Onde a estratégia do Conselho encontra a resiliência da operação para a Gestão de Crises

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Por Alexandre Tortorelli

No setor industrial, a reputação é construída ao longo de décadas, tijolo por tijolo. Mas, como vimos no recente caso envolvendo a Anvisa e a Ypê — uma marca com uma trajetória de sucesso admirável — essa mesma reputação pode ser colocada em xeque em poucas horas.

Fiquei pensando em tudo o que temos visto e sobre como eu poderia trazer minha contribuição para o tema, sem colocar “mais lenha nessa fogueira”. O episódio, independente do mérito técnico que ainda está sendo apurado, é um lembrete contundente: a gestão de crises não é um evento isolado, mas uma disciplina permanente de governança.

A visão de quem já esteve na “linha de frente”

No passado, atuando na gestão de operações industriais, tive a oportunidade de atuar em Comitês de Crise tanto como membro técnico quanto como porta-voz. Essa vivência me ensinou que o risco não avisa quando vai chegar; ele testa a maturidade dos seus processos e a sua sensibilidade como líder.

Hoje percebo um padrão perigoso: muitas organizações ainda acreditam que Comitê de Crise “é coisa de empresa gigante” ou tratam esses órgãos como “bombeiros” que só aparecem quando há fumaça. Esse é o erro estratégico fatal.

O Conselho Consultivo como “Antena” de Riscos

Um Conselho Consultivo de alta performance não existe apenas para analisar o DRE. Sua missão fundamental é elevar a maturidade da gestão e garantir a perenidade do negócio.

Nas reuniões ordinárias, nossa pergunta como conselheiros deve ser incômoda: “Nossa estrutura operacional e nossos controles são resilientes o suficiente para sustentar a promessa da nossa marca?”

Cuidar da cultura da qualidade com indicadores e auditorias é o básico. Sustentar a reputação vai além: exige prever o “e se?”, mapeando vulnerabilidades antes que elas se tornem manchetes.

Comitê de Crise: Agilidade com Respaldo Técnico

Quando a crise se instala, o tempo é o seu maior inimigo. Um Comitê de Crise eficaz não nasce na urgência; ele é treinado com simulações periódicas. Ele precisa ser:

Multidisciplinar: Integrando o Jurídico, a Comunicação e a Responsabilidade Técnica das Operações.

Autônomo: Com agilidade para decidir sem as amarras da burocracia habitual, seguindo as diretrizes de risco já validadas pelo Conselho.

Em casos regulatórios, a transparência e a velocidade na resposta técnica (laudos e evidências) são as únicas ferramentas capazes de conter o ruído mediático que destrói valor.

A Conexão Vital: Operações + Estratégia

A governança de excelência é aquela que conecta o topo da pirâmide (Conselho) com a base operacional (Chão de Fábrica).

Vimos no passado o caso trágico da cervejaria Backer. Ele nos ensinou que falhas em processos de manutenção ou vulnerabilidades de controle podem aniquilar o valor de uma organização. Gerir uma crise é, essencialmente, gerir a confiança. E a confiança só se recupera com fatos, transparência e a prova de que a governança aprendeu com o episódio.

Para empresas em crescimento acelerado: a Governança de Riscos precisa estar na pauta de ontem.

Sua empresa pode não ser ainda tão grande quanto o seu sonho, mas você precisa cuidar dele agora para que o crescimento não se transforme em um pesadelo reputacional.

Alexandre Tortorelli – Estrategista de Negócios, Business Advisor & Conselheiro Consultivo, e CEO da I2P

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