A Leste do Éden é uma das melhores estreias da temporada

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A minissérie de 7 episódios é uma adaptação que, pela qualidade técnica e artística, está longe de decepcionar.

Lançada em outubro na Netflix, a minissérie em sete episódios A Leste do Éden — adaptação do clássico romance homônimo publicado por John Steinbeck em 1952 — impõe-se, sem favor algum, como uma das realizações artísticas mais interessantes e bem-sucedidas do audiovisual contemporâneo, carregando consigo grandeza suficiente para figurar com um dos destaques nas próximas grandes premiações.

Se houvesse de buscar uma chave de leitura para traduzir a precisão de sua construção, encontraria com facilidade aos versos de Ricardo Reis, heterônimo de Fernando Pessoa, quando diz: Para ser grande, sê inteiro: nada / Teu exagera ou exclui. É exatamente essa inteireza que sustenta A Leste do Éden. Na minissérie, nada sobra ou falta, a começar por sua arquitetura narrativa. A trama evita o vício da lentidão prolixa, mas recusa com igual rigor a pressa que descaracteriza o essencial. O espectador é envolvido de tal modo que, ainda que queira mais, o episódio se encerra e ele sabe o porquê – sabe se tratar de uma interrupção justa e necessária: acrescentar o que quer que fosse seria incorrer no supérfluo, contaminando o efeito estético já alcançado. Sob esse aspecto, a condução da história evoca a lição de Walter Benjamin em O narrador – saber narrar devidamente, de modo a costurar experiências cheias de sabedoria.

Para sustentar esse pulso narrativo, concorre uma fotografia que não se coloca como mero ornamento acessório. Ela não tenta dar conta, isoladamente, de um texto literário consagrado; antes, entrelaça-se organicamente ao tom da obra. O mesmo padrão de excelência observa-se nas atuações. A régua foi nivelada por cima: não há interpretação medíocre, e cada personagem, ao tomar a palavra, traz uma contribuição substantiva para o desdobramento da trama.

Independentemente de se conhecer previamente o romance de Steinbeck, a minissérie vale por si mesma como um projeto artístico de alta calibragem. Em meio à massa homogênea de produtos que inundam as plataformas de streaming, A Leste do Éden sobressai-se como uma grata surpresa, oferecendo ao espectador atento um respiro de entretenimento que, pela qualidade técnica e artística, está longe de decepcionar.

Francisco Neto Pereira Pinto é Psicanalista, Escritor e Professor Permanente do Programa de Pós-Graduação em Linguística e Literatura da Universidade Federal do Norte do Tocantins. Autor de Civilização Selvagem ou tigelas de barro espatifadas no chão.

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