Quem ama o feio... ou Darwin que disse

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Por que quem ama o feio, bonito lhe parece? Por que alguns acham as loiras divinais e não sentem igual fascínio pelas morenas, enquanto outros sabiamente concordam com a letra do samba que reafirma loas as mulatas e as pretas? Por que o churrasco tem tantos partidários quanto o peixe grelhado ainda que nem sempre os mesmos e porque os bebedores de cerveja, em geral não olham com admiração os que apreciam os vinhos?

As respostas a essas questões e uma série enorme de outras que envolvem gostos e preferências tornam-se mais simples quando suas origens são procuradas ao mesmo tempo na Biologia e na Antropologia Cultural. Na Biologia, porque trazemos em nossa estrutura genética a herança marcante da evolução da espécie e na Antropologia porque nossos gostos ainda que desenhados pelas raízes de nosso passado, foram progressivamente modelados pela educação e pelos exemplos recebidos. Gostamos do que não nos causa medo ou espanto, odiamos tudo quanto nos assusta e parece ameaça; preferimos o que nossos pais e amigos nos ensinaram preferir, refutamos o que esses educadores por seus hábitos refutavam.

Mas, o que isso tem a ver com o professor e com sua sala de aula?

Tudo. Ainda que não exponha verbalmente por temer palavras que foram transformadas em politicamente incorretas, todo professor ou professora prefere alunos que se parecem consigo próprio e que, portanto, comunga com seus gostos. Por essa razão, tanto do ponto de vista biológico como antropológico, é normal que os professores prefiram certos alunos a outros, elegendo os que demonstram igual respeito pelo conhecimento, pelos cuidados com a ordem, pela atenção a sua fala, pelas regras do viver e pela sinceridade que tanto pregam. Darwin cansou de demonstrar que o que nos parece diferente, parece ameaçador e que a imperiosa necessidade de viver em grupo, levou-nos desde os primórdios dos tempos a nos aproximar dos iguais e a ver como inimigo os desiguais, a associar a imprescindível segurança, à semelhança.

E como fica essa herança biológica diante da necessidade cotidiana de acolher também os desiguais?

A resposta a essa questão ficaria difícil se não fosse a ajuda da Antropologia Cultural. Através da mesma, descobre-se que a aprendizagem autêntica pode trazer mudanças racionais a condicionamentos biológicos. Em outras palavras, a vontade consciente de aprender ajuda a superar preconceitos e assim se descobre que tanto uma linda loira quanto uma escultural morena podem nos parecer viáveis para compartilhar nossos genes, mas ainda assim, para evitar tempestades, escolhemos uma ou outra. Da mesma forma como é plenamente natural que o professor prefira alguns alunos a outros, é essencial que pratique a consciente aprendizagem de que é professor de todos e que como mestre verdadeiro precisa até mesmo aprender amar quem o rejeita como meio de ensinar o amor a quem em princípio não o ama.

Uma aprendizagem possível, entretanto, jamais significou uma fácil aprendizagem. É literalmente inútil sugerir aos professores que amem pessoas diferentes, mas é plausível racionalizar discussões sobre esse assunto e com tenacidade e paciência usar a Antropologia para, com a devida permissão de Darwin, modelar a herança biológica persistente.


Celso Antunes
Bacharel e licenciado em Geografia pela Universidade de São Paulo, Mestre em Ciências Humanas e Especialista em Inteligência e Cognição; Membro da Associação Internacional pelos Direitos da Criança Brincar (UNESCO); Embajador de la Educacion – Organización de Estados Americanos; colaborador emérito do Exército Brasileiro; sócio fundador do Todos pela Educação - Sociedade Civil que reúne lideranças sociais, representantes da iniciativa privada e educadores; autor de cerca de 180 livros e consultor de diversas revistas especializadas em Ensino e Aprendizagem; ministrou palestras e cursos em todos os estados do país, mais de 500 municípios; ministrou palestras e cursos na Argentina, Uruguai, Peru, México e outros países.
Email: celso@celsoantunes.com.br
Site: www.celsoantunes.com.br




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