Respondendo à uma criança de 13 anos

Por AILTON VENDRAMINI *

As crianças sempre fizeram perguntas difíceis aos adultos. Muitas delas, passamos por essa vida sem encontrar a resposta adequada. A geração atual, seja sob qual letra as denominamos, não é diferente. E, nessa vibe, recebi o torpedo:- Tio, se a internet já deixa a gente ter acesso a tudo que está por aí, por que precisamos de aplicativos nos celulares?

Pois é, é para pensar! Mas, pensemos na resposta para esse capetinha de 13 anos.

Construindo a resposta- a Web (internet) é como uma avenida pública. Você entra pelo navegador (Chrome, Firefox…), digita um endereço e pronto: qualquer celular ou computador consegue usar, sem instalar nada. Não é uma maravilha! Já os aplicativos (apps) são como lojas especiais dentro do seu celular. Eles conversam direto com as “partes do aparelho”: câmera, GPS, microfone, notificações. Por isso servem melhor para coisas que exigem força e rapidez — jogos, mapas, fotos e vídeos — e podem funcionar mesmo com a internet fraca ou sem sinal.

Entendendo que não se trata de uma criança qualquer, devemos devolver a bola para que ela pense:- Existe um meio-termo chamado PWA (Aplicativo Web Progressivo): é um site que pode virar ícone na tela, mandar aviso e guardar um pouco dos dados para funcionar offline. Ele ajuda a Web a parecer um app. Que tal? Vai encarar?

Ela encarou e pediu um exemplo, então, lá fomos nós:- São arquiteturas usadas em plataformas como Twitter Lite, Spotify Web, Uber Web e mesmo portais de “governos modernos”, exatamente para reduzir exclusão digital e economizar armazenamento de memória nos celulares.

Regra simples para lembrar:

  • Se é para todo mundo acessar (informações, agendamento, boletim de escola): sites bem-feitos.
  • Se precisa usar bastante a câmera, o GPS, notificação ou rodar rápido: app.

Resumo: a Web é a avenida para todos; o app é a ferramenta especial quando o celular precisa “trabalhar pesado”.

Aí, pensei, e se ela tivesse 18 anos, como seria a resposta?

A Web foi desenhada para universalidade e baixo atrito; é a “infraestrutura pública” do digital. Os apps nativos exploram o acoplamento ao hardware (câmera, GPU, sensores, armazenamento seguro, push em tempo real) e entregam latência menor e experiências ricas. Entre ambos, as PWAs reduzem o hiato com service workers, cache, notificações e instalação leve — mas ainda não substituem integralmente a profundidade do nativo (acesso a APIs avançadas, codecs, aceleração gráfica).

Critérios pragmáticos:

  1. Escopo e inclusão: serviços universais devem ser Web-first (acessível, responsiva, leve). O App nativo entram onde há requisitos de performance ou hardware.
  2. Conectividade e operação de campo: se o offline é crítico (saúde da família, fiscalização, inventário com scanner, coleta em território), o App nativo tende a ser superior.
  3. Custo social e manutenção: a Web evita barreiras (lojas, espaço em disco, franquia de dados). O App agrega valor quando justifica o ciclo de atualizações e a dependência de loja.
  4. Arquitetura e dados: interoperabilidade via APIs, catálogo de dados e governança LGPD devem preceder a interface. Arquitetura vem antes da “vitrine”: implementar Web + App sem camada de dados bem projetada é pintar a fachada com o alicerce trincado.
  5. Observabilidade e evolução: medir telemetria, erros, tempo de carregamento e conversão. Onde Web for suficiente, padronize; onde o App entregar valor líquido (UX, segurança, offline), invista — mas com paridade mínima: o básico precisa permanecer acessível na Web.

Conclusão:- (visão pública): governos que priorizam “ter um App” antes de organizar seus dados invertem o problema. O caminho sustentável é dados governados (idealmente num Data Lakehouse com qualidade, linagem e segurança), APIs abertas e duas faces complementares: Web universal + app de alto desempenho onde fizer sentido. O futuro inteligente é híbrido, inclusivo e mensurável.

Nota de rodapé — glossário rápido

  • PWA (Aplicativo Web Progressivo): site que usa recursos modernos (cache, notificação, ícone) para parecer um App leve.
  • API: interface padronizada para sistemas trocarem dados com segurança e controle.
  • Interoperabilidade: capacidade de diferentes sistemas conversarem preservando contexto e privacidade.
  • Data Lakehouse: arquitetura de dados que combina Data Lake (flexível, múltiplos formatos) com Data Warehouse (governança, desempenho), servindo análises e IA com qualidade.

Bem, ao final é sempre bom mandar um:- Você entendeu? Assim, ela voltará (espero)

* AILTON VENDRAMINI, Engenheiro eletrotécnico com 40+ anos no setor privado (ABB, VA TECH, Schneider, Veccon etc.), liderando contratos e grandes projetos. Experiência executiva no Brasil e exterior. Hoje, Diretor de Dados & Estatística e DPO de Hortolândia, à frente de LGPD e projetos de dados/IA. Articulista e consultor; MBA USP, pós-graduações FGV e especialização em Big Data.

Sobre o Autor