Feliz 2026?

Por AILTON VENDRAMINI *

A virada para 2026 não marca apenas mais um ciclo no calendário. Marca, sobretudo, a consolidação de tendências que vêm sendo ignoradas ou subestimadas. O próximo ano será duro para o Brasil, não por fatalidade econômica, mas por ausência histórica de visão estratégica. E, como em outras vezes, as oportunidades estarão novamente expostas — com o risco real de serem desperdiçadas.

O mundo já não opera sob a ilusão de uma globalização ingênua, muito bem aproveitada no passado pela China e negligenciada pelo Brasil. Cadeias produtivas estão sendo redesenhadas, tecnologias críticas estão sendo protegidas e recursos estratégicos passaram definitivamente da esfera econômica para a esfera geopolítica. Em 2026, não vence quem cresce mais rápido, mas quem controla gargalos.


De G-7 e G-20 a um possível G-2: o mundo está se estreitando.

Durante décadas, falamos em G-7 como o centro do poder econômico global. Depois, em G-20, como sinal de um mundo mais multipolar. Em 2026, começa a se tornar plausível algo ainda mais incômodo: um mundo funcionalmente organizado em torno de um G-2. O G-2 competirá em algumas áreas e cooperará em outras, e nós, bem nós….

Estados Unidos e China não são apenas grandes economias. São:

  • polos tecnológicos;
  • centros de decisão sobre cadeias globais;
  • definidores de padrões industriais, energéticos e digitais.

O restante do mundo, inclusive potências médias, corre o risco de se tornar periferia sofisticada — fornecedora de insumos, mercado consumidor e espaço de disputa indireta quando não houver acordo.

  1. A pergunta para o Brasil não é ideológica:- Queremos ser ator ou terreno de jogo de titãs?

Terras raras: outra oportunidade que se apresenta.

Poucos temas simbolizam tão bem a nova geopolítica quanto as terras raras. Não se trata de mineração comum. Trata-se de insumos críticos para:

  • motores elétricos;
  • turbinas eólicas;
  • semicondutores;
  • sistemas de defesa;
  • tecnologias de inteligência artificial.

O erro histórico do Ocidente foi desprezar o refino a etapa mais complexa, poluente e estratégica (começou forte com a General Motors e não vingou). A China não cometeu esse erro. Aceitou custos ambientais e margens menores para dominar o processo — e hoje controla a maior parte da cadeia global.

O Brasil, detentor de reservas relevantes, enfrenta novamente uma bifurcação:

  • exportar minério bruto, como sempre; ou investir em refino, tecnologia e cadeia completa.
  • Minério sem refino é dependência disfarçada de riqueza.

2026 pode ser o ano em que o Brasil decide se continuará apenas extraindo valor ou se passará a retê-lo.


Inteligência artificial: tecnologia real, expectativas infladas.

A inteligência artificial segue como tecnologia transformadora, mas os sinais de exuberância financeira se tornam mais claros. Investimentos crescem mais rápido do que receitas, e a conta econômica não fecha. Liquidez não deve crescer indefinidamente, então, o freio deve vir.

Isso não invalida a IA — invalida o mito.

Para o Brasil, a oportunidade não está em competir com gigantes de infraestrutura, mas em:

  • usar IA para aumentar produtividade;
  • melhorar políticas públicas;
  • estruturar dados como ativo estratégico.

Sem isso, a IA será apenas mais uma onda tecnológica importada, aprofundando a assimetria com o centro do sistema.


Créditos de carbono: riqueza potencial, instituições frágeis.

Em um mundo pressionado por metas climáticas, créditos de carbono tornam-se ativo estratégico. Poucos países possuem condições naturais tão favoráveis quanto o Brasil. Ainda assim, seguimos hesitantes em criar um mercado robusto, transparente e confiável.

Sem uma bolsa de carbono séria:

  • venderemos barato;
  • perderemos credibilidade;
  • veremos outros capturarem o valor que poderia financiar preservação e desenvolvimento.
  • Preservação sem instituição vira retórica.
  • Instituição sem visão vira burocracia.

Estatais e governança: o obstáculo interno persistente.

Nenhuma estratégia se sustenta sem execução. E execução depende de governança. O modelo das estatais brasileiras, especialmente nos níveis estadual e municipal, continua marcado por:

  • baixa meritocracia;
  • alta interferência política;
  • descontinuidade administrativa.

Sem reformar esse núcleo duro, qualquer projeto de país para 2026 poderá ser bem escrito, mas mal executado.


A armadilha da renda média continua aberta.

O maior risco de 2026 não é uma crise abrupta, mas a normalização da estagnação. Crescer pouco, inovar pouco, refinar pouco, decidir tarde. Assim se consolida a armadilha da renda média do brasileiro que se arrasta, arrasta…

O Brasil não empobrece dramaticamente.
 Ele fica para trás silenciosamente.


Conclusão: Feliz 2026? Depende das escolhas!

2026 será um ano duro, mas didático. As oportunidades não estarão escondidas. Estarão escancaradas.

Terras raras, refino, carbono, dados, governança, reposicionamento global — tudo estará sobre a mesa. O que falta não é diagnóstico, nem recurso natural. Falta visão política de longo prazo.

O que as cartas que estão sobre a mesa preveem para o Brasil?

  • Crescimento medíocre, sem nenhum salto estrutural;
  • Política fiscal restritiva, juros altos, dívida alta;
  • Câmbio volátil, já que o dólar também não está respeitando fundamentos lá fora,  os exportadores de commodities devem aliviar a pressão do câmbio;
  • Estatais, governança débil, déficits;
  • Capital humano sem estratégia e subutilizado;
  • IA – Inteligência Artificial, nenhuma criação, política de seguidores e gestão pífia de aplicação;
  • Despesas obrigatórias (previdência, pessoal, saúde e educação) continuarão a consumir a maior parte do orçamento, reduzindo o espaço residual para investimentos embutidos;
  • Ajuste fiscal importante, seja lá quem ganhe as eleições para presidente. Qual o ajuste $$$? Até atingir dois a três pontos porcentuais positivos do PIB. Detalhe: Aumentar receita gerará uma rebelião nacional, resta, cortar gastos. Onde??? Um deles será mexer nas políticas públicas federais de proteção social, voltadas à redução da pobreza e à garantia de renda mínima. E, Ponto.;
  • Nossos dirigentes estarão ainda mais focados no próprio umbigo, sobrevivência política é a palavra do jogo. Quem sobrevirá? Forte capacidade de coalizão e zero pureza ideológica.

O Brasil “pode” criar valor duradouro em 2026 se focar em:

  • capacidade de refino e cadeia industrial de terras raras;
  • governança de dados pública robusta;
  • independência tecnológica (software + hardware críticos);
  • política industrial de longo prazo, não ciclo eleitoral;
  • cooperação entre a academia e a indústria com lastro do governo central;
  • meritocracia institucional como norma, não exceção.

Feliz 2026 não será um desejo automático. Será o resultado — ou a ausência — de escolhas estratégicas acertadas ou equivocadas.

* AILTON VENDRAMINI, Engenheiro eletrotécnico com 40+ anos no setor privado (ABB, VA TECH, Schneider, Veccon etc.), liderando contratos e grandes projetos. Experiência executiva no Brasil e exterior. Hoje, Diretor de Dados & Estatística e DPO de Hortolândia, à frente de LGPD e projetos de dados/IA. Articulista e consultor; MBA USP, pós-graduações FGV e especialização em Big Data.

Sobre o Autor