Contratar para o amanhã
Por AILTON VENDRAMINI *
Vivemos uma ruptura silenciosa — e profunda — no modo como organizações se formam, evoluem e sobrevivem. Se as inovações borbulham nos mercados e os dados são gerados em escala exponencial, então uma verdade incômoda se impõe: o que deu certo ontem já está vencido hoje.
Nesse cenário, gestores são forjados sem manual.
A pergunta que deveria inquietar qualquer liderança é direta: as profissões continuarão estáveis? A resposta, cada vez mais evidente, é não. Surgem vagas em biologia espacial enquanto programadores — outrora no topo da cadeia produtiva — observam com inquietação o avanço de inteligências artificiais que já operam em redes próprias, aprendem sozinhas e produzem em escala.
O mercado não apenas muda. Ele acelera.
Foi Steve Jobs quem afirmou que uma das maiores dificuldades de um CEO era dizer “não”. Pouco se discute, no entanto, que outra habilidade igualmente crítica — e ainda mais delicada — é a de demitir. Afastar sócios, fundadores ou excelentes gestores em tempos de bonança. E, paradoxalmente, tolerar — por um tempo — desempenhos medianos em cenários turbulentos, quando a organização ainda busca estabilidade.
A gestão, nesse contexto, deixa de ser técnica e se aproxima da arte.
Um CEO pode estar pressionado por mercado, conselho, caixa e reputação. Ainda assim, há uma linha que não pode ser rompida: a convicção estratégica. Líderes instáveis produzem organizações instáveis. E estruturas instáveis não sobrevivem a ambientes dinâmicos.
Costuma-se dizer que empresas são engrenagens. A metáfora é útil, mas incompleta. Engrenagens são previsíveis; organizações, não. Empresas são organismos vivos — adaptativos, sensíveis ao ambiente e sujeitos a mutações constantes. A pergunta, então, não é como fazê-las funcionar, mas como mantê-las respirando.
E isso nos leva ao ponto central: contratação.
Durante décadas, contratar significava preencher uma lacuna com base em requisitos do presente. Experiência anterior, domínio técnico, aderência ao cargo. Esse modelo, embora ainda dominante, tornou-se insuficiente.
No Brasil, essa transformação já está em curso. Empresas como o Grupo Boticário e o Itaú Unibanco passaram a formar seus próprios profissionais em tecnologia e dados, substituindo o modelo tradicional de recrutamento por programas estruturados de capacitação. O Mercado Livre, por sua vez, opera como um verdadeiro ecossistema de formação, absorvendo parte dos talentos e redistribuindo outros para sua rede de parceiros. Até mesmo organizações historicamente estáveis, como a Petrobras, enfrentam a necessidade de requalificar continuamente sua força de trabalho diante de novas demandas tecnológicas e energéticas.
O recado é inequívoco: o mercado não espera mais pelo profissional pronto — ele exige capacidade de adaptação contínua.
Dados de entidades como o SENAI indicam um déficit estrutural de mão de obra qualificada no país, especialmente em tecnologia. A consequência é direta: as empresas não podem mais esperar. Elas precisam formar, desenvolver e adaptar talentos em tempo real.
Mas a questão permanece: como contratar em um mundo que muda antes que o contrato de trabalho seja assinado?
A resposta exige uma mudança de perspectiva. Se o sistema é dinâmico, contratar para o “hoje” é, na prática, contratar para o passado. A função para a qual o profissional foi escolhido pode já não existir, ou terá sido profundamente transformada, em poucos meses.
Portanto, a contratação precisa ser feita com a cabeça no amanhã.
Isso implica buscar menos “profissionais prontos” e mais potenciais adaptativos. Pessoas capazes de aprender, desaprender e reaprender. Indivíduos que não apenas executem tarefas, mas que compreendam contexto, lidem com incerteza e consigam operar em ambientes em transformação.
O CEO, nesse cenário, assume um papel ainda mais sofisticado. Ele deixa de ser apenas o decisor e passa a ser o maestro de uma orquestra em constante recomposição. Novas peças entram, outras saem, e a música — a estratégia — precisa continuar coerente.
Não há mais espaço para decisões automáticas.
Contratar, hoje, é um ato estratégico de longo alcance. É uma aposta no futuro da organização — e, em certa medida, uma leitura do próprio futuro do mundo.
E talvez resida aí a maior mudança de todas:
não estamos mais contratando para funções. Estamos contratando para trajetórias.
* AILTON VENDRAMINI, Engenheiro eletrotécnico com 40+ anos no setor privado (ABB, VA TECH, Schneider, Veccon etc.), liderando contratos e grandes projetos. Experiência executiva no Brasil e exterior. Hoje, Diretor de Dados & Estatística e DPO de Hortolândia, à frente de LGPD e projetos de dados/IA. Articulista e consultor; MBA USP, pós-graduações FGV e especialização em Big Data.