Realmente temos sa√ļde mental? (parte 6)

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Vinícius Dottaviano
viniciuspsique@hotmail.com
 

Pensei muito esta semana que passou sobre o in√≠cio do m√™s de junho, o m√™s em que se comemora o dia dos namorados; e pensei muito que as rela√ß√Ķes amorosas s√£o um campo f√©rtil para o aparecimento de muitos complexos. Explico... Nas rela√ß√Ķes interpessoais, nos namoros e nos casamentos reproduzimos a rela√ß√£o que tivemos com nossos pais ou parceiros anteriores, trazendo √† tona traumas de outras √©pocas. Por isso, filhos(as) de m√£es dominadoras na maioria das vezes esperam o mesmo comportamento dos(as) novos(as) companheiros(as). Explico novamente...

Homens e principalmente as mulheres que foram tra√≠das desconfiam de todos os homens. E preconizo que o √ļnico caminho para livrar-se desses complexos √© preciso descobrir como eles se formaram.

Hoje, todo mundo fala em complexo: de inferioridade, de √Čdipo, materno e outros. O termo, criado pela Psiquiatria antiga, incorporou-se √† linguagem popular. O que poucos entendem √© por que nas rela√ß√Ķes amorosas tantos complexos teimam em aparecer. Antes de mais nada, √© preciso compreender o que os estudiosos quiseram dizer com essas express√Ķes. Elas foram cunhadas quando, em testes e an√°lises, percebeu-se que certos atos ou palavras provocavam rea√ß√Ķes exageradas em algumas pessoas, rea√ß√Ķes que revelavam emo√ß√Ķes ocultas.

Tal sistema de associa√ß√£o de id√©ias e sentimentos acreditavam os estudiosos, era aut√īnomo, tinha for√ßa pr√≥pria, levando as pessoas tomadas por ele a reagir de maneira fortemente emocional, mesmo quando n√£o havia raz√£o aparente para tal. Por esse motivo, a psiquiatria dizia que n√≥s n√£o temos os complexos, eles √© que nos t√™m. Criados muitas vezes a partir de conflitos da inf√Ęncia, mas tamb√©m de outras fases da vida, os complexos n√£o s√£o sempre negativos e podem ter boa influ√™ncia sobre o nosso desenvolvimento. Quando, na inf√Ęncia, recebemos carinho, aten√ß√£o e prote√ß√£o, e acreditamos sermos bonitos(as), importantes, capazes, perfeitamente habilitados(as) a ter sucesso na vida, isso acaba nos levando, efetivamente, a boas realiza√ß√Ķes. Se a experi√™ncia infantil n√£o foi positiva, por√©m, podemos nos sentir rejeitados(as) e, com isso, prejudicaremos nossa carreira e tamb√©m nossos relacionamentos futuros.

O fato √© que na parceria amorosa muitas vezes repetimos a rela√ß√£o afetiva que tivemos com nossos pais. Vamos nos sentir amados(as) ou rejeitados(as) da mesma maneira como fomos na inf√Ęncia. Uma atitude de nosso(a) parceiro(a) pode estimular o surgimento de emo√ß√Ķes fortes, incontrol√°veis, e que, no entanto, n√£o ter√£o nada a ver com a situa√ß√£o presente, estando mais ligadas a acontecimentos do passado. Um exemplo √© o de uma pessoa que teve pais dominadores, que faziam com que ele(a) se sentisse fraco(a) e medroso(a). Tomado pelo complexo materno/paterno negativo, quando for se relacionar com outra pessoa ele(a) geralmente e inconscientemente esperar√° que essa(s) pessoa(s) seja(m) controladora (s) e forte(s) como seus pais. Resultando assim em um medo generalizado, por achar que elas sempre querem control√°-lo(a), castr√°-lo(a), domin√°-lo(a). Isso dificultar√° e muito os seus relacionamentos.

Tamb√©m acontece de complexos se formarem mais tarde, em decorr√™ncia de traumas ou de fortes emo√ß√Ķes vividas nos relacionamentos (principalmente os afetivos). Pessoas que foram tra√≠das, por exemplo, est√£o sujeitas a desenvolver complexo negativo em rela√ß√£o aos novos parceiros, sempre esperando talvez uma nova trai√ß√£o. Um ci√ļme ou um medo patol√≥gico se desenvolver√£o, podendo prejudicar ou at√© impedir os novos relacionamentos. A nova rela√ß√£o j√° vir√° com uma carga negativa, conferida pelo complexo. Mesmo que a pessoa seja confi√°vel, n√£o merecer√° confian√ßa, o que impedir√° o relacionamento de prosseguir, aumentando a convic√ß√£o de que ‚Äún√£o se pode mesmo confiar em homem‚ÄĚ ou ‚Äúem mulher‚ÄĚ, dependendo do caso, palavras t√≠picas de quem est√° sob o dom√≠nio de um complexo.

√Č realmente um transtorno, mas poss√≠vel de ser enfrentado. Para isso, em primeiro lugar, √© necess√°rio admitir e ou confirmar que exista mesmo o complexo instalado, e tentando traz√™-lo para a consci√™ncia. Trata-se de um processo nem sempre simples e que pode exigir a ajuda de psicoterapia.

Por fim, uma vez que alcance esse objetivo, as pessoas finalmente v√£o deixar de ver os pais e o seu passado controladores em todas as pessoas com quem se relacionarem e parar√£o de identificar todos os que lhe aparecem na frente com aquele(a) ex-traidor(a). Somente entendendo o onde est√° a raiz dos traumas ser√° poss√≠vel libertar as novas rela√ß√Ķes de suas armadilhas.

Continuo na semana que vem,

Boa Semana


Vinícius Dottaviano
Doutorando em Psicologia da Arte (Unicamp), Mestrado em Artes e Educação (Unicamp), Pós-Graduação em Psicoterapia Cognitiva/Comportamental (UNIAnchieta de Jundiaí), Bacharelando em Direito pela Faculdade Padre Anchieta de Jundiaí/SP, Licenciado em Psicologia pela Faculdade Padre Anchieta de Jundiaí/SP, Licenciado em Dança e Artes Corporais (Unicamp) e Licenciado em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas - PUCC.
Email: viniciuspsique@hotmail.com




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