Lente para controlar miopia pode falhar?

Pesquisas mostram que as lentes defocus diminuem a progressão entre 40% e 70%, mas há variabilidade. Entenda.
Esta é uma dúvida frequente dos pais nos consultórios afirma o oftalmologista Leôncio Queiroz Neto, diretor executivo do Instituto Penido Burnier e membro fundador da ABRACMO (Academia Brasileira de Controle da Miopia e Ortoceratologia). Isso acontece, explica, porque ao contrário do que a população imagina a alta miopia, acima de 6 dioptrias, não é uma condição uniforme, mas uma doença complexa, com diferentes mecanismos biológicos que podem afetar várias partes do olho se não for controlada. Isso explica porque altos míopes correm maior risco de desenvolver catarata, glaucoma, descolamento de retina, entre outras doenças que podem cegar.
São estes mecanismos biológicos que resultam em uma grande variação entre crianças do efeito protetor das lentes defocus, em parte relacionados à retina. Isso porque, a retina não é apenas um tecido que recebe imagens. Ela controla o crescimento do olho por meio de substâncias químicas como: dopamina, ácido retinóico, óxido nítrico e outros fatores de crescimento. “As lentes defocus inibem a progressão da miopia desfocando a imagem na periferia da retina. Este desfoque é entendido como, “pare de crescer”, pelo comprimento axial – distância entre a parte frontal e o fundo do olho. Por isso, as imagens passam a ser formadas sobre a retina e o aumento do grau de miopia é interrompido”. O problema, afirma, é que entre 20% e 30% das crianças a luz é focada encima da periferia ou à frente da retina que neste grupo tem um formato arredondado e é mais espessa. Estas características eliminam o efeito das lentes defocus e nesta parcela não têm nenhum efeito de contenção da miopia. No restante das crianças o efeito é menor por outras características fisiológicos do olho. Nestes dois grupos Queiroz Neto afirma que a administração clínica da miopia é solucionada com adição de colírio de atropina a 0,01% que deve ser aplicado sempre à noite para a criança não sentir desconforto nos olhos. Uma alternativa é trocar o tratamento pelo uso de lentes ortoceratológicas que aplanam a córnea durante a noite, liberam do uso de correção visual durante o dia e contêm a progresso da miopia.
Fatores de risco
O oftalmologista afirma que a hereditariedade aumenta a probabilidade de a miopia surgir, mas a idade em que ela aparece é o fator clínico mais importante para prever a progressão e o risco de miopia alta.
“Os pais não podem mudar a genética dos filhos, mas podem mudar a história da miopia se ela for detectada e tratada logo no início,” afirma Queiroz Neto.
Outro fator de risco é o uso descontinuado das lentes. Para serem efetivas devem ser usadas 12 horas ao dia.
O uso abusivo de telas também contribui com o aumento da miopia. A dica do oftalmologista para reduzir o risco é respeitar a regra 20/20/20 – A cada 20 minutos olhar para um ponto a 20 pés ou 6 metros por 20 segundos.
Queiroz Netto afirma que o defocus não é o ponto final da história. Abriu uma nova era na compreensão do crescimento ocular e ainda há muito a evoluir.
“ Como oftalmologista entende que controlar a miopia não é apenas diminuir o grau. É reduzir o crescimento do olho e proteger nossas crianças contra doenças oculares graves no futuro. Deixamos a era de apenas corrigir a miopia e entramos na era do seu controle, caminhando para uma medicina cada vez mais personalizada. Porque cuidar da miopia hoje é muito mais do que proporcionar uma boa visão na infância. É preservar a saúde ocular e a qualidade de vida por toda uma vida”, finaliza.