Mecanismos de saída da vulnerabilidade

Por AILTON VENDRAMINI *
Às portas de mais uma eleição presidencial, o debate econômico brasileiro volta a girar em torno de crescimento, emprego, renda, impostos e tamanho do Estado. São temas importantes. Mas talvez estejamos deixando de fazer uma pergunta anterior a todas essas: que economia queremos construir para o Brasil nas próximas décadas?
Há muitos anos acompanho os trabalhos de César Hidalgo e Ricardo Hausmann sobre complexidade econômica. A ideia central é poderosa: a riqueza de uma sociedade não depende apenas do que ela produz, mas da quantidade de conhecimento e de capacidades que consegue combinar para produzir coisas difíceis de serem reproduzidas por outros.
Um país que exporta predominantemente produtos pouco complexos pode gerar enormes riquezas, principalmente para seus proprietários. Mas uma economia capaz de produzir aviões, medicamentos, equipamentos médicos, software, máquinas sofisticadas, biotecnologia e semicondutores acumula algo ainda mais importante: conhecimento produtivo.
Por isso, quando os candidatos à Presidência apresentarem seus programas econômicos, talvez devêssemos perguntar menos quanto pretendem gastar e mais: como pretendem aumentar a complexidade da economia brasileira?
E complexidade não significa apenas indústria.
Serviços tecnológicos, engenharia, pesquisa, logística especializada, software, universidades, formação profissional e empresas inovadoras formam ecossistemas. Quanto maior a complementaridade entre essas capacidades, maiores as possibilidades de surgirem novos negócios, empregos qualificados e renda.
Foi pensando nisso que percebi uma possível nova fronteira para o Atlas Social que estamos desenvolvendo em Hortolândia.
O Atlas nasceu procurando responder a uma pergunta: onde está a vulnerabilidade?
Com dados de pessoas, famílias e loteamentos, podemos identificar territórios onde se concentram baixa renda, analfabetismo, idosos vulneráveis, crianças e outras dimensões importantes da realidade social.
Mas localizar a vulnerabilidade é apenas metade do problema.
A pergunta seguinte é muito mais difícil: como as pessoas saem dela?
Hortolândia oferece um laboratório extraordinário para investigar essa questão. Temos grandes empresas, algumas inseridas em atividades sofisticadas. A EMS, no setor farmacêutico, é um exemplo conhecido. Mas ao redor dessas empresas existem fornecedores, laboratórios, transportadoras, empresas de tecnologia, manutenção, engenharia, software e serviços especializados.
E, principalmente: os moradores dos nossos territórios mais vulneráveis conseguem participar desse ecossistema?
Imagine encontrarmos um bairro com elevada vulnerabilidade a poucos quilômetros de empresas que oferecem empregos de maior produtividade e melhores salários.
Nesse caso, talvez o problema não seja ausência de riqueza no município.
Pode existir um hiato de capacidades.
A empresa necessita determinada qualificação; o trabalhador possui outra. Ou faltam transporte, formação técnica, informação, creche ou acesso às oportunidades.
É exatamente nesse espaço entre a oportunidade existente e a capacidade das pessoas de alcançá-la que políticas públicas inteligentes podem atuar.
O Atlas poderia, então, ganhar uma segunda dimensão. De um lado, continuaríamos construindo o mapa da vulnerabilidade. Do outro, começaríamos a construir um mapa das capacidades econômicas de Hortolândia: empresas, atividades, ocupações, salários, conhecimentos e suas complementaridades.
Depois colocaríamos os dois mapas um sobre o outro.
Talvez descubramos que desenvolvimento social e desenvolvimento econômico são muito menos separáveis do que nossas estruturas administrativas fazem parecer.
Uma política social pode aliviar a vulnerabilidade presente. Uma política de desenvolvimento econômico pode criar oportunidades. Educação pode construir as capacidades necessárias para alcançá-las. Mobilidade pode conectar pessoas às oportunidades.
É a combinação dessas políticas que pode alterar trajetórias.
No debate presidencial que se aproxima, portanto, eu gostaria de ouvir dos candidatos não apenas como pretendem aumentar o PIB brasileiro. Gostaria de saber quais novas capacidades o Brasil pretende dominar nos próximos dez anos e como pretende construí-las.
E, guardadas as proporções, deveríamos fazer a mesma pergunta em nossas cidades.
Porque talvez o grande desafio de um Atlas Social não seja somente descobrir onde estão os vulneráveis.
Talvez seja descobrir os mecanismos de saída da vulnerabilidade.
* AILTON VENDRAMINI, Engenheiro eletrotécnico com 40+ anos no setor privado (ABB, VA TECH, Schneider, Veccon etc.), liderando contratos e grandes projetos. Experiência executiva no Brasil e exterior. Hoje, Diretor de Dados & Estatística e DPO de Hortolândia, à frente de LGPD e projetos de dados/IA. Articulista e consultor; MBA USP, pós-graduações FGV e especialização em Big Data.