial com a Ásia, leia-se principalmente China, 77% do que vendemos é produto básico e apenas 11% industrializado. É uma qualidade pior do que a da exportação para a Europa, onde os básicos correspondem à metade e os manufaturados chegam a 34%. Para os Estados Unidos, 45% são manufaturados e apenas 33% são produtos básicos.

O problema não está em quem compra, está em quem vende. Nossos esboços de políticas industriais têm ficado longe de sinalizar um rumo pela frente. Já não basta mais oferecer crédito do BNDES. É preciso um conjunto de medidas que estimulem os industriais a investir.

Mais do que isso, é preciso reunir as cadeias produtivas para discutir gargalos de qualidade e preço , desde a matéria-prima até o produto final. O produto final deve não só garantir aceitação nos mercados externos e interno, mas a preço e qualidade que o diferencie dos concorrentes estrangeiros.

Falo de uma política industrial setorizada, onde o objetivo comum é ampliar mercado dentro e fora do país. Não se trata de discutir incentivos fiscais, barreiras comerciais ou crédito mais barato. Tudo isso, somado, não tem o mesmo efeito do que uma visão de longo prazo, que sinalize onde o Brasil quer chegar.

Queremos passar a próxima década vendendo commodities? Vamos atravessá-la reclamando dos baixos preços dos produtos chineses e continuar a vender para a eles a matéria-prima bruta a ser transformada? Ainda precisamos de um dólar caro para compensar nossa baixa produtividade? Ou será que a cadeia de produção tem espaço para ganhos que só serão percebidos numa mesa de negociação?
São respostas que uma política industrial discutida por cadeia de produção pode dar.

O Brasil tem hoje menos empresas exportadoras do que tinha em 2004. Tínhamos naquele ano 17.373. Hoje, elas são 14.541.

Embora 94,8% das exportações sejam realizadas por grandes empresas, boa parte delas não se interessa em agregar valor. A exportação de produtos de alta tecnologia vai ladeira abaixo. De janeiro a junho de 2009, eles representaram 9,3% da pauta. De janeiro a junho de 2011, são apenas 5,7%.

Nem mesmo as fontes de recursos destinadas ao investimento produtivo estão sendo usadas na proporção esperada. Enquanto as empresas de comércio e serviços obtiveram empréstimos de R$ 27,1 bilhões e as de infra-estrutura receberam R$ 52,4 bilhões, as indústrias se credenciaram a apenas R$ 5,4 bilhões - a quantia é pouco mais da metade do setor agrícola, que ficou com R$ 10,1 bilhões.

O baixo volume de financiamento traduz o problema: faltam projetos de investimento na indústria.

Não pensem que o ganho do agronegócio irá pelo ralo se o Brasil optar por industrializar os produtos aqui mesmo. Em São Paulo, os produtos básicos representam apenas 19,89% das exportações do estado, enquanto os industrializados dos agronegócios alcançaram 80,11%, o que demonstra que agregar valor não significa abdicar de vendas externas.

Está na hora de o setor publico e o setor privado sentarem para discutir estes assuntos com racionalidade. O que está em jogo é a competitividade do Brasil e das suas empresas nas próximas décadas, não apenas neste ou no próximo governo.


José Milton Dallari
Engenheiro, advogado e admistrador de empresas pós-graduado em Economia e Direito Empresarial. É consultor de empresas e de instituições públicas e privadas. Foi um dos formuladores do Plano Real, quando ficou conhecido como ‘xerife dos preços’
Email: mdallari@decisaoconsultores.com.br
Site: http://decisaoconsultores.com.br




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