Estruturante ou Relevante?

AILTON

Por AILTON VENDRAMINI *

Vivemos um tempo curioso: nunca se falou tanto em impacto — e nunca se construiu tão pouco aquilo que, de fato, sustenta o futuro.

Essa semana recebi de um amigo, Ari D’Azuz, um ensaio sobre sua trajetória profissional. Um trecho chamou minha atenção. Ele afirma ter contribuído “de forma decisiva para o planejamento, operação e desenvolvimento de projetos estruturantes”.

A palavra não é trivial.

Lembremos de Thomas Kuhn. Quando introduziu o conceito de paradigma, ele não apenas cunhou um termo — ele ofereceu uma lente para compreender como o conhecimento evolui. O problema é que, com o tempo, certos conceitos se banalizam (ex: quebra de paradigma). Tornam-se expressões de efeito, esvaziadas de rigor.

Talvez estejamos fazendo o mesmo com a ideia de impacto.

No debate público e na gestão, o que ganha espaço é o que parece relevante. O que responde ao problema imediato. O que gera visibilidade. Enquanto isso, o estruturante — aquilo que sustenta, integra e reorganiza sistemas — permanece em segundo plano.

A distinção é simples, mas decisiva:

O relevante descreve o problema.
O estruturante redefine o sistema que produz o problema.

Na prática, o gestor moderno — público ou privado — frequentemente se encanta com dashboards, indicadores, visualizações. Confunde visibilidade com transformação. Investe em respostas rápidas, ações pontuais, soluções de curto prazo.

Mas, negligencia o que realmente importa:
modelo, integração, governança, direção estratégica.

Plagiando Eisenhower — e aqui com a devida humildade — não se trata de substituir sua matriz. Ela organiza o tempo: o que é urgente, o que é importante, o que deve ser feito, delegado ou eliminado.

O que propomos é outra camada de análise.

Eisenhower organizou o tempo.
Aqui, buscamos organizar o sentido.

Se urgência e importância tratam da pressão do presente, talvez devêssemos incorporar duas novas dimensões:

  • Relevância → impacto percebido no problema atual
  • Estruturante → capacidade de alterar a base do sistema

A partir disso, surge uma matriz simples.


A matriz relevante × estruturante

Alto estruturante + alta relevância
Aqui está o mapa da mina.
São projetos que resolvem o problema atual e, ao mesmo tempo, reconfiguram o sistema. Raros, complexos e transformadores.


Alto estruturante + baixa relevância
Aqui mora o perigo silencioso.
Projetos tecnicamente elegantes, mas desconectados da dor imediata. Correm o risco de se tornarem “projetos bonitos que ninguém usa”.
Ainda assim, não são inúteis — são investimentos de longo prazo, frequentemente incompreendidos no presente.


Baixa estruturante + alta relevância
Aqui está a política do dia a dia.
Resolve problemas reais, atende demandas urgentes, sustenta a operação. É essencial para a sobrevivência institucional.
Mas, isoladamente, não transforma nada.


Baixa estruturante + baixa relevância
Aqui está o desperdício.
Não resolve o presente, não constrói o futuro. Deve ser eliminado sem hesitação.


Essa matriz separa duas coisas que frequentemente se confundem:

resolver sintomas e alterar causas.

E talvez a pergunta mais importante para qualquer gestor — público ou privado — seja esta:

“Isso melhora o sistema ou apenas melhora o dia?”

Se houver uma forma possível de avaliar uma trajetória profissional, talvez não seja pelo volume de decisões tomadas, nem pela urgência dos problemas enfrentados.

Mas por algo mais silencioso — e mais raro:

o quanto se contribuiu para redesenhar o sistema que produz os problemas.

Tenho a certeza de que o meu amigo fez exatamente isso ao longo de 50 anos e documentou isso nas suas primeiras linhas.

* AILTON VENDRAMINI, Engenheiro eletrotécnico com 40+ anos no setor privado (ABB, VA TECH, Schneider, Veccon etc.), liderando contratos e grandes projetos. Experiência executiva no Brasil e exterior. Hoje, Diretor de Dados & Estatística e DPO de Hortolândia, à frente de LGPD e projetos de dados/IA. Articulista e consultor; MBA USP, pós-graduações FGV e especialização em Big Data.

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