Estratégias: temos uma?
Por AILTON VENDRAMINI *
O noticiário internacional segue dominado por tragédias e disputas de alta voltagem geopolítica: Ucrânia, Gaza, Groenlândia, Taiwan. São temas reais, graves e estruturantes. Mas há uma pergunta que raramente é feita com honestidade intelectual no Brasil: qual é, de fato, a influência de uma potência média como o Brasil nesses tabuleiros?
A resposta incômoda é simples: limitadíssima. Por quê? Ausência crônica de estratégia explícita, coerente, persistente e mesmo falta de musculatura perante outros players globais.
Empresários brasileiros de pequeno e médio porte, quando bem-sucedidos, aprenderam uma lição básica: ninguém cresce tentando disputar todos os mercados ao mesmo tempo. Eles atuam em suas searas, dominam nichos, acumulam vantagens comparativas e só então ampliam fronteiras. Estados, curiosamente, parecem esquecer esse princípio elementar.
O discurso de Ursula von der Leyen na abertura do Fórum Econômico Mundial de Davos 2026 é revelador justamente por isso — não pelo que ela disse, mas pela clareza do que a Europa decidiu ser.
O que a Europa disse em Davos (e o que realmente quis dizer)
Ao caracterizar o momento atual como uma “mudança sísmica” na ordem mundial, Von der Leyen deixou claro que a União Europeia não pretende mais viver à sombra estratégica de ninguém. A chamada “independência europeia” não é retórica: trata-se de reduzir dependências militares, energéticas, industriais e tecnológicas, sobretudo em relação aos Estados Unidos e à China.
Quando critica abertamente as ameaças tarifárias americanas associadas à Groenlândia e reafirma que “um acordo é um acordo”, a presidente da Comissão Europeia sinaliza algo fundamental: alianças continuam importantes, mas não são incondicionais. Parcerias passam a ser transacionais, baseadas em interesses claros, não em afinidades históricas.
O mesmo raciocínio se aplica ao quase concluído acordo comercial com a Índia. Não se trata apenas de acesso a um mercado de bilhões de pessoas, mas de diversificação deliberada de riscos geoeconômicos. A Europa está, conscientemente, redesenhando seu mapa de dependências.
Por fim, ao elevar a segurança do Ártico ao status de tema estratégico central — com investimentos diretos na Groenlândia — a UE demonstra compreender algo que muitos países ainda ignoram: geopolítica do século XXI é, cada vez mais, geopolítica de energia, clima, logística e tecnologia, não apenas de tanques e soldados.
A pergunta inevitável: e o Brasil?
Chama atenção — e corretamente — o fato de o acordo Mercosul–União Europeia não ter merecido sequer uma menção no discurso. Isso não é descaso. É realismo estratégico europeu. Para a UE, o Mercosul hoje não resolve seus dilemas centrais: segurança energética, cadeias industriais críticas, semicondutores, defesa, Ártico, inteligência artificial. E, Ponto.
O erro brasileiro é insistir em interpretar essa ausência como injustiça diplomática, quando ela é, na verdade, um diagnóstico.
O Brasil não será protagonista discutindo Ucrânia, Gaza ou Groenlândia como se fosse uma potência global clássica. Isso apenas nos condena ao papel de comentaristas ressentidos da história alheia e permeia nossas conversas de botequins (nada contra os botequins).
Nossa força está em outro lugar — e ela é real:
- Meio ambiente e clima, não como discurso moral, mas como ativo geoeconômico;
- Energias renováveis, biocombustíveis, hidrogênio verde;
- Agroindústria de alta produtividade, com tecnologia, rastreabilidade e valor agregado;
- Minerais críticos, biodiversidade e bioeconomia;
- Capacidade de produzir alimentos e energia em escala, num mundo instável.
Esses são os temas que deveriam estar na pauta dos grandes, levados com método, dados, projetos e previsibilidade institucional brasileira. É aí que o Brasil pode influenciar regras, atrair investimentos e construir poder real. Sim, como eu gostaria de sintonizar uma rádio ou um canal de TV apreciando estratégias para o Brasil diante desse novo normal mundial. Vejamos o acordo da UE e o Mercosul, como o Brasil fará frente, estrategicamente, às máquinas produzidas pelos alemães? Quiçá o próximo governo brasileiro possa ouvir! Agatha Christie em “O misterioso caso Styles” documentou: “Um ouvinte apreciativo é sempre estimulante”.
A lição de Davos (não é europeia, é universal)
O discurso de Von der Leyen ensina algo que vale tanto para Estados quanto para empresas: quem não define sua estratégia acaba vivendo a estratégia dos outros.
Enquanto a Europa redefine dependências, diversifica parceiros e escolhe onde quer ser relevante, o Brasil ainda oscila entre ambições globais retóricas e a incapacidade de cuidar do próprio quintal estratégico, podendo se tornar quintal de outros.
Sem foco, continuaremos discutindo como vivem nossos vizinhos ricos.
Com estratégia, passaremos a discutir como eles dependem — ainda que parcialmente — do que só nós podemos oferecer. Essa é a diferença entre opinião e poder.
* AILTON VENDRAMINI, Engenheiro eletrotécnico com 40+ anos no setor privado (ABB, VA TECH, Schneider, Veccon etc.), liderando contratos e grandes projetos. Experiência executiva no Brasil e exterior. Hoje, Diretor de Dados & Estatística e DPO de Hortolândia, à frente de LGPD e projetos de dados/IA. Articulista e consultor; MBA USP, pós-graduações FGV e especialização em Big Data.