O Sagrado Silêncio Texto de abertura da exposição no Centro Cultural Antonia Marçon Bonicio,São Bernardo do Campo
Autor: Marizilda Marcondes
Foto: Arquivo José Martinatti
José Martinatti e sua belíssima obra
Hoje recebemos aqui o artista plástico José Martinatti, que elegeu o tema África, Mulheres Africanas, para desenvolver seus belíssimos quadros.
O pintor José Martinatti vem silenciosamente, dia a dia, nos trazendo verdadeiros tesouros de uma terra e de um povo que estão distantes de suas próprias raízes e que por isso mesmo provocam o fascínio de quem as vê, porque apenas espiritualmente é possível conceber uma explicação para a lucidez que suas pinceladas trazem numa verdadeira intimidade, amplamente explorada em sua série de mulheres negras africanas.
Expõe de modo sintético e firme a coerência que há nessas mulheres e que tanto falta, a nós, sujeitos civilizados que estamos esquecendo que a vida é cercada de um fundamento intimo, a saber, nossa espiritualidade.
E porque tão distante foi munir-se de matérias, cores, posturas, objetos, vegetações, céus, marcas, vasos, braceletes e toda a indumentária que povoa suas composições?
Nada a se declarar aqui por palavras porque estas apenas resvalarão, parcamente, neste mundo de símbolos e metáforas, e é apenas pelo intuitivo que podemos nos aproximar destas mulheres esguias, com suas filhas sempre juntas ao corpo, destas sinuosidades insinuantes e calmarias garantidas que flutuam como entendimento da vida, no meio de vastas savanas e ao lado destes vasos que estão a firmar-se como objetos do sagrado, intensos, tanto quanto nos inúmeros penduricalhos imagéticos que brilham, caprichosamente, pedindo a nossos olhos que igualmente irradiem esta oferenda de fortuna.
José conseguiu dar voz e cor a seu inconsciente coletivo de forma eqüitativa e verdadeira porque a diferença entre o homem formal apresentado a sociedade e o pintor especulativo é gritante, e ouso dizer que esta diferenciação só reforça a idéia de que raça é algo tão gasto e infundado que ai estão as provas reais, apresentadas através desta completude paciente e cheia de beleza, presente em seus trabalhos.
O sujeito José conseguiu tão distante (espaço) e tão perto (tempo) de suas matrizes trazer a África gentil e envolvente para nossos olhos, não de graça, mas com a facilidade dos que tem vontade, coragem e ímpeto espiritual para isso.
O resultado, belíssimo, é este: firmam-se harmoniosamente três mulheres esguias, instala-se a guerreira sem guerra, a mãe com seus filhos num por de sol, as mulheres colhedeiras cheias de oferendas, a solitária que reforça suas convicções e muitas outras mulheres que vem nos dizer o porque destes contornos de puro prazer para se olhar.
O caminho é longo, mas que nele continue reinando sempre a força do silencio que existe na pintura de Jose Martinatti, pois aguardaremos pacientemente que outras mulheres africanas venham nos avisar que a vida ai está, para que seja revelado e vivido o direito sagrado de sonhar!
Veja outros trabalhos de Jose Martinatti pelo site: http://josemartinatti.multiply.com/photos/album/1/MEUS_TRABALHOS