Quando deixamos de saber?
Por AILTON VENDRAMINI *
Quando foi que deixamos de saber extrair uma raiz quadrada? Ou fazer uma conta de dividir no papel? Quando foi que escrever um texto simples — com começo, meio e fim — passou a ser uma tarefa cada vez mais rara?
A pergunta parece banal, mas talvez revele algo mais profundo. Não se trata apenas de nostalgia escolar. Trata-se de perceber que, silenciosamente, algumas habilidades humanas estão sendo terceirizadas para máquinas, algoritmos e aplicativos.
Lembro-me de minha avó dizendo que não acreditava que o homem havia pisado na Lua. Para ela, aquilo parecia impossível. Era uma mulher que passou décadas de sua vida em um mundo sem automóvel, sem avião, sem televisão e, de repente, via imagens de astronautas caminhando sobre outro corpo celeste.
Como aquilo poderia ser verdade?
A reação dela talvez não fosse ignorância, mas prudência. Afinal, a história humana é cheia de ilusões bem construídas.
Hoje vivemos uma transformação semelhante, porém em outra dimensão. Não se trata apenas de tecnologia física, mas de tecnologia informacional. Redes sociais, inteligência artificial e sistemas automatizados passaram a participar ativamente do espaço público.
Pesquisadores começam a falar em ecossistemas sociais híbridos, ambientes digitais onde convivem humanos, robôs simples e agentes de inteligência artificial capazes de produzir textos, responder perguntas e interagir em massa.
Nesse novo ambiente surgem estruturas curiosas. Alguns sistemas funcionam como verdadeiras “garras abertas” — mecanismos capazes de capturar conversas, identificar temas emergentes e inserir respostas automaticamente no fluxo de informação.
Em outras palavras: parte do debate público pode estar sendo conduzido por entidades que não são humanas.
Não é teoria conspiratória. É tecnologia disponível agora, meses antes de outubro de 2026.
A pergunta que surge então é simples: estamos preparados para viver em uma praça pública onde nem sempre sabemos se quem fala conosco é uma pessoa ou um algoritmo?
Se minha avó estivesse hoje diante de mim, talvez repetisse a pergunta que fez décadas atrás, quando viu as imagens da Lua.
“Você tem certeza de que isso é real?”
Talvez eu respondesse com humildade:
Vó, hoje não é apenas a tecnologia que mudou. Mudou também a forma como a realidade é construída diante de nossos olhos.
E talvez restasse uma última dúvida — não apenas para ela, mas para todos nós: na grande conversa digital do nosso tempo, quantas vozes são realmente humanas?
* AILTON VENDRAMINI, Engenheiro eletrotécnico com 40+ anos no setor privado (ABB, VA TECH, Schneider, Veccon etc.), liderando contratos e grandes projetos. Experiência executiva no Brasil e exterior. Hoje, Diretor de Dados & Estatística e DPO de Hortolândia, à frente de LGPD e projetos de dados/IA. Articulista e consultor; MBA USP, pós-graduações FGV e especialização em Big Data.