Cantareira em alerta reacende debate sobre o que realmente precisa ser monitorado na gestão da água
Com Sistema Cantareira na Faixa de Alerta em setembro, discussão chama atenção para dados como vazão dos rios, chuvas e qualidade da água no acompanhamento dos recursos hídricos.
O Sistema Cantareira segue operando na Faixa de Alerta em setembro. O principal manancial de abastecimento da Região Metropolitana de São Paulo encerrou agosto com 32,99% do volume útil, em 8 de setembro, registrava 33,6%, e agora em seu último registro passou para 39,06%, uma alta de 5,86 pontos percentuais devido às chuvas dos últimos dias, segundo os dados do Portal dos Mananciais, o monitoramento da Sabesp.
Atualmente, o Cantareira opera na Faixa 3 (Alerta), condição que limita a retirada de água para abastecimento a até 27 m³/s. Em situação de normalidade, a captação pode chegar a 33 m³/s. Caso mantenha o ritmo de recuperação, o sistema poderá migrar para a Faixa 2 (Atenção), classificação aplicada quando o volume armazenado fica entre 40% e 60%.
O percentual armazenado costuma ser uma das informações que mais ganham destaque em períodos de estiagem. Mas ele, sozinho, não é suficiente para compreender o comportamento de um sistema hídrico. Dados sobre chuvas, vazão dos rios, quantidade de água que entra e sai dos reservatórios e parâmetros relacionados à qualidade da água ajudam a formar um cenário mais completo.
A própria Câmara Técnica de Monitoramento Hidrológico dos Comitês PCJ reforçou essa visão em reunião realizada no dia 3 de setembro no DAE Jundiaí, em Jundiaí/SP. Além da situação do Cantareira, foram analisados dados de precipitação, vazões dos rios Piracicaba, Capivari, Atibaia e Jundiaí e volumes afluentes e defluentes do sistema. Representantes de municípios da região também relataram dificuldades relacionadas à qualidade da água durante o período de estiagem.
Para a Clean Environment Brasil, empresa de Valinhos/SP, especializada em tecnologias para monitoramento ambiental e hidrológico, cenários como esse ajudam a evidenciar uma questão que vai além de um reservatório ou de uma determinada região: segurança hídrica depende também da capacidade de transformar o comportamento da água em dados confiáveis.
“Quando se fala em reservatórios, é natural que a primeira atenção esteja no percentual armazenado. Mas esse número representa apenas uma parte do cenário. Para compreender a dinâmica hídrica, também é importante acompanhar quanto está entrando no sistema, como estão se comportando os rios, o histórico de chuvas e as alterações que acontecem ao longo do tempo”, explica Cristiano Leonardo, Especialista Sênior em Hidrologia da Clean Environment Brasil.
Quantidade de água não é o único indicador
Em períodos de estiagem, a preocupação não está apenas relacionada ao volume disponível. A redução das vazões também pode interferir nas características da água. Com menos água circulando nos rios, por exemplo, a capacidade de diluição de determinadas substâncias pode diminuir. Temperatura, pH, turbidez, condutividade e oxigênio dissolvido estão entre os parâmetros que podem ser acompanhados, de acordo com as características de cada corpo hídrico e com os objetivos do monitoramento.
Durante a reunião de setembro, alguns municípios das Bacias PCJ relataram dificuldades relacionadas à qualidade da água durante a estiagem. A Câmara Técnica chamou atenção para os efeitos da escassez de chuvas sobre as condições dos mananciais.
“Quantidade e qualidade precisam ser analisadas em conjunto. Saber quanto de água existe é fundamental, mas também precisamos entender em quais condições ela se encontra e se essas condições estão mudando. É justamente o acompanhamento ao longo do tempo que permite perceber alterações que uma informação isolada pode não mostrar”, afirma Cristiano Leonardo.
Da medição pontual ao acompanhamento contínuo
Outro aspecto importante é a frequência com que esses dados são produzidos. Uma medição realizada em campo representa as condições encontradas naquele local e naquele momento. Já o monitoramento contínuo permite construir uma sequência de informações e acompanhar oscilações ao longo das horas, dias, meses e anos.
Nas Bacias PCJ, por exemplo, mais de 50 sensores instalados nos rios já geram dados de vazão disponibilizados em tempo real. A Agência das Bacias PCJ também vem ampliando sua rede automática de monitoramento da qualidade da água, com o objetivo de fortalecer a gestão e a tomada de decisões apoiadas em dados. Quando sensores são associados a sistemas de telemetria, as informações coletadas em campo podem ser transmitidas remotamente, permitindo acompanhar diferentes pontos de uma bacia sem depender exclusivamente de visitas presenciais para cada nova leitura.
“Uma medição pontual é importante e tem sua finalidade. O acompanhamento contínuo acrescenta outra dimensão porque permite enxergar tendências e identificar mudanças de comportamento. Quando existe um histórico consistente, fica mais fácil entender se determinado dado representa uma oscilação momentânea ou uma alteração que merece maior atenção”, explica Cristiano Leonardo.
Dados ajudam a antecipar, não apenas reagir
Para especialistas da área, um dos maiores valores do monitoramento está justamente na construção de séries históricas. Quanto mais informações existem sobre o comportamento habitual de um rio, reservatório ou manancial, maior é a capacidade de comparar situações e reconhecer mudanças. Os dados, por si só, não determinam qual decisão deve ser tomada, mas oferecem subsídios para que gestores, operadores e equipes técnicas façam suas avaliações.
No Cantareira, os próprios dados oficiais mostram essa multiplicidade de informações. Em 8 de setembro, além do volume útil de 33,6%, o sistema registrava vazão afluente total de 23,56 m³/s, além de informações sobre vazões de saída e precipitação.
“Monitorar não significa prever sozinho o que vai acontecer, mas reduzir a dependência de decisões tomadas sem informação suficiente. O dado permite conhecer melhor o comportamento do sistema, comparar períodos e detectar mudanças. É isso que transforma uma medição em ferramenta de gestão”, destaca.
A discussão ganha relevância em um cenário em que diferentes regiões brasileiras convivem com períodos de estiagem, variações na disponibilidade hídrica e eventos climáticos mais extremos. Embora cada bacia tenha características próprias, o princípio é semelhante: quanto mais complexo o cenário, maior a necessidade de dados confiáveis sobre quantidade e qualidade da água.
Tecnologia aplicada ao monitoramento hídrico
Por atuar há mais de três décadas com tecnologias voltadas ao monitoramento ambiental e hidrológico, a Clean reforça que o acompanhamento dos recursos hídricos deve considerar diferentes variáveis e, sempre que possível, ser realizado de forma integrada e contínua.
A recomendação da empresa é que dados como vazão, nível e parâmetros de qualidade da água sejam analisados em conjunto e ao longo do tempo. A construção de séries históricas e o acompanhamento frequente dessas informações ajudam equipes técnicas e gestores a identificar alterações, compreender tendências e tomar decisões com uma base mais consistente de dados.
“Quanto mais informações confiáveis existem sobre o comportamento de um manancial, maior é a capacidade de perceber quando alguma variável começa a fugir do padrão. O monitoramento não elimina os desafios da gestão hídrica, mas permite que eles sejam enxergados com mais clareza”, finaliza Cristiano Leonardo.
Sobre a Clean Environment Brasil
Com sede em Valinhos (SP), a Clean Environment Brasil atua há mais de três décadas com tecnologias voltadas ao meio ambiente, monitoramento de processos e segurança ocupacional. A empresa fornece equipamentos, sistemas e serviços para diferentes setores, incluindo saneamento, mineração, energia, indústria, óleo e gás, papel e celulose, química e petroquímica.