Uma estrada para todos
Feriado de 12 de outubro coloca veículos e milhares de peregrinos no mesmo caminho, e chama a atenção para a responsabilidade de compartilhar as vias com segurança
Carros carregados para alguns dias de descanso, ônibus seguindo para destinos turísticos, motocicletas, caminhões que mantêm o abastecimento das cidades, bicicletas e pessoas caminhando por quilômetros. No feriado de 12 de outubro, diferentes formas de chegar ao destino se encontram nas estradas brasileiras e ajudam a lembrar algo que, na rotina, muitas vezes passa despercebido, que é um espaço democrático e compartilhado.
Ao movimento característico dos feriados soma-se uma particularidade do período: as peregrinações em direção ao Santuário Nacional de Aparecida, em São Paulo, que levam milhares de pessoas a percorrer trechos próximos às rodovias a pé ou de bicicleta.
A presença simultânea de usuários tão diferentes torna mais evidente a desigualdade que existe quando ocorre uma colisão. Enquanto ocupantes de automóveis contam com carroceria, cintos, airbags e outros sistemas de proteção, pedestres e ciclistas estão diretamente expostos ao impacto. Por isso, compartilhar a estrada também significa reconhecer quem está mais vulnerável nela.
“Quando conduzimos um veículo, nossas escolhas não afetam apenas quem está dentro dele. Velocidade, distância, atenção e a forma como realizamos uma ultrapassagem podem interferir diretamente na segurança de quem está ao lado. Quanto mais e diferentes usuários dividindo aquele espaço, maior precisa ser o cuidado”, explica Luiz Gustavo Campos, diretor e especialista em trânsito da Perkons.
Quando a velocidade encontra a vulnerabilidade
Além de reduzir o tempo de percepção e de reação de algo inesperado, velocidades mais altas aumentam a energia envolvida no impacto e, consequentemente, a gravidade de um sinistro.
Essa relação ganha outra dimensão quando estão envolvidos usuários sem proteção externa. Um pedestre caminhando pelo acostamento, um ciclista seguindo pela rodovia ou mesmo um motociclista têm condições muito diferentes das de quem está em um automóvel.
É nesse ponto que a fiscalização eletrônica deixa de ser apenas uma ferramenta para identificar uma infração e passa a integrar uma estratégia mais ampla de segurança viária. Ao contribuir para o cumprimento dos limites estabelecidos, ela ajuda a tornar o comportamento dos condutores mais previsível e a reduzir um dos fatores capazes de transformar uma situação de risco em um sinistro grave.
“O limite de velocidade não existe isoladamente. Ele considera as características daquele ambiente e as condições necessárias para uma circulação segura. Quando há pedestres, ciclistas ou grande concentração de veículos, respeitar esse limite é também uma forma de proteger pessoas que podem não ter nenhuma possibilidade de se defender diante de uma aproximação em alta velocidade”, afirma Campos.
O caminho também faz parte da viagem
A movimentação em direção a Aparecida torna essa convivência particularmente visível no mês de outubro. Todos os anos, grupos de peregrinos percorrem longas distâncias até o município paulista, muitos deles utilizando trajetos próximos às rodovias.
O cenário exige atenção tanto de quem está caminhando ou pedalando quanto de quem conduz veículos. Para os motoristas, reduzir a velocidade ao perceber grupos de pessoas, manter distância lateral segura, evitar ultrapassagens perigosas e eliminar distrações são atitudes fundamentais.
Para pedestres e ciclistas, visibilidade também é proteção. Roupas claras ou elementos refletivos, deslocamento em grupos organizados, atenção aos trechos de menor visibilidade e planejamento prévio do percurso ajudam a diminuir a exposição ao risco.
“É importante abandonar a ideia de que a estrada pertence a um determinado tipo de veículo. Mobilidade é feita por pessoas. A segurança começa quando conseguimos enxergar o outro como parte legítima daquele espaço”, destaca Campos.