Quando foi que deixamos de ser crianças?
Por AILTON VENDRAMINI *
O Brasil vive um momento curioso. Um país frequentemente colocado diante de encruzilhadas — econômicas, políticas e sociais — acaba obrigado a escolher caminhos cujo escrutínio nem sempre garante que a vontade de quem vota se transforme, de fato, em direção coletiva. Em meio a esse ruído, surge uma pergunta incômoda: em que momento perdemos o espírito de criança?
Talvez antes seja preciso responder outra pergunta, ainda mais difícil: qual é a identidade do Brasil?
Durante décadas, aprendemos que o país seria a síntese harmoniosa de três matrizes — indígena, europeia e africana. Essa narrativa ganhou força com o trabalho do sociólogo Gilberto Freyre em Casa-Grande & Senzala. A ideia de uma sociedade miscigenada, tropical e cordial transformou-se quase em uma identidade oficial.
Mas essa interpretação nunca foi consenso. Para o antropólogo Darcy Ribeiro, o Brasil não nasceu de uma síntese pacífica, mas de um processo histórico muito mais duro. Colonização, desigualdade, violência e conflitos moldaram aquilo que ele chamaria de um “povo novo” — uma sociedade ainda em formação, ainda tentando compreender a si mesma.
Talvez por isso muitos brasileiros se reconheçam menos nas teorias e mais naquilo que o país produz. O Brasil do carnaval, do futebol, da música popular, da língua portuguesa reinventada nas ruas. Uma identidade vivida, cotidiana, que resiste às tentativas de definição formal.
Ainda assim, até esses símbolos parecem sofrer desgaste. Quantos de nós ainda ligamos a televisão para ouvir um narrador gritar “é dez!” na apuração das notas das escolas de samba? A cultura popular continua viva, mas o país parece cada vez mais fragmentado em suas referências.
E aí surge o paradoxo brasileiro: somos simultaneamente um dos países com maior desigualdade do mundo e um dos que possuem maior capacidade de produzir cultura popular integradora. Entre exclusão estrutural e vitalidade cultural talvez esteja o traço mais honesto da identidade nacional.
A pergunta inevitável é: até que ponto essa tensão aguenta sem se romper?
Para pensar nisso, vale recorrer a uma metáfora poderosa do filósofo Friedrich Nietzsche, apresentada em “Assim Falou Zaratustra”.
Nietzsche descreve três metamorfoses do espírito humano.
Primeiro vem o camelo, o espírito que carrega pesos. É o estágio da disciplina, da aceitação de deveres, das responsabilidades herdadas. O camelo suporta as normas e as instituições, porque entende que a vida exige esforço e resistência.
Depois surge o leão, que se rebela contra aquilo que foi imposto. O leão enfrenta o grande dragão do “tu deves” e responde com um grito de autonomia: “eu quero”. É o momento da ruptura, da crítica, da libertação das velhas estruturas.
Mas há um limite nesse estágio. O leão sabe destruir valores antigos, porém ainda não sabe criar novos.
Somente na terceira metamorfose aparece a criança. E, para Nietzsche, a criança não simboliza ingenuidade. Ela representa criação, recomeço, a capacidade de inventar novos valores e dizer “sim” à vida.
Talvez o drama contemporâneo — no Brasil e em muitos outros lugares — seja permanecer preso entre o camelo e o leão. Carregamos o peso de instituições antigas enquanto questionamos quase tudo ao nosso redor. No entanto, a capacidade de criar algo novo parece cada vez mais rara, mais distante, menos visível.
É aqui que essa reflexão encontra o mundo do empreendedor.
Empreender, no fundo, é recuperar a terceira metamorfose. É ter a coragem de imaginar caminhos onde antes existiam apenas estruturas rígidas ou disputas intermináveis.
O Brasil precisa da disciplina do camelo. Precisa também da coragem do leão. Mas talvez o que mais esteja faltando seja a criança — aquela energia capaz de olhar para o futuro sem medo de inventá-lo.
A pergunta que fica não é apenas filosófica.
Quando foi que deixamos de ser crianças?
E, mais importante ainda: será que ainda sabemos voltar a ser?
* AILTON VENDRAMINI, Engenheiro eletrotécnico com 40+ anos no setor privado (ABB, VA TECH, Schneider, Veccon etc.), liderando contratos e grandes projetos. Experiência executiva no Brasil e exterior. Hoje, Diretor de Dados & Estatística e DPO de Hortolândia, à frente de LGPD e projetos de dados/IA. Articulista e consultor; MBA USP, pós-graduações FGV e especialização em Big Data.