QUANDO O PERIGO MORA EM CASA

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Uma investigação do Jornal RMC revela como a violência de gênero atravessa os 20 municípios da Região Metropolitana de Campinas; e mostra que, enquanto algumas cidades ampliam a rede de proteção, outras ainda precisam transformar prevenção em prioridade permanente

Por Vlaj Lindemuth | Jornal RMC

A porta está fechada. Do lado de fora, uma rua como tantas outras da Região Metropolitana de Campinas. Gente indo para o trabalho, crianças indo para a escola, carros passando, vizinhos cumprimentando vizinhos. Do lado de dentro, pode existir uma realidade que ninguém vê. Uma mulher pode estar sendo ameaçada, humilhada, controlada, perseguida ou agredida. Pode estar com medo. E talvez ninguém saiba. Ou talvez alguém saiba e prefira não se envolver.

É justamente nesse espaço entre aquilo que acontece dentro de casa e aquilo que a sociedade consegue enxergar que a violência de gênero se fortalece.

Esta reportagem do Jornal RMC percorreu dados públicos, registros oficiais e iniciativas municipais para entender como os 20 municípios da Região Metropolitana de Campinas estão enfrentando um problema que não respeita divisas territoriais.

O resultado revela uma região com diferentes estruturas, diferentes estratégias e diferentes níveis de resposta. Mas com uma realidade em comum: a violência contra a mulher continua fazendo parte do cotidiano da RMC.

1.777 MULHERES EM UM ÚNICO ANO

Campinas concentra a maior população da RMC e também possui uma das séries estatísticas municipais mais detalhadas sobre violência.

O 18º Boletim Epidemiológico SISNOV mostra que, entre 2019 e 2024, foram registradas 6.818 notificações de violência contra mulheres de 18 a 59 anos residentes em Campinas. Em 2019 foram 793 notificações. Em 2020, 696. Depois, os registros cresceram para 829 em 2021, 1.138 em 2022, 1.585 em 2023 e chegaram a 1.777 em 2024. Foi o maior número da série analisada pelo município. Entre 2023 e 2024, o aumento foi de aproximadamente 12%. O dado, entretanto, precisa ser compreendido corretamente.

Uma notificação representa um caso que chegou ao conhecimento de um serviço integrante da rede de atendimento. Ela não significa que todos os episódios ocorridos na cidade tenham sido registrados. Ou seja: os números mostram o que conseguiu chegar à rede. Não necessariamente tudo o que aconteceu.

QUEM ESTÁ DO OUTRO LADO DA PORTA?

Outro dado de Campinas ajuda a entender a natureza da violência. Segundo o levantamento municipal, 42,1% das violências notificadas tiveram cônjuges ou ex-cônjuges como autores. Isso significa que, em uma parcela expressiva dos casos registrados, a ameaça não veio de um desconhecido. Veio de alguém que fazia parte da vida da vítima: marido, companheiro ou ex-companheiro. Ou seja, alguém que conhecia a rotina, sabia onde ela trabalhava, conhecia seus filhos, conhecia sua casa. E, muitas vezes, sabia exatamente quais eram suas fragilidades.

É por isso que falar de violência de gênero exige abandonar a ideia de que o problema está apenas nas ruas. Em muitos casos, ele está dentro de casa.

20 MUNICÍPIOS, UMA MESMA QUESTÃO

A RMC é formada oficialmente por 20 municípios: Americana, Artur Nogueira, Campinas, Cosmópolis, Engenheiro Coelho, Holambra, Hortolândia, Indaiatuba, Itatiba, Jaguariúna, Monte Mor, Morungaba, Nova Odessa, Paulínia, Pedreira, Santa Bárbara d’Oeste, Santo Antônio de Posse, Sumaré, Valinhos e Vinhedo.

A investigação do Jornal RMC encontrou, porém, uma dificuldade que também revela parte do problema: não existe uma única base municipal padronizada, facilmente acessível ao cidadão, reunindo todos os indicadores de violência contra a mulher dos 20 municípios.

A Secretaria da Segurança Pública mantém uma base estadual específica de violência contra a mulher, com dados a partir de 2024, mas utiliza diferentes sistemas e metodologias para consolidar os registros.

Na prática, para conhecer a realidade regional é necessário cruzar diferentes fontes: SSP, Tribunal de Justiça, Ministério Público, Prefeituras, Câmaras Municipais, Serviços de assistência social, Guardas municipais, Delegacias e notícias oficiais.

Esse mosaico de informações é importante porque uma única estatística não consegue contar toda a história.

AMERICANA: QUANDO A REDE DISCUTE COMO EVITAR O FEMINICÍDIO

Em Americana, a resposta municipal inclui uma rede que reúne diferentes profissionais e órgãos. Em agosto de 2026, a cidade promoveu o Fórum Municipal de Combate à Violência contra a Mulher, reunindo representantes da Delegacia de Defesa da Mulher, Patrulha Maria da Penha, Instituto Médico Legal, assistência social e Judiciário.

Um dos debates teve como tema justamente uma questão central desta reportagem: “Medidas Protetivas Salvam”. A cidade também discutiu o papel da Lei Maria da Penha e a atuação integrada dos diferentes atores responsáveis pela proteção.

Mas Americana também aparece nos números regionais. Em 2025, foram 368 pedidos de medidas protetivas, contra 597 em 2024, uma queda de 38,4%. O número de feminicídios também caiu: foram três em 2024 e um em 2025. A queda, porém, não pode ser interpretada automaticamente como prova de que a violência desapareceu. Menos pedidos podem significar mais segurança. Mas também podem significar dificuldade de acesso, subnotificação ou mudanças na forma como os casos chegam à Justiça. É uma distinção fundamental.

HORTOLÂNDIA: QUANDO A PROTEÇÃO PRECISA GARANTIR TAMBÉM UM LUGAR PARA MORAR

Hortolândia apresenta um dos exemplos mais concretos de como a violência pode destruir a autonomia de uma mulher. Em 2025, o município registrou 437 pedidos de medidas protetivas, contra 521 em 2024. Também foram registrados três feminicídios em 2025. Mas talvez uma das iniciativas mais importantes esteja fora da estatística criminal.

Em abril de 2026, o município alterou as regras do Auxílio-Moradia para facilitar o acesso de mulheres vítimas de violência doméstica que estejam sob medidas protetivas. A legislação permite concessão do benefício por até 24 meses, mediante acompanhamento do CRAM.

Também existe a possibilidade de manutenção do benefício quando a mulher precisa deixar sua residência por razões de segurança, inclusive quando o imóvel está fora de Hortolândia. A regra prevê ainda possibilidade de locação em municípios limítrofes, como Monte Mor, Sumaré e Campinas. A medida revela algo que muitas vezes desaparece quando falamos somente de polícia: proteger uma mulher também pode significar garantir que ela tenha para onde ir.

MONTE MOR: MAIS DE UM CASO DE VIOLÊNCIA POR DIA

Em Monte Mor, os números apresentados pelo Ministério Público municipal são especialmente preocupantes. Segundo informações divulgadas pela Câmara Municipal, 443 casos de violência doméstica foram formalizados junto ao sistema de Justiça em 2025. Isso representa mais de um caso por dia. No mesmo período, foram registrados 211 pedidos de medidas protetivas. Dos 443 casos, 33 estavam relacionados ao descumprimento de medidas protetivas.

Monte Mor registrou ainda um feminicídio consumado e uma tentativa de feminicídio em 2025. O próprio promotor Pedro José Rocha e Silva alertou que os números representam apenas os casos que chegaram ao conhecimento das autoridades. Existe, portanto, possibilidade de subnotificação.

O município também aprovou legislação criando a Semana de Combate ao Feminicídio, com previsão de ações de prevenção, informação e conscientização.

SUMARÉ: QUANDO O PEDIDO DE PROTEÇÃO DISPARA

Sumaré apresenta um dos dados mais expressivos encontrados nesta investigação. Em 2024, foram registrados 133 pedidos de medidas protetivas. Em 2025, foram 470. O crescimento foi de 253,4%. Os dados foram obtidos pelo g1 por meio da Lei de Acesso à Informação junto ao Tribunal de Justiça de São Paulo.

Mas o que esse aumento significa? É mais violência? É mais denúncia? É uma rede que está conseguindo fazer com que mais mulheres procurem proteção? Ou é uma combinação dessas situações? A resposta não é simples. A própria reportagem ouviu especialistas com interpretações diferentes. Uma advogada especializada em gênero apontou a necessidade de políticas públicas preventivas.

A Prefeitura de Sumaré, por outro lado, afirmou que o crescimento está relacionado ao fortalecimento da rede de proteção e ao maior encorajamento das vítimas para procurar ajuda.

Existe ainda outro dado que chama atenção. Segundo a mesma investigação, Sumaré passou a contar com uma Secretaria da Mulher e da Família em 2025. A cidade também possui iniciativas de proteção e acompanhamento. O problema, portanto, não é simplesmente contar quantos pedidos aumentaram. É entender por que aumentaram e o que acontece depois que a mulher pede ajuda.

INDAIATUBA: UMA REDE QUE CONSEGUE MEDIR O PRÓPRIO TRABALHO

Indaiatuba possui um dos programas municipais mais estruturados de acompanhamento de mulheres sob medidas protetivas. O Caminho das Rosas, criado em 2018, atua por meio da Guarda Civil Municipal. De janeiro de 2020 a 29 de julho de 2026, foram registrados: 4.022 atendimentos; 617 prisões em flagrante; 27.695 rondas preventivas; 3.724 medidas protetivas cadastradas; e 2.200 medidas ainda vigentes. Somente em 2025, o programa registrou 887 atendimentos e 162 prisões em flagrante.

Outro balanço municipal informa que, em 2025, a Guarda registrou 628 ocorrências relacionadas à violência contra a mulher, sendo 420 casos de violência doméstica e 109 ocorrências de descumprimento de medidas protetivas. Foram 100 prisões em flagrante e 121 visitas sociais a mulheres protegidas por medidas judiciais.

O próprio município faz uma ressalva importante: o aumento dos atendimentos não deve ser interpretado automaticamente como aumento da violência. Pode significar também que mais mulheres estão conseguindo acessar a rede. Essa ressalva deveria acompanhar qualquer análise de estatísticas sobre violência.

ITATIBA: PROTEÇÃO TAMBÉM É PREVENÇÃO

Itatiba aposta em uma combinação de políticas de proteção, conscientização e atuação especializada. A cidade mantém a Patrulha Guardiã Maria da Penha e promove ações de prevenção. Em 2026, o município reforçou a atuação da rede de enfrentamento à violência contra as mulheres e promoveu atividades envolvendo segurança pública, Judiciário e sociedade civil.

A cidade também promove iniciativas de autodefesa e conscientização. A proposta, segundo os organizadores, não é estimular o confronto, mas ajudar mulheres a reconhecer situações de risco, evitar o agravamento e buscar ajuda.

VINHEDO: A VIOLÊNCIA QUE CHEGOU A 2.401 BOLETINS

Vinhedo apresenta um dado recente que merece atenção. Entre julho de 2024 e 17 de julho de 2026, foram registrados 2.401 boletins de ocorrência relacionados à violência contra a mulher. No mesmo período, foram contabilizados: 833 inquéritos policiais; 391 medidas protetivas; e 106 prisões em flagrante.

Os números foram apresentados pela delegada responsável pela Delegacia da Mulher durante debate realizado no município. Em 2025, uma ocorrência também mostrou como uma situação pode escalar rapidamente.

Uma mulher foi agredida pelo marido, ameaçada com arma de fogo e, segundo a Polícia Militar, já havia registrado boletins de ocorrência anteriormente. O agressor foi preso e o caso foi tratado como tentativa de feminicídio. O episódio deixa uma pergunta inevitável: quantos sinais precisam aparecer antes que uma situação seja reconhecida como risco extremo?

VALINHOS: A PROTEÇÃO PRECISA ACONTECER NO PRIMEIRO SINAL

Valinhos mantém uma rede que reúne Guarda Civil Municipal, Sala Lilás e atendimento psicossocial e jurídico. Em agosto de 2025, a GCM registrou duas ocorrências envolvendo violência contra mulheres, incluindo uma tentativa de feminicídio e uma prisão por importunação sexual.

A cidade também mantém a equipe Guardião Maria da Penha. A lógica é acompanhar a vítima não apenas no momento da ocorrência, mas também no período posterior, quando o risco pode continuar.

NOVA ODESSA: UMA CIDADE QUE FOI À RUA FALAR SOBRE O PROBLEMA

Nova Odessa escolheu levar a discussão para um lugar onde a violência normalmente não aparece: as ruas. Durante o Agosto Lilás de 2025, equipes da Prefeitura, Conselho Municipal da Mulher e CREAS realizaram uma intervenção em uma das regiões de maior circulação da cidade para distribuir informações e orientar a população.

O município mantém o CREAS como porta de acolhimento, orientação e encaminhamento psicossocial e jurídico. A cidade também chegou a ter um requerimento da Câmara solicitando dados específicos sobre os atendimentos prestados a mulheres vítimas de violência.

A iniciativa buscava saber quantos boletins haviam sido registrados e quais serviços de suporte psicológico, social e jurídico estavam sendo oferecidos. Esse tipo de questionamento é importante. Porque política pública sem avaliação pode virar apenas discurso.

SANTA BÁRBARA D’OESTE: QUANDO A POLÍTICA HABITACIONAL ENTRA NA REDE DE PROTEÇÃO

Em Santa Bárbara d’Oeste, uma mudança legislativa trouxe a habitação para dentro da discussão sobre violência. Uma lei municipal sancionada em fevereiro de 2026 determinou que 5% do total de moradias populares de programas habitacionais públicos sejam destinados a mulheres vítimas de violência doméstica e a mulheres vítimas de tentativa de feminicídio decorrente de violência doméstica.

A cidade também possui legislação voltada à acessibilidade comunicativa para mulheres com deficiência auditiva ou visual vítimas de violência doméstica. É uma constatação importante: proteção não é apenas polícia. É também moradia. É acessibilidade. É autonomia. É possibilidade de recomeçar.

PAULÍNIA: MAIS DE 300 PEDIDOS DE PROTEÇÃO EM UM ANO

Em Paulínia, foram solicitadas 305 medidas protetivas em 2025, contra 257 em 2024. O aumento foi de 18,7%. O município também debateu a implantação de mecanismos de conscientização e proteção, como o Banco Vermelho.

Mais uma vez, o dado precisa ser lido com cautela. O aumento dos pedidos pode indicar aumento da violência. Mas também pode significar maior acesso à Justiça. A estatística, isoladamente, não consegue responder.

PEDREIRA: A PROTEÇÃO PRECISA CHEGAR ONDE A MULHER ESTÁ

Pedreira recebeu, em setembro de 2025, o ônibus do programa estadual SP Por Todas. A estrutura itinerante levou serviços de acolhimento e proteção para áreas de vulnerabilidade social. A iniciativa teve participação da Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social.

É uma estratégia que enfrenta uma barreira muitas vezes ignorada: nem toda mulher consegue chegar facilmente até um serviço especializado. Quando a rede se desloca até o território, a distância deixa de ser uma barreira.

ENGENHEIRO COELHO: QUANDO A CONSCIENTIZAÇÃO PRECISA COMEÇAR PELO DEBATE

Em Engenheiro Coelho, uma das iniciativas recentes foi a realização de palestra sobre violência contra a mulher na Câmara Municipal. O encontro reuniu moradores, lideranças locais e representantes da comunidade acadêmica para discutir prevenção e enfrentamento.

Pode parecer uma ação pequena diante da dimensão do problema. Mas prevenção também começa assim. Falando. Informando. Ensinando a reconhecer os sinais. Criando espaços para que uma mulher saiba que pode pedir ajuda.

COSMÓPOLIS: A PREVENÇÃO GANHA ESPAÇO NA LEGISLAÇÃO

Cosmópolis aprovou em 2026 uma lei instituindo o Projeto Banco Vermelho. A iniciativa prevê ações de conscientização, prevenção, informação e sensibilização sobre violência contra a mulher e feminicídio.

O Banco Vermelho é um símbolo. Mas símbolos só cumprem sua função quando ajudam a provocar conversas. E, nesse tema, conversar pode significar abrir uma porta que antes permanecia fechada.

JAGUARIÚNA: AÇÕES NOS CRAS E NA COMUNIDADE

Em Jaguariúna, a campanha Agosto Lilás de 2025 incluiu palestras em Centros de Referência de Assistência Social, rodas de conversa e ações sobre direitos das mulheres e ciclo da violência doméstica.

A proposta foi levar o debate para espaços frequentados diariamente pela população. É uma estratégia importante porque a violência não deve ser discutida apenas quando acontece uma tragédia.

ARTUR NOGUEIRA, HOLAMBRA E A REDE REGIONAL

Artur Nogueira, Holambra e Engenheiro Coelho possuem uma característica institucional particular: os três municípios integram a mesma comarca judicial, com sede em Artur Nogueira. Essa configuração significa que determinadas demandas judiciais das três cidades passam por uma estrutura comum. Isso reforça a importância de pensar a violência de gênero de maneira regional.

A mulher pode morar em Holambra, trabalhar em Artur Nogueira e ter familiares em Engenheiro Coelho. O agressor também pode circular entre municípios. A rede, portanto, precisa conversar além dos limites administrativos.

MORUNGABA E SANTO ANTÔNIO DE POSSE: QUANDO A AUSÊNCIA DE DADOS TAMBÉM É UMA INFORMAÇÃO

A investigação do Jornal RMC encontrou menos informações públicas e sistematizadas sobre violência contra a mulher especificamente nesses municípios. Isso não significa que não exista violência.

Significa que não encontramos, nas fontes públicas consultadas, uma série municipal suficientemente clara e comparável para afirmar um número sem correr o risco de induzir o leitor ao erro.

E isso também precisa ser dito. Uma das grandes dificuldades para compreender a violência de gênero na RMC é justamente a fragmentação dos dados. Não basta produzir políticas públicas, é necessário medir, registrar, publicar, comparar, avaliar e permitir que a sociedade acompanhe.

OS 20 MUNICÍPIOS E O MESMO DESAFIO

Ao observar os municípios individualmente, surge um mosaico. Há cidades com programas específicos. Há municípios com Patrulha Maria da Penha. Há cidades com Sala Lilás. Há programas de acompanhamento de medidas protetivas. Há ações de assistência social. Há iniciativas de habitação. Há campanhas educativas. Há projetos de reeducação de homens autores de violência.

E há municípios onde a informação pública disponível ainda é insuficiente para permitir uma comparação regional segura. Isso não significa que uma cidade esteja necessariamente fazendo menos. Significa que a sociedade tem dificuldade para saber exatamente o que está sendo feito. E transparência também é uma ferramenta de prevenção.

A QUEDA DOS NÚMEROS PODE SER UMA BOA NOTÍCIA?

Existe uma armadilha quando analisamos estatísticas de violência. Se os registros aumentam, pode ser que a violência esteja aumentando. Mas também pode ser que mais mulheres estejam denunciando.

Se os registros diminuem, pode ser que a violência esteja diminuindo. Mas também pode ser que menos mulheres estejam conseguindo chegar à rede. Por isso, nenhuma estatística deve ser analisada isoladamente.

A Secretaria da Segurança Pública, inclusive, explica que seus dados de violência contra a mulher passaram por mudança de fonte de consolidação a partir de janeiro de 2024, devido a inconsistências identificadas em sistemas anteriores. Isso é jornalisticamente relevante. Porque comparar números exige conhecer a metodologia.

O QUE ACONTECE DEPOIS DO PEDIDO DE AJUDA?

Talvez esta seja a pergunta mais importante desta reportagem. Uma mulher denuncia. E depois? Ela consegue uma medida protetiva? O agressor respeita a ordem? Se ele descumprir, alguém será avisado rapidamente? Ela tem um lugar seguro para ficar? Consegue continuar trabalhando? Tem como levar os filhos? Recebe atendimento psicológico? Tem orientação jurídica? Consegue reconstruir sua autonomia financeira? E, principalmente: ela consegue viver sem medo?

Os dados de Indaiatuba mostram como o acompanhamento posterior pode ser estruturado. Os dados de Hortolândia mostram que moradia pode fazer parte da proteção. Vinhedo mostra a importância da integração entre segurança, Justiça e assistência. Santa Bárbara d’Oeste mostra que política habitacional pode integrar a resposta. Monte Mor mostra a dimensão dos casos que chegam ao sistema de Justiça. Sumaré mostra como a procura por medidas protetivas pode crescer rapidamente. Campinas mostra, em números absolutos, a dimensão do problema em uma grande cidade. Cada município oferece uma peça. O desafio é montar o quebra-cabeça regional.

O SILÊNCIO TAMBÉM É PARTE DA HISTÓRIA

Uma mulher que vive sob violência pode levar meses ou anos para procurar ajuda. Pode acreditar que o comportamento do companheiro é “normal”. Pode sentir vergonha. Pode ter medo de não ser acreditada. Pode depender financeiramente dele. Pode ter filhos. Pode não ter para onde ir. Pode ter medo de morrer justamente quando decidir terminar.

Por isso, a frase “por que ela não foi embora?” precisa ser substituída por outra: o que estamos fazendo para que ela consiga sair com segurança? Essa mudança de pergunta muda também a forma como pensamos políticas públicas.

AS CRIANÇAS QUE CRESCEM NO MEIO DA VIOLÊNCIA

Uma criança que vê a mãe ser agredida não está apenas assistindo a uma briga. Ela está aprendendo sobre relações. Pode aprender que o homem manda. Que a mulher precisa obedecer. Que ciúme é amor. Que gritar é normal. Que ameaçar faz parte de um relacionamento. Que violência pode ser perdoada.

É por isso que o combate à violência de gênero também é uma política para as próximas gerações. O futuro está em jogo dentro das casas.

A REGIÃO PRECISA DE UMA REDE QUE FUNCIONE COMO REGIÃO

A RMC tem 20 municípios. Mas a violência não conhece os limites dessas 20 administrações. Uma mulher pode morar em Sumaré e trabalhar em Campinas. Pode viver em Monte Mor e trabalhar em Hortolândia. Pode morar em Vinhedo e ter familiares em Valinhos. Pode buscar atendimento em uma cidade e morar em outra. Pode mudar de endereço justamente para fugir do agressor.

Por isso, pensar a proteção exclusivamente dentro do território municipal pode ser insuficiente. A região precisa compartilhar informações, protocolos, capacitação e boas práticas. O que funciona em Indaiatuba pode inspirar outra cidade.

O modelo habitacional de Hortolândia pode ser estudado por outros municípios. A experiência de Vinhedo pode ajudar cidades vizinhas. As ações de Americana podem ser replicadas. E os municípios com menor estrutura podem ter acesso a soluções regionais.

NÃO BASTA CONTAR AS MORTES

Feminicídio é o extremo. É o ponto em que todas as possibilidades de prevenção falharam — ou não foram suficientes. Mas uma reportagem responsável precisa olhar muito antes. Para a primeira ameaça. Para o primeiro empurrão. Para a primeira humilhação. Para o primeiro controle. Para o primeiro pedido de ajuda. É ali que uma vida pode ser salva.

O FUTURO ESTÁ EM JOGO

Os números de Campinas. Os 443 casos de violência doméstica formalizados em Monte Mor. Os 470 pedidos de medidas protetivas em Sumaré. Os 437 pedidos em Hortolândia. Os 368 em Americana. Os 305 em Paulínia. Os milhares de registros, atendimentos e medidas protetivas de cidades como Indaiatuba e Vinhedo. Cada número representa uma situação real.

Mas nenhum número consegue mostrar completamente a dor. Não mostra a noite mal dormida. Não mostra o medo. Não mostra a criança que viu. Não mostra a mulher que saiu de casa carregando uma sacola. Não mostra aquela que voltou porque não tinha para onde ir. Não mostra aquela que finalmente conseguiu recomeçar. E não mostra quantas ainda estão esperando alguém perceber.

A violência de gênero não é apenas um problema de segurança pública. É um problema de saúde, de educação, de assistência social, de habitação, de Justiça, de economia, de cultura e de convivência. É por isso que o tema é tão importante.

A convivência está em risco quando uma mulher precisa ter medo dentro da própria casa. E o futuro está em jogo quando crianças crescem acreditando que violência faz parte do amor. Talvez a principal conclusão desta investigação seja justamente essa: não podemos esperar o último capítulo para começar a agir.

A prevenção precisa começar no primeiro sinal. A proteção precisa acontecer quando a mulher pede ajuda. A rede precisa funcionar quando ela mais precisa. E os dados precisam ser públicos para que a sociedade consiga cobrar resultados. Porque uma mulher não deveria precisar virar estatística para ser protegida. Antes de ser um número, ela é uma vida.

E cada vida que conseguimos proteger representa uma família que pode continuar inteira, uma criança que pode aprender uma história diferente e uma sociedade que dá um passo na direção de um futuro menos violento.

SERVIÇO: ONDE PEDIR AJUDA?

Emergência: Polícia Militar — 190

Ligue 180: Central de Atendimento à Mulher, canal gratuito de orientação, acolhimento e encaminhamento de denúncias.

Também é possível procurar Delegacias de Defesa da Mulher, serviços municipais especializados, assistência social, Ministério Público e Defensoria Pública. Em caso de risco imediato, a orientação é acionar a polícia.

NOTA METODOLÓGICA DO JORNAL RMC

Esta reportagem utilizou dados e informações públicas disponibilizados por órgãos oficiais e fontes jornalísticas com acesso a informações obtidas por Lei de Acesso à Informação.

Os números de violência contra a mulher não devem ser comparados automaticamente entre municípios sem considerar diferenças de metodologia, população, estrutura de atendimento, período analisado e sistema responsável pelo registro.

Quando não foi localizada uma série municipal pública suficientemente clara para permitir uma comparação segura, o Jornal RMC optou por não estimar ou preencher o dado, preservando a precisão jornalística.

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