É preciso saber nadar com a corrente, ou sobre Lula e o burrinho pedrês
O burrinho pedrês, do conto de Guimarães Rosa, soube usar a força da corrente do riacho Fome a seu favor, ao passo que os outros, que a desprezaram, morreram afogados.
A única certeza é a incerteza
As eleições de 2026, para a Presidência da República sobretudo, escancararam como nunca, no cenário brasileiro, que não vivemos mais como nossos pais — ao contrário do que foi eternizado na canção composta por Belchior e cantada por Elis Regina. O presidente eleito, Luiz Inácio Lula da Silva, quase foi derrotado por não perceber que, apesar de tudo, o velho mundo conhecido está se transformando rapidamente e que são necessárias novas lentes para interpretar essa sociedade líquida e incerta, como bem explicou o sociólogo Zygmunt Bauman.
O presidente, já tão acostumado a disputar pleitos ao longo de décadas, demorou a notar que a mobilização das pessoas em 2026, e seu consequente engajamento, não se dá mais como se dava há quatro, oito ou vinte anos. O fato é que, como já o disse o psicanalista brasileiro Jorge Forbes, no livro Inconsciente e Responsabilidade: Psicanálise do século XXI, nos dias de hoje, nada mais é como um dia foi: não se nasce, morre, educa, ama, trabalha, constitui família e, por extensão, vota e se fazem escolhas como antes.
O burrinho pedrês e a reinvenção permanente
O burrinho pedrês é a narrativa que abre a coletânea Sagarana, o histórico primeiro livro publicado de João Guimarães Rosa, lançado em 1946. No conto, Sete-de-Ouros era um animal idoso, de pelos mofados e passos lentos, que vivia na fazenda do Major Saulo e parecia destinado ao esquecimento da aposentadoria definitiva. Certo dia, porém, uma grande boiada precisava ser conduzida, e o velho burrinho foi reunido à tropa.
No retorno, depois de entregue a boiada, chegaram ao córrego chamado Fome, momento em que os vaqueiros se depararam com uma situação que seria decisiva em suas vidas. Acontece que o Fome, antes um riacho ralo, corriqueiro, ordinário, transformou-se, da manhã para a noite, como se mil torneiras o abastecessem, em uma grande e violenta enchente. À noite, após muito comer e beber, os vaqueiros montaram em seus cavalos, deixando para trás, como último a partir, o jovem Badú, muito bêbado, que não teve outra opção senão montar no lombo do velho Sete-de-Ouros.
À beira do córrego enfurecido, os homens estancam, alguns temorosos, outros com medo. Sete-de-Ouros, no entanto, analisa cautelosamente a situação e avança resoluto. No entanto, é chamado, por alguém, com certo deboche e desconfiança, de beócio. Contudo, em outro momento, o próprio narrador já havia nos advertido: ele se inventa, sempre à sua maneira. O burrinho soube usar a força da correnteza a seu favor, sem susto a mais, sem certeza alguma, mas de modo confiante. Saiu vitorioso do outro lado, carregando Badú no lombo e Francolin agarrado ao seu rabo. Os demais — vaqueiros e seus cavalos —, embora jovens e valentes, não foram capazes de ler a força das águas e morreram afogados.
Saber navegar é preciso
Durante a disputa, Lula foi chamado de velho pelos adversários e, de fato, chegou a admitir em público que ainda não havia feito parentesco com a juventude digital. Acontece que, no meio do processo, logo após o impacto do primeiro turno, ele entendeu que não podia nadar contra a correnteza e que sua campanha passava inevitavelmente pela linguagem rápida das redes sociais e do novo ecossistema midiático.
Lula, a tempo — exatamente como o burrinho pedrês —, não tinha mais a força física, a agilidade ou o vigor juvenil do seu adversário, mas demonstrou a sabedoria necessária para ler o cenário turbulento da enchente e estabelecer uma estratégia segura de travessia em uma noite chuvosa e escura. Em vez de enfrentar o rio com a imprudência e falta de perspicácia dos cavalos e vaqueiros que se afogaram, usou o impulso das próprias águas, fazendo parentesco com corrente, para alcançar a margem oposta.
Somos o burrinho pedrês?
Todos nós — jovens, adultos e idosos — estamos diante de um mundo cuja única certeza é a incerteza. Ninguém tem o mapa do contemporâneo, como cantou Zé Ramalho sobre a alma da mulher na canção Entre a Serpente e a Estrela (Amarillo By Morning).
Acontece que o jovem se depara com a angústia quanto às escolhas de vida — amorosas, de formação, profissão e trabalho; os grandes e pequenos empresários se deparam não somente com dilemas sobre o formato do negócio, sua permanência e longevidade, mas também sobre como atrair colaboradores e garantir sua permanência. Para as instituições de ensino, do fundamental à pós-graduação, uma pergunta se impõe: conseguirão se manter atraentes ao novo público diante de tamanhas transformações?
Seja quem for, o cenário no momento, tal como a esfinge, coloca uma provocação: assim como o burrinho pedrês, você vai conseguir ler o cenário e se reinventar? Vai conseguir fazer parentesco com a correnteza ou vai morrer afogado? Que tenhamos a sabedoria e a flexibilidade suficientes para nadar nas pequenas e grandes enchentes inevitáveis desta vida. Boa travessia a você.
A releitura do clássico de Guimarães Rosa continua sendo uma lição indispensável para nos guiar nesses tempos incertos. Fica a dica.
Francisco Neto Pereira Pinto é Escritor, Psicanalista e Professor Permanente no Programa de Pós-Graduação em Linguística e Literatura – Mestrado e Doutorado – da Universidade Federal do Norte do Tocantins. Autor de Civilização Selvagem ou tigelas de barro espatifadas no chão.
