Bota a gente calça e calça a gente bota...

Compartilhar no Facebook

Enviar por email Imprimir este artigo
 

Pergunte a um professor de Educação Física o que é mais importante para a manutenção de uma saúde corporal: alongamentos, musculação ou atividades aeróbicas. Provavelmente o mestre hesitará um pouco e procurará ensinar que se torna difícil hierarquizar o imprescindível ou, em outras palavras, que as três atividades se completam e por isso, são igualmente importantes. O alongamento disponibiliza os músculos para o esforço, a musculação torna-os mais fortes pela repetitividade e a atividade aeróbica exercita a ação cardio vascular, necessitando de músculos disponíveis e fortes.

Pergunte agora a um professor de uma outra disciplina da área de Ciências Humanas, qual é o mais importante para a aprendizagem significativa: trabalhar a significação, explorar habilidades operatórias ou exercitar a descoberta dos segredos que envolvem o mistério das palavras? Provavelmente a resposta não será diferente da apresentada por seu colega de Educação Física. As três ações, se desenvolvidas com persistência e com equilíbrio são importantes, ou mais ainda, constituem ações do professor verdadeiramente imprescindíveis para uma aprendizagem significativa.

Qualquer aluno, de qualquer idade, pode memorizar qualquer coisa. Mas, a memorização mecânica desprovida de significação, constitui tarefa inútil e facilmente perdida pelo cérebro. Qual a diferença em se memorizar, por exemplo: “Abarrutra vricaventra pracimave liturica cratri caho xumatrusca” de se memorizar “Garota mais linda que Eduarda não há?” Em princípio não deveria existir diferença de dificuldade, afinal de contas ambas as sentenças possuem sete palavras, mas enquanto a primeira as expõe com ausência de significação e assim é retida pela memória após muita luta e ainda por pouco tempo, a segunda afirmação evoca-nos lembrança, acorda comparações, pois em verdade é frase de plena significação. O exemplo, bem o sabemos é simplório, mas sua validade se estende para qualquer sentença essencial ou texto expressivo. A mente só guarda o que possui significado e nada é melhor que garantir significado que a vida, as emoções, o entorno e as experiências pessoais do aluno.

Habilidades operatórias são caracterizadas por verbos de ação que exaltam uma capacidade cognitiva ou apreciativa específica, facilitando a compreensão e também estimulando a memória e auxiliando conexões entre saberes diferentes. Melhor que uma definição são exemplos e, portanto, constituem habilidades operatórias verbos como “observar”, “conhecer”, “comparar”, “descrever”, “relatar”, “criticar”, “deduzir” e outros, muitíssimos outros (*). Quando um aluno aprende a plenitude de seu significado e sabe empregá-los para ações diferentes, aprende de forma significativa e retém na memória de maneira incisiva. Quando, levados pela paciência e persistência do mestre, descobre-se toda grandeza e as múltiplas diferenças que envolvem as ações sobre um texto a partir desses verbos, mais facilmente se aprende. Ouvir um relato sobre um tema desta ou daquela disciplina é, sem dúvida, importante, mas a contextualização plena desse tema em uma significação expressiva e uma ação efetivamente prática, somente se manifesta quando após ouvir, o aluno é levado a descrever, comparar, analisar, especificar, discriminar, interagir, sintetizar e ainda outras ações.

Da mesma forma importante que explorar a plenitude da significação e a cognição que o trabalho com habilidades operatórias requer, é também fazer com que os alunos descubram que as palavras, tal como as pessoas, possuem características que vão muito além de sua simplória significação. Existem, bem o sabemos, “palavras doces” e “palavras azedas”, “palavras lindas” e “palavras rudes”, “palavras chulas” e “palavras chiques”. Exercício por certo interessante é levar o aluno a isolar a palavra de sua significação e descobri-la tal como um som e assim com sua musicalidade e, por essa via, mostrar que uma verdade científica não se altera se ao invés de umas, usamos outras palavras. Guarda melhor o que aprende todo aluno que é progressivo e persistentemente estimulado a construir com palavras diferentes o sentido de uma afirmação que acredita importante. Dessa forma, passeando pela sonoridade e vislumbrando os significados descobre que as palavras, tal como os segredos ecológicos de um ecossistema, possuem “alma” e quem a conquista, conquista seus tesouros.

Não nos parece difícil a Língua Portuguesa ou Língua Estrangeira, História, Ciências, Artes, Filosofia ou Geografia ou ainda em outras áreas do saber, o encanto e o devaneio de simultaneamente buscar significação, trabalhar habilidades operatórias e perceber o mistério e a personalidade dos símbolos que nossa mente utiliza. E, por falar nisso, não parece realmente estranho que “bota a gente calça e calça a gente bota?”.


(*) Para maiores detalhes, consultar do autor Trabalhando Habilidades, Construindo idéias. Editora Scipione.2001 e Jogos para a Estimulação das Múltiplas Inteligências. Editora Vozes. 12ª edição. 2003.


Celso Antunes
Bacharel e licenciado em Geografia pela Universidade de São Paulo, Mestre em Ciências Humanas e Especialista em Inteligência e Cognição; Membro da Associação Internacional pelos Direitos da Criança Brincar (UNESCO); Embajador de la Educacion – Organización de Estados Americanos; colaborador emérito do Exército Brasileiro; sócio fundador do Todos pela Educação - Sociedade Civil que reúne lideranças sociais, representantes da iniciativa privada e educadores; autor de cerca de 180 livros e consultor de diversas revistas especializadas em Ensino e Aprendizagem; ministrou palestras e cursos em todos os estados do país, mais de 500 municípios; ministrou palestras e cursos na Argentina, Uruguai, Peru, México e outros países.
Email: celso@celsoantunes.com.br
Site: www.celsoantunes.com.br




Mais textos deste colunista:
Uma Professora de Belezas
Quem ama o feio... ou Darwin que disse
Se assim somos é porque assim imitamos
O cérebro e a sala de aula
Deficiência
Alienação
Cuidado! O nazismo pode estar voltando...
Um "ET" em minha sala (I) - O que aprender
A criança e o mundo dos números
Ensinar o que? II
Competências do Ensino Médio
Saber fazer é bom, saber porque fazer é mais...
Ser leitor
A disciplina em sala de aula
Margarida
Olhar Empático do Mestre
Um sol que não tem tamanho
Um Programa Alternativo
Os Bichos e os Homens
Cérebro Adolescente
Por que ensinar valores?
Nesta escola não existe...
A Plástica e a Caminhada
Por que as crianças se estressam?
O Espaço Tenebroso
Dificuldade de Aprendizagem ou de Sensibilidade?

COMENTE ESTE ARTIGO:
Nome:
Email:

(0 / 255)
O tamanho máximo do comentário é de 255 caracteres.
Atenção!
Você irá receber um email para confirmar seu comentário para que o mesmo seja publicado nesta página, portanto o campo Email é de preenchimento obrigatório e, ao enviar, você assume a responsabilidade pelas suas palavras inseridas neste comentário.
*NOTA : o JornalRMC abre esse espaço para que nossos colunistas exponham, de forma voluntária, seus pontos de vista sobre os assuntos em que são especialistas. Dessa forma, as opiniões apresentadas são de única e exclusiva responsabilidade dos mesmos, não refletindo necessariamente a opinião do portal e de seus editores.

 
SOS Impressoras
Rádio Novo Tempo Campinas
Cadastro Nacional de Pessoas Desaparecidas

.: Acessos: 8.741.310 :. | .: desde Agosto/2007 :. | .: contato: imprensa@jornalrmc.com.br :. | .: desenvolvido por: LINDEMUTH Comunicação :.