Realmente temos sa√ļde mental? (parte 20)

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Vinícius Dottaviano
viniciuspsique@hotmail.com
 

Este m√™s que passou, abri uma ‚Äúconta‚ÄĚ no site do Facebook por conta de divulgar o meu trabalho como terapeuta e tamb√©m reencontrar amigos(as) do passado e manter contato com o ‚Äúpresente‚ÄĚ virtual... E percebi que √© um pouco simplista demais a vis√£o dos homens como opressores e das mulheres como as oprimidas; explico...

Acredito que a an√°lise das rela√ß√Ķes entre os g√™neros hoje em dia mostrar√° que isso √© √≥bvio. Por√©m, mesmo do ponto de vista da nossa hist√≥ria, penso que as generaliza√ß√Ķes deste tipo excluem importantes aspectos relacionados com a organiza√ß√£o social, principalmente agora no campo virtual.

Acho que √© muito importante separarmos os humanos em membros das elites e integrantes do povo. As elites sempre oprimiram a grande maioria das popula√ß√Ķes, homens e mulheres. A vida do povo sempre foi t√£o desastrosa que fica dif√≠cil dizer quem √© mais oprimido: se o homem que trabalhava de sol a sol para ganhar o suficiente para comer e dar de comer √† sua fam√≠lia; ou se a mulher que tinha que cuidar de tudo na casa e ainda devia considera√ß√£o ao marido. Eram todos escravos de uma minoria que os oprimia.

Da√≠, a minha pergunta sobre onde tudo isso vai nos levar a n√£o ser para uma desestrutura√ß√£o na nossa sa√ļde mental: ‚ÄúN√£o ser√° isso verdadeiro, ainda hoje, para mais da metade da popula√ß√£o do planeta, a pobreza n√£o s√≥ material, mas tamb√©m a mental???. E o porqu√™ desta pergunta... J√° que as elites sempre foram constitu√≠das de dois grupos: os mais ego√≠stas (usualmente detentores(as) do poder monet√°rio, pol√≠tico e militar), sempre os(as) mais influentes na constitui√ß√£o das normas sociais a serem seguidas pelas pr√≥prias elites; e os(as) mais generosos(as) detentores(as) do conhecimento, guardi√Ķes das religi√Ķes e das pondera√ß√Ķes de ordem moral) que influ√≠am e influem muito sobre o modo de agir do povo ing√™nuo e d√≥cil.

Preconizo que os dois grupos de poderosos sempre rivalizaram entre si, padeceram de rec√≠proca inveja e viveram de forma muito parecida. Os privil√©gios eram divididos de formas desiguais (favorecendo os(as) ego√≠stas, √© claro), mas estavam presentes no cotidiano de todos. O discurso da elite generosa sempre foi usado pelos(as) ego√≠stas, donos(as) do poder, para influenciar no modo de vida das popula√ß√Ķes menos favorecidas, que deveriam se manter obedientes e trabalharem para gerar riquezas para eles.

Sempre convivemos com dois conjuntos de regras: as que eram pregadas para serem seguidas pelo povo e as que determinavam a vida das elites. A maioria dos casamentos n√£o eram feitos com base no amor. O amor, quando existia, se manifestava em paralelo, fora do contexto familiar. A√≠ o amor e o sexo eram vivenciados apenas nos contextos das paix√Ķes e da loucura. Penso que estes acontecimentos eram mais comuns entre os membros das elites do que entre os do povo, obrigados a trabalhar e a viver como escravos.

Preconizo também que já me referi várias vezes em outros textos ao fato de que as escolhas das parcerias extraconjugais eram determinadas essencialmente pelas mulheres, especialmente as mais atraentes. O comportamento dos homens teria que estar de acordo com os critérios de admiração que elas elaboraram. Assim sendo, continuo achando que as mulheres influenciaram, e muito, na constituição dos valores que passaram a ser seguidos pelos homens mais poderosos.

Este aspecto, relacionado com o surgimento do encantamento amoroso e com o interesse sexual feminino, precisa ser mais bem entendido e talvez reavaliado. Sim, porque s√£o muitos os casos em que fica muito dif√≠cil distinguir amor de puro interesse. At√© hoje, vejo muito (agora tamb√©m nas redes sociais) quando as mo√ßas mais novas falam dos rapazes que elas admiram e gostariam de namorar, sempre falam que eles s√£o ‚Äúos mais alguma coisa‚ÄĚ: os mais populares, os mais ricos, os mais bonitos, os mais engra√ßados ou inteligentes, etc...

Faz tempo que não ouço uma moça falar que achou graça em um rapaz porque ele tem um olhar sincero, um jeito de ser delicado, é trabalhador, é honesto, etc... Os critérios de admiração delas ficaram e estão até hoje profundamente comprometidos com um sutil jogo de interesses práticos. Parece que elas ainda olham para os rapazes como seres que deverão lhes ajudar a avançar, a subir um degrau na escalada social, ter bens, etc... Não pensam no companheirismo. Até hoje são estimuladas (pela novela, pela família, pelas amigas, e pelas redes sociais) a pensar que os bons parceiros são os vencedores, aqueles que se destacam em algum aspecto relevante da vida social.
Calma! N√£o estou falando de todas as mulheres e nem generalizando nada, estou apenas querendo separar de forma mais clara amor de interesse, certo??? Ent√£o, gostaria de sugerir aqui que as pessoas possam se afastar dos padr√Ķes sociais, pol√≠ticos, econ√īmicos e culturais vigentes.

√Č preciso que os crit√©rios de valor sejam levados mais a s√©rio e que as pessoas generosas n√£o estejam t√£o contaminadas com os valores dos(as) ego√≠stas que constru√≠ram estes crit√©rios. Eles(as) s√£o todos(as) extremamente superficiais, relacionados(as) mais com a casca do que com o interior das pessoas.

Temos que parar de só valorizar tanto a beleza, a capacidade de seduzir, a competência para se destacar pela habilidade social e principalmente a condição material (efetiva ou potencial). Quem gostar de dinheiro que trate de se empenhar para conquistá-lo; não cabe usar os seus relacionamentos (principalmente os afetivos) para resolver este problema. Pois, parceiros(as) sentimentais admiráveis são aqueles(as) que nos alimentam e gratificam emocionalmente. São os(as) que nos tratam com carinho, respeito, consideração e nos cercam de gentilezas... E mais nada.

Continuo na semana que vem

Boa semana


Vinícius Dottaviano
Doutorando em Psicologia da Arte (Unicamp), Mestrado em Artes e Educação (Unicamp), Pós-Graduação em Psicoterapia Cognitiva/Comportamental (UNIAnchieta de Jundiaí), Bacharelando em Direito pela Faculdade Padre Anchieta de Jundiaí/SP, Licenciado em Psicologia pela Faculdade Padre Anchieta de Jundiaí/SP, Licenciado em Dança e Artes Corporais (Unicamp) e Licenciado em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas - PUCC.
Email: viniciuspsique@hotmail.com




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