Espiritualidade da Quaresma ‚Äď A Li√ß√£o do Cata-Vento

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Maria Regina Canhos Vicentin
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A quaresma se aproxima e com ela os apelos √† convers√£o, renova√ß√£o da f√©, caridade. Meditando sobre esses aspectos, e a import√Ęncia de Deus em nossas vidas, notei que o cata-vento sobre a c√īmoda do meu quarto estava girando. A brisa que entrava pela janela o impulsionava e o fazia dar voltas e mais voltas. O ambiente se encheu de gra√ßa. Subitamente percebi que havia uma correla√ß√£o entre a minha medita√ß√£o e o movimento do cata-vento. √Ä semelhan√ßa da brisa, Deus nos impulsiona, presenteando-nos com a viv√™ncia e experi√™ncia do seu amor, atrav√©s desse tempo de prepara√ß√£o para a P√°scoa.

Quaresma √© convers√£o, mudan√ßa interior, avan√ßo no conhecimento e amor de Cristo. √Č um processo cont√≠nuo que a cada dia nos aproxima mais do Criador. √Č reconhecermo-nos criaturas, constatando que Deus n√£o √© uma for√ßa c√≥smica (como muitos desejam nos fazer crer), e sim algu√©m com quem podemos falar; algu√©m que nos ouve e, principalmente, algu√©m que nos ama e por isso nos criou. Citando Bento XVI: ‚ÄúO ser humano n√£o √© o arquiteto do pr√≥prio destino. N√≥s n√£o criamos a n√≥s mesmos.‚ÄĚ Portanto, convers√£o √© rendi√ß√£o; aceitar que somos criaturas e que dependemos totalmente de nosso Deus Criador.

Todos os anos, o per√≠odo quaresmal nos convida √† reflex√£o e √† a√ß√£o. A Igreja nos prop√Ķe alguns exerc√≠cios espec√≠ficos que auxiliam no processo de convers√£o e renova√ß√£o interior. S√£o: o jejum, a esmola e a ora√ß√£o. Rememorando nossa vida acad√™mica, percebemos que os exerc√≠cios sempre tiveram fundamental import√Ęncia na fixa√ß√£o dos conte√ļdos e na aprendizagem de conceitos. Pois bem, de volta ao presente e estabelecendo um paralelo com o momento atual, eles continuam sendo a melhor forma de assegurar a verdadeira convers√£o.

Ninguém está livre da tentação e do pecado. Os exercícios quaresmais têm o condão de nos armar espiritualmente para vencer o mal e sua influência em nossas vidas, auxiliando-nos a combater o egoísmo e a indiferença face aos demais.

Diferentemente dos meios de comunica√ß√£o, a Igreja nos convida ao jejum n√£o por motiva√ß√Ķes est√©ticas, mas objetivando a purifica√ß√£o interior e o treinamento da saud√°vel ren√ļncia que liberta o indiv√≠duo de suas m√°s tend√™ncias. Muitos dos que convivem com dependentes de √°lcool e drogas sabem avaliar os efeitos de um v√≠cio no comportamento daqueles que amam. Exercitar a ren√ļncia auxilia no estabelecimento da vontade firme e dom√≠nio interior, determinantes na supera√ß√£o de quaisquer depend√™ncias.

Muitos aproveitam a quaresma para fazer o jejum relacionado a caracter√≠sticas ou situa√ß√Ķes corriqueiras, mas que atrapalham no dia a dia. Exemplificando, o jejum da l√≠ngua √© uma delas. As pessoas se comprometem a n√£o fazer intrigas ou maldizer algu√©m. Tamb√©m podem evitar discuss√Ķes contando at√© dez antes de falar. O jejum de pensamentos √© outro exemplo. Nesse caso, a pessoa se esfor√ßa para ter pensamentos bons e agrad√°veis mesmo em rela√ß√£o aos desafetos. Tais m√©todos fortalecem o exerc√≠cio de nosso livre arb√≠trio em praticar o bem.

A esmola, no sentido em que é empregada pela Igreja, traduz a mais pura expressão da caridade, distinguindo-se da filantropia que objetiva o reconhecimento e o destaque. A prática da esmola, além de nos libertar do apego aos bens materiais, representa um meio legítimo de socorrer os necessitados. Não podemos nos esquecer que, de acordo com o ensinamento bíblico, somos apenas administradores dos bens que possuímos, devendo prestar contas ao Senhor de tudo que colocou em nossas mãos para ser partilhado.

Muitos há que preocupam-se apenas em vangloriar-se com suas ofertas, humilhando os menos favorecidos. Estes estão à margem da lógica cristã que nos convida a transcender a dimensão meramente material, experimentando a alegria em dar e um aprofundamento de nossa vocação cristã, sinal verdadeiro de nossa fé em Deus e coerente expressão do seguimento de Jesus.

A ora√ß√£o √© nossa linha direta com o Senhor. √Č o meio atrav√©s do qual tomamos consci√™ncia do que Ele deseja de n√≥s. √Č o exerc√≠cio do di√°logo com o Criador, Aquele que melhor nos conhece e sabe o caminho para a nossa felicidade e salva√ß√£o. √Č certo que muitos de n√≥s s√≥ sabem se lamentar e fazer pedidos, esquecendo-se de agradecer pelas numerosas d√°divas ou colocar-se √† disposi√ß√£o para o servi√ßo do reino.

Orar pressup√Ķe crer que algu√©m nos ouve e pode nos auxiliar. √Č no pr√≥prio exerc√≠cio da ora√ß√£o que vamos encontrando respostas para as nossas in√ļmeras perguntas. A proximidade com Deus nos faz confiantes e menos temerosos em rela√ß√£o ao futuro. O sincero desejo em imit√°-lo nos leva deliberadamente a rejeitar o mal e buscar o bem.

Quaresma é conversão. Despojamo-nos cada vez mais do homem velho para vivenciar a renovação que vem da proximidade com o Senhor, Aquele que nos guia com seus próprios olhos.

Quaresma é rendição. Entregamo-nos nas mãos do nosso Criador, certos de que Ele sabe o que é melhor para nós. Deixamos de buscar nossas próprias conveniências e aceitamos servir com alegria e gratidão a Aquele que tudo nos deu e a quem tudo pertence.

Quaresma √© estabelecimento e viv√™ncia de compromissos espec√≠ficos: jejum, esmola, ora√ß√£o. Ocasi√£o prop√≠cia para aprofundar o sentido e o valor do ‚Äúser crist√£o‚ÄĚ, tirando o foco do ‚Äúeu‚ÄĚ para direcion√°-lo ao ‚Äúoutro‚ÄĚ, principalmente o menos favorecido.

Transpondo tudo isso para nossa realidade, gostaria de sugerir que as pessoas voltem a frequentar regularmente as missas, pois a escuta da Palavra e a Comunh√£o podem assegurar verdadeiros milagres em nossas vidas. √Č dessa forma que Deus se comunica conosco. O comodismo n√£o pode nos afastar do contato com o nosso Criador. Lembremo-nos que tudo √© d√°diva de Deus e precisamos agradecer.

Voltando ao cata-vento, ele ainda se compraz com a brisa e se agita alegremente. Gostaria de concluir afirmando que o Senhor é o sopro sem o qual nós (cata-ventos) desfalecemos e perdemos todo o movimento. Assim convido a todos para a realização dos exercícios quaresmais, na certeza que irão nos assegurar maior tenacidade e fibra diante dos desafios cotidianos.


Maria Regina Canhos Vicentin
Natural de Ja√ļ/SP. Formou-se em Psicologia pela USP de Ribeir√£o Preto e em Direito pela Institui√ß√£o Toledo de Ensino de Bauru. Especializou-se em Educa√ß√£o pela Faculdade Claretianas de Batatais. Psic√≥loga Judici√°ria no F√≥rum da Comarca de Ja√ļ. Profissional Especialista em Psicologia Cl√≠nica e em Psicologia Jur√≠dica.Autora dos livros: Buscando a Felicidade (Ed.Celebris), Sementes de Esperan√ßa (Ed.Santu√°rio), Temas do Cotidiano (Ed.Santu√°rio), e Superdicas para ser feliz no amor (Ed.Celebris). Agente de Pastoral da Evangeliza√ß√£o da Par√≥quia de S√£o Jo√£o Batista em Ja√ļ (SP) escreve regularmente para diversos jornais; entre eles, Folha da Regi√£o (Ara√ßatuba ‚Äď SP) e O Lutador (Belo Horizonte ‚Äď MG), al√©m da Revista O Mensageiro de Santo Ant√īnio (Santo Andr√© ‚Äď SP), e Fam√≠lia Crist√£ Online (S√£o Paulo ‚Äď SP).
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