É preciso sobrevoar a floresta
Por AILTON VENDRAMINI *
Há uma armadilha elegante no trabalho com dados públicos. Ela raramente aparece nos números. Aparece, antes, na moldura que escolhemos para observá-los.
Quando um gestor municipal tenta compreender a vulnerabilidade social de sua cidade, o movimento mais natural é olhar para dentro: quantas famílias estão no cadastro social, quantos atendimentos a assistência realizou, qual o percentual de analfabetismo em determinado bairro, quantos jovens estão fora da escola. São perguntas legítimas. Mas, quase sempre, insuficientes.
Porque nenhuma cidade existe sozinha.
Assisti recentemente a uma palestra sobre o mercado imobiliário de Fernando Ulrich. Em determinado momento, ele projetou um gráfico aparentemente simples, com a evolução dos preços de imóveis em diferentes cidades. O que parecia um dado setorial revelou algo maior: um retrato de deslocamentos humanos.
Florianópolis cresceu fortemente. Porto Alegre encolheu. São Paulo avançou pouco. O Brasil, no agregado, moveu-se em outra velocidade. Mas aquele gráfico, no fundo, não falava apenas de imóveis. Falava de gente. Falava de capacidade de permanência. Falava do limite entre morar onde se deseja e morar onde se consegue.
Quando uma cidade encarece, ela não retém todos os seus moradores. Parte deles é empurrada para fora. O preço do solo, nesse sentido, torna-se também um mecanismo silencioso de redistribuição populacional.
Em regiões metropolitanas dinâmicas do interior paulista, esse processo já se tornou visível. O polo principal atrai renda, serviços, universidades e oportunidades. Ao mesmo tempo, ele encarece. E a pressão que produz não desaparece: ela se desloca para os municípios vizinhos, onde a terra é mais acessível, o custo relativo de permanência é menor e a ligação com o centro econômico continua possível.
Assim, certas cidades crescem mais rápido do que a expansão de sua infraestrutura, mais rápido do que sua rede de proteção social e, por vezes, mais rápido do que sua capacidade administrativa de acompanhar esse adensamento. O motor do fenômeno, no entanto, nem sempre está nelas. Frequentemente, está a poucos quilômetros de distância.
Há, além disso, um segundo fluxo — menos visível, mas igualmente importante. Municípios com parque industrial robusto geram emprego, circulação econômica e arrecadação. Mas nem toda a riqueza produzida neles permanece ali. Parte relevante dos trabalhadores reside em outras cidades, consome em outros centros e organiza sua vida cotidiana fora do município onde trabalha.
Temos, portanto, dois movimentos simultâneos: de um lado, a chegada de população em busca de viabilidade habitacional; de outro, a saída cotidiana de renda e consumo. Em linguagem mais simples: certas cidades absorvem pressão social e, ao mesmo tempo, não retêm integralmente os frutos da riqueza que produzem.
Esse ponto é decisivo. Há uma diferença fundamental entre descrever um problema e explicá-lo.
Um indicador que olha apenas para dentro do município consegue mostrar onde a vulnerabilidade aparece. Ele pode localizar bairros mais frágeis, famílias mais expostas, serviços mais pressionados. Mas, sozinho, não explica por que essa vulnerabilidade se forma, por que ela cresce em certos pontos, por que resiste mesmo quando a economia local parece relativamente dinâmica.
Para explicar, é preciso mudar de altitude.
É preciso reconhecer que muitos municípios não são ilhas. São nós dentro de redes urbanas mais amplas. Sua vulnerabilidade pode ter manifestação local, mas parte de sua origem é regional. Sua pressão sobre escolas, assistência, saúde, mobilidade e habitação não decorre apenas de fatores internos. Ela também reflete deslocamentos populacionais, padrões de preço da moradia, fluxos pendulares de trabalho e uma integração metropolitana que, muitas vezes, é vivida na prática antes de ser pensada na gestão.
Isso não constitui crítica à administração local. Ao contrário: é um alerta sobre os limites de qualquer leitura excessivamente fechada em si mesma.
O médico que observa apenas o órgão doente, ignorando o organismo, corre o risco de aliviar o sintoma e perder o diagnóstico. Com cidades, ocorre algo semelhante. Municípios que planejam sem considerar o sistema regional em que estão inseridos podem agir com empenho, mas ainda assim errar a escala do problema.
Cidades inseridas em regiões metropolitanas precisam de instrumentos que não apenas contem casos, mas interpretem movimentos. Precisam de leitura territorial, sim — mas também de leitura regional. Precisam saber onde está a vulnerabilidade, mas também de onde ela vem, como ela se desloca e de que maneira ela pressiona a capacidade concreta do poder público.
Não como exercício acadêmico. Como condição de governo.
Árvores não crescem sozinhas. Crescem em florestas, disputando luz, compartilhando água, tocando-se pelas raízes, respondendo a dinâmicas que nenhuma delas controla isoladamente.
Algumas cidades são árvores em bosque metropolitano.
E, para compreendê-las com honestidade, às vezes é preciso abandonar o chão por alguns instantes — e sobrevoar a floresta.
* AILTON VENDRAMINI, Engenheiro eletrotécnico com 40+ anos no setor privado (ABB, VA TECH, Schneider, Veccon etc.), liderando contratos e grandes projetos. Experiência executiva no Brasil e exterior. Hoje, Diretor de Dados & Estatística e DPO de Hortolândia, à frente de LGPD e projetos de dados/IA. Articulista e consultor; MBA USP, pós-graduações FGV e especialização em Big Data.