Escolar Office revela um mercado que vai além do material escolar: inclusão, criatividade e experiências ganham espaço

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Por Cárla Falcão

Entre tantos lançamentos, o que mais me chamou a atenção foram produtos que parecem responder a questões muito atuais: inclusão, neurodiversidade, excesso de telas, organização da rotina, estímulos sensoriais e a própria necessidade de devolver espaço ao brincar.

Patos, cerejas, borboletas, gatos, capivaras, cores e estampas dividem espaço com produtos sensoriais, materiais pedagógicos, itens de organização e propostas que incentivam crianças a trocar parte do tempo diante das telas por experiências mais criativas.

Foi esse cenário que encontrei durante minha visita à Escolar Office Brasil 2026, realizada no Expo Center Norte, em São Paulo. Considerada pela organização o principal hub de negócios de papelaria e organização da América Latina, a edição reuniu 280 expositores, aproximadamente 22 mil visitantes e representantes de 30 países.

Os números ajudam a dimensionar um mercado que há muito tempo deixou de conversar apenas com pais em busca da lista de material escolar. Papelaria também se tornou objeto de desejo, expressão de personalidade e um segmento que acompanha mudanças de comportamento do consumidor.

Inovação começa pela escuta

No Grupo Leonora, conheci um trabalho voltado ao desenvolvimento e aprimoramento de produtos a partir da aproximação com famílias de crianças neurodivergentes. A proposta parte da escuta das necessidades dessas famílias para entender como os produtos podem contribuir de maneira mais efetiva para diferentes formas de aprender, brincar e experimentar o mundo.

É uma mudança interessante na própria maneira de pensar inovação. Em vez de começar exclusivamente pela tecnologia ou pela criação de um novo produto, o processo passa também pela pergunta: para quem estamos criando?

Essa percepção apareceu de diferentes maneiras ao longo da feira.

Na Nova Cadernos, por exemplo, o acabamento das capas transforma um objeto cotidiano em uma experiência sensorial. A empresa utiliza técnicas como a gofragem, que cria relevos e texturas perceptíveis ao toque.

Além do resultado estético, o recurso amplia as possibilidades de interação com o produto e chamou minha atenção especialmente pela experiência tátil que pode proporcionar, inclusive para pessoas com deficiência visual.

É um exemplo de como design, acabamento e sensorialidade podem coexistir em um produto tradicional como o caderno.

Menos telas, mais mãos em movimento

Outra tendência que ficou evidente nos corredores da feira foi a valorização de atividades manuais.

Pintar, desenhar, montar, escrever, organizar e criar aparecem como contraponto a uma infância cada vez mais atravessada pelas telas.

Telas para pintura acompanhadas de tintas, materiais artísticos e brinquedos pedagógicos convidam as crianças a deixar a posição de espectadoras para produzir alguma coisa com as próprias mãos.

Na BRW, esse conceito aparece de maneira especialmente lúdica. Entre os produtos apresentados, propostas que recuperam brincadeiras simples, como usar giz para desenhar na calçada, convivem com materiais criativos que estimulam imaginação, experimentação e autonomia.

É quase uma mensagem silenciosa em meio a tantos lançamentos: criança ainda precisa ser criança.

E talvez exista inovação justamente em atualizar experiências que sempre fizeram parte da infância, em vez de necessariamente substituí-las por uma tela.

Até a rotina ganhou mais personalidade

O mesmo movimento aparece em produtos que transformam tarefas cotidianas em experiências mais leves e divertidas.

Na Plasútil, personagens, cores e elementos que acompanham tendências atuais, entre eles gatos e as populares capivaras, aparecem em produtos da linha escolar e em itens presentes na rotina das famílias.

Pode parecer apenas uma escolha estética, mas existe uma leitura de comportamento por trás disso. Objetos essenciais deixam de cumprir somente uma função e passam também a carregar identificação, humor e personalidade.

Na Stalo, encontrei outra abordagem para essa relação entre produto e cotidiano. Murais com acabamento em camurça e quadros organizadores de rotina ajudam a tornar compromissos e atividades visíveis e concretos.

São soluções analógicas encontrando novamente espaço justamente em um momento no qual praticamente tudo parecia caminhar para o digital.

Talvez estejamos descobrindo que nem tudo precisa virar tela.

Um mercado que também cresceu

Existe ainda outro fenômeno interessante por trás dessas tendências: a papelaria conquistou definitivamente o público adulto.

Cadernos, planners, canetas, materiais artísticos e itens de organização deixaram de ser produtos associados exclusivamente ao ambiente escolar. Passaram a ocupar mesas de trabalho, home offices, presentes e até coleções pessoais.

Isso ajuda a explicar por que uma feira tradicionalmente ligada ao setor escolar hoje reúne também negócios relacionados à organização, criatividade, presentes, tecnologia e soluções para o varejo. Entre os visitantes do evento, 51,6% são compradores e varejistas do setor e 56,5% ocupam cargos de gestão ou decisão, segundo dados divulgados pela organização.

É um mercado no qual o produto funcional continua importante, mas já não parece suficiente.

O consumidor também procura beleza, identificação, experiência e propósito.

No final, a inovação continua sendo sobre pessoas

Saí da Escolar Office com uma percepção diferente daquela com que entrei.

É claro que continuei encantada pelos cadernos, estampas, gatos, cerejas, patos, capivaras e por todas aquelas coisas que fazem qualquer apaixonada por papelaria perder alguns, ou muitos minutos em cada estande.

Mas os lançamentos contam uma história maior.

Crianças neurodivergentes estão sendo consideradas no desenvolvimento de produtos. Pessoas com deficiência podem encontrar novas experiências sensoriais. Pais procuram alternativas às telas. Famílias buscam ferramentas para organizar a rotina. Adultos redescobriram o prazer da papelaria. E crianças continuam precisando de espaço para imaginar, desenhar, pintar e simplesmente brincar.

Talvez uma das transformações mais interessantes desse mercado esteja justamente aí.

Durante muito tempo, inovação foi quase sinônimo de acrescentar tecnologia aos produtos. O que encontrei na feira aponta também para outro caminho: observar melhor as pessoas que vão utilizá-los.

Porque bons produtos resolvem necessidades.

Grandes marcas entendem pessoas.

E, mais uma vez, fui conhecer produtos e voltei pensando nas conexões que existem por trás deles.


Carla Falcão – Fundadora da Falcão MentoringMentora de Negócios no LinkedIn | Conexões Estratégicas e Presença Comercial

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