Aproximadamente 40 milhões de eleitores.
Por AILTON VENDRAMINI *
Se deixarmos de lado a polarização, o terceiro colocado do primeiro turno não tinha número na urna: foi a senhora Abstenção. Flávio Bolsonaro recebeu 56,1 milhões de votos; Lula, 53,9 milhões; e 33,5 milhões de eleitores, 21,08% do eleitorado, simplesmente não foram votar. É quase quatro vezes a soma de todos os demais candidatos.
Entre os que compareceram, 2,3 milhões votaram em branco (1,84%) e 3,7 milhões anularam o voto (2,93%). A diferença está na forma, não no efeito. O voto em branco tem tecla própria; o nulo se faz digitando um número que não corresponde a nenhum candidato. Pela Constituição e pela lei eleitoral, nenhum dos dois entra na conta dos votos válidos, que é a que decide a eleição. Não vão para quem está na frente, como ainda se ouve por aí. E não anulam eleição nenhuma, mesmo que fossem maioria: a regra que manda repetir o pleito trata de votos anulados pela Justiça Eleitoral, por fraude, e não do voto nulo do eleitor. E, viva o Garotinho!
Quem quiser bulir no resultado do dia 25 talvez deva começar por aí. Em 2022, entre um turno e outro, Bolsonaro somou 7,13 milhões de votos e Lula, 3,09 milhões. Antes dos slogans e das explicações confortáveis, convém sentar-se diante dos números e lê-los com a frieza que eles exigem.
O primeiro turno respondeu quem ganhou força, mas deixou em aberto como o país será governado em 2027. A leitura desta semana já está pronta: a direita venceu, o Congresso mandará, a polarização se aprofundou. Pode ser! Mas eleição decide ocupantes, não decide sozinha como o poder vai funcionar.
E, se… as urnas não tiverem encerrado as disputas?
De um lado, o que se diz esta semana. Do outro, dez hipóteses contra a corrente.
| O que se diz esta semana | E, se… |
| “As alianças vão decidir o segundo turno.” | E, se…os 33,5 milhões que ficaram em casa pesarem mais que qualquer apoio declarado, e o dia 25 for de quem trouxer o ausente de volta? |
| “A polarização só vai aumentar.” | E, se…a temperatura do país baixar depois do segundo turno, ainda que os adversários continuem adversários? |
| “O presidente será refém do Congresso; o PL é hegemônico.” | E, se…quem vencer começar 2027 mais forte do que parece? Os 121 deputados do PL estão longe dos 257 da maioria, e a fragmentação pode ser justamente o que permite coalizões amplas. |
| “Vem aí o confronto entre Senado e Supremo.” | E, se…os 28 senadores do PL trocarem o enfrentamento pela acomodação, provando que palanque e mandato não são a mesma coisa? |
| “O STF continuará no centro de tudo.” | E, se…o Supremo sair aos poucos da política cotidiana, e certas decisões voltarem ao Legislativo e ao Executivo? |
| “A corrida de 2030 começou nos estados.” | E, se…nenhum dos vinte governadores eleitos no primeiro turno for o nome de 2030, e a próxima liderança nacional surgir fora desse grupo? |
| “Haverá crise fiscal no primeiro semestre.” | E, se…não houver o grande pacote que todos esperam, e o ajuste acontecer em silêncio, em dezenas de pequenas decisões sobre a qualidade do gasto? |
| “A reforma tributária vai sufocar os municípios.” | E, se…as prefeituras descobrirem na reforma oportunidades de simplificação, informação e eficiência arrecadatória? |
| “O mercado já sabe qual política econômica esperar de cada candidato.” | E, se…a maior surpresa de 2027 vier justamente da economia? E se Daniella Marques, ligada à escola de Paulo Guedes, ajudar a construir uma política menos previsível do que o mercado imagina, enquanto Lula, se reeleito, surpreender com maior disciplina fiscal? E se, no fim, a realidade das contas públicas aproximar adversários que as urnas separaram? |
| “A inteligência artificial vai transformar o serviço público.” | E, se…a revolução demorar bem mais, porque as prefeituras seguem com sistemas fragmentados e pouca capacidade analítica, provando que tecnologia disponível não é transformação institucional? |
E, se… tudo isso estiver errado?
Guarde esta coluna. Em dezembro de 2027, a gente confere.
* AILTON VENDRAMINI, Engenheiro eletrotécnico com 40+ anos no setor privado (ABB, VA TECH, Schneider, Veccon etc.), liderando contratos e grandes projetos. Experiência executiva no Brasil e exterior. Hoje, Diretor de Dados & Estatística e DPO de Hortolândia, à frente de LGPD e projetos de dados/IA. Articulista e consultor; MBA USP, pós-graduações FGV e especialização em Big Data.