Quanto custa o Estado e para onde vai o dinheiro?
Por AILTON VENDRAMINI *
Na coluna anterior, argumentei que esquerda e direita tiveram conquistas e fracassos na América Latina. O amigo e leitor Ricardo Laguna fez uma provocação pertinente: por que não comparar o custo da máquina pública, em relação ao Produto Interno Bruto (PIB), entre diferentes governos? Fui aos números. E a resposta, como costuma acontecer, exige distinguir quanto o (*) Estado recebe de (**) como utiliza os recursos.
A primeira distinção importa: despesa pública total não é apenas custo burocrático. Inclui aposentadorias, assistência, remuneração de professores e profissionais de saúde, juros da dívida, compras e investimentos. E os dados do Governo Geral abrangem União, estados e municípios; não são uma conta exclusiva do presidente.
Quanto entra e quanto sai
Segundo o Tesouro Nacional, a carga tributária bruta alcançou 32,4% do PIB em 2025. Em outras palavras, a cada R$ 100 produzidos no país, R$ 32,40 corresponderam a tributos arrecadados. Mas os governos possuem outras fontes de receita. Naquele mesmo ano, a receita total do Governo Geral chegou a R$ 39,50 por R$ 100 do PIB, enquanto a despesa alcançou R$ 46,90. A diferença, R$ 7,40, correspondeu à necessidade líquida de financiamento: o déficit nessa metodologia.
2025 | A cada R$ 100 do PIB

Receita total não é sinônimo de carga tributária; a diferença entre os indicadores não é uma rubrica única de receitas. Fonte: Tesouro Nacional, EFGG 2025.
Para onde vai cada R$ 100 de despesa
A segunda parte da pergunta é mais reveladora. Em 2025, de cada R$ 100 de despesa do Governo Geral, aproximadamente R$ 34 financiaram benefícios previdenciários e assistenciais; R$ 23, pessoal; R$ 21, juros; R$ 12, bens e serviços; e R$ 9, outras despesas. O investimento líquido representou apenas R$ 1. São valores arredondados, não uma medição do desperdício.
2025 | Composição dos R$ 100 gastos

| ■ Benefícios: R$ 34 | ■ Pessoal: R$ 23 | ■ Juros: R$ 21 |
| ■ Bens e serviços: R$ 12 | ■ Demais despesas: R$ 9 | ■ Investimento líquido: R$ 1 |
| TOTAL DOS VALORES DA LEGENDA: R$ 100 | ||
Legenda: valores arredondados por R$ 100 de despesa; a soma indicada é R$ 100. As larguras das barras seguem os dados originais, sem arredondamento. Fonte: Tesouro Nacional, EFGG 2025.
O que mudou entre governos?
A série homogênea de 2010 a 2025 atravessa as administrações Lula, Dilma, Temer, Bolsonaro e novamente Lula. Benefícios, pessoal e juros consumiram, juntos, a maior parte dos recursos em todos os períodos. A comparação, no entanto, não autoriza atribuir cada variação exclusivamente ao presidente: a conta reúne três esferas de governo, regras anteriores, juros e acontecimentos econômicos.
| Indicador | O que mostram os dados |
| Benefícios | De 12,3% para 15,7% do PIB entre 2010 e 2025: +3,4 pontos percentuais, cerca de 28% de aumento relativo. Na pandemia, absorveram aproximadamente R$ 44 de cada R$ 100 gastos. |
| Pessoal | Permaneceu próximo de 11% do PIB ao longo da série; em 2025, representou cerca de R$ 23 de cada R$ 100 gastos. |
| Juros | Passaram de 7,1% do PIB em 2010 para 9,9% em 2025; houve pico de 11,9% em 2015. Em 2025, absorveram cerca de R$ 21 de cada R$ 100. |
| Investimento líquido | O indicador foi positivo de 2010 a 2015 e negativo de 2016 a 2021. Voltou a cerca de 0,4% do PIB em 2022 e 2023, atingiu 0,67% em 2024 e recuou a 0,37% em 2025. |
Valores do Governo Geral, segundo a série anual revista e publicada pelo Tesouro em abril de 2026. Investimento líquido difere de investimento bruto.
Gastar mais não é necessariamente gastar melhor
O Banco Mundial, no estudo Um Ajuste Justo, de 2017, chamou atenção para gastos pouco eficientes e para benefícios de certos programas que chegavam proporcionalmente mais aos grupos de maior renda. Em 2018, o Banco Interamericano de Desenvolvimento calculou que ineficiências em compras públicas, gestão de pessoal e transferências poderiam equivaler a até 3,9% do PIB brasileiro. Não é uma medição atual, nem sinônimo de corrupção: é uma estimativa histórica do espaço para melhorar a qualidade do gasto.
Defendo, por exemplo, a proteção oferecida pelo Bolsa Família às famílias de baixa renda. Mas apoio também cadastros precisos, cruzamento responsável com bases oficiais e fiscalização que não exclua quem vive de rendimentos informais. Eficiência não é simplesmente cortar benefícios: é assegurar que cada programa cumpra seu propósito.
Investir depende também do momento da economia
O desafio não se resolverá apenas elevando impostos ou cortando despesas de maneira genérica. É necessário avaliar obrigações, corrigir ineficiências e recuperar a capacidade de investir. Em recessões, com desemprego e capacidade ociosa, investimentos públicos bem selecionados podem estimular a produção e o emprego. Com a economia aquecida, estímulos adicionais à demanda tendem a ter menos efeito e podem aumentar a inflação e os juros. Em qualquer cenário, infraestrutura, educação e saúde continuam exigindo investimentos de qualidade.
O Estado arrecadou muito, gastou mais do que recebeu e destinou uma parcela ínfima das despesas ao investimento líquido em 2025. Não basta discutir se o Estado deve ser maior ou menor. Antes de cobrar mais um real da sociedade, quem governa precisa mostrar onde o dinheiro gera resultado, onde se perde em ineficiência e quais despesas abrem espaço para o futuro. Sem essa prestação de contas, novos impostos podem apenas financiar os mesmos problemas.
Gráficos de apoio | Governo Geral, 2010–2025
Faixas identificam períodos presidenciais; 2016 foi ano de transição Dilma/Temer. Séries abrangem União, estados e municípios. Não expressam causalidade individual.
Benefícios, pessoal e juros como percentual do PIB

Fonte: Tesouro Nacional, Boletim EFGG 2025, gráfico 9 (série revista, publicada em abril de 2026).
Investimento líquido como percentual do PIB

Fonte: Tesouro Nacional, Boletim EFGG 2025, gráfico 11. Investimento líquido desconta alienações e consumo de capital fixo; não equivale ao investimento bruto nem inclui estatais fora do Governo Geral.
Fontes e notas
• Tesouro Nacional (01/04/2026), Boletim de Estatísticas Fiscais do Governo Geral: resultados anuais de 2025, tabelas 6–7 e gráficos 9 e 11.
• Tesouro Nacional (10/04/2026), Estimativa da Carga Tributária Bruta de 2025 (32,40% do PIB).
• Banco Mundial (2017), Um Ajuste Justo: Análise da Eficiência e Equidade do Gasto Público no Brasil.
• Banco Interamericano de Desenvolvimento (2018), Melhores gastos para melhores vidas: estimativa histórica de até 3,9% do PIB em ineficiências.
• FGV IBRE (2026), artigos sobre multiplicadores fiscais e efeitos do gasto conforme a ociosidade da economia.
* AILTON VENDRAMINI, Engenheiro eletrotécnico com 40+ anos no setor privado (ABB, VA TECH, Schneider, Veccon etc.), liderando contratos e grandes projetos. Experiência executiva no Brasil e exterior. Hoje, Diretor de Dados & Estatística e DPO de Hortolândia, à frente de LGPD e projetos de dados/IA. Articulista e consultor; MBA USP, pós-graduações FGV e especialização em Big Data.
