A afeição dos animais

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Maria Regina Canhos Vicentin
contato@mariaregina.com.br
 

Outro dia aconteceu um fato curioso no local onde trabalho. Havia uma mãe com seus dois filhos pequenos. O bebê ficava no carrinho, escoltado pelo cachorro da família. Durante o atendimento despencou uma chuva danada e, mesmo após o término da entrevista, a água continuava a cair. O jeito foi a mulher ir embora com o auxílio de uma sombrinha logo que a chuva diminuiu, deixando o carrinho para pegá-lo oportunamente. Acontece que o cão, alheio a tudo o que se passou, continuou montando guarda ao lado do carrinho do bebê. Ninguém podia se aproximar. E assim ele ficou uma noite e um dia inteiros, sem comer ou beber nada, até que a dona voltou para buscar o carrinho. Inúmeros funcionários ficaram surpresos com a dedicação do cãozinho. O zelo provavelmente correspondia àquele que teria com sua própria cria. Sem dúvida, ele despertou a admiração de muitos que por ali passaram.

Creio que o espanto maior ficou por conta de sabermos existirem pessoas muito mais relapsas e desleixadas, incapazes de cuidar dos próprios filhos e afazeres, assim como serem leais diante de seus compromissos assumidos. O cão acabou revelando melhor postura que muitas pessoas, sem dúvida
alguma. Essa constatação pode ser chocante dependendo da forma como a enxergamos. Mostra que a programação a que estamos sujeitos atualmente parece alterar até mesmo nossas bases instintivas de preservação da espécie. O natural é cuidar, o antinatural é eliminar. Muitos eliminam seus semelhantes, quer efetivamente dando fim à vida deles quer simplesmente abandonando-os à própria sorte. Nossos abrigos para crianças e adolescentes mostram isso. O número de indigentes e mendigos nas praças e viadutos também. Inúmeros idosos instalados em casas de repouso e asilos não recebem quaisquer visitas. Talvez tenhamos perdido o senso de acolhimento e, nesse sentido, alguns animais parecem apresentar maior afeição que algumas pessoas.

O que fazer diante dessa frieza? Acaso estamos verdadeiramente preparados para conviver com a indiferença? Como dar o que nunca recebemos? Quem não é cuidado e amado pode desenvolver a capacidade de cuidar e amar? São questionamentos que devemos fazer de vez em quando, pois estamos formando um novo tipo de indivíduo. Frio, indiferente, distante, descompromissado, destituído da capacidade de estabelecer vínculos afetivos. Dessa forma, realmente existem muitos animais que expressam maior afetividade e compromisso com a família adotiva.

Involuntariamente, acabo me lembrando de uma célebre frase pronunciada anos atrás por Rui Barbosa, “quanto mais conheço os homens mais admiro os cães”. Penso que ele já havia constatado no passado algo que em breve todos poderemos constatar, principalmente se não houver uma rápida mudança em nossa forma de acolher o próximo, seja ele nosso pai, nosso filho, nosso vizinho, ou apenas um ilustre desconhecido.


Maria Regina Canhos Vicentin
Natural de Jaú/SP. Formou-se em Psicologia pela USP de Ribeirão Preto e em Direito pela Instituição Toledo de Ensino de Bauru. Especializou-se em Educação pela Faculdade Claretianas de Batatais. Psicóloga Judiciária no Fórum da Comarca de Jaú. Profissional Especialista em Psicologia Clínica e em Psicologia Jurídica.Autora dos livros: Buscando a Felicidade (Ed.Celebris), Sementes de Esperança (Ed.Santuário), Temas do Cotidiano (Ed.Santuário), e Superdicas para ser feliz no amor (Ed.Celebris). Agente de Pastoral da Evangelização da Paróquia de São João Batista em Jaú (SP) escreve regularmente para diversos jornais; entre eles, Folha da Região (Araçatuba – SP) e O Lutador (Belo Horizonte – MG), além da Revista O Mensageiro de Santo Antônio (Santo André – SP), e Família Cristã Online (São Paulo – SP).
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