De Vinhedo a Valparaíso, atriz leva uma casa com pernas a festival internacional de teatro
Maria Clara Teixeira representa o Brasil na 9ª edição do Festilambe, no Chile, com espetáculo de teatro em miniatura inspirado na Baba Yaga, na mandioca e na ideia de manter o fogo aceso
Uma casa anda pelas ruas de Valparaíso, no Chile. Tem olhos, boca, braços e pernas. Antes mesmo de começar a história que guarda dentro de si, conversa com quem passa. Depois, convida o espectador a se aproximar, abrir uma pequena porta e olhar por um orifício. Do outro lado, em poucos minutos, acontece um mundo inteiro.
É com “Casa da Floresta: Morada em Movimento” que a atriz, diretora e artista de teatro de formas animadas Maria Clara Teixeira participa da nona edição do FESTILAMBE de Valparaíso, no Chile, um dos encontros internacionais dedicados ao Teatro Lambe-Lambe. A programação reúne 25 espetáculos selecionados entre 125 propostas, vindas de seis países: Chile, Brasil, Argentina, Itália, Espanha e Colômbia. O Brasil aparece com cinco trabalhos, entre eles o de Maria Clara.
Realizado pela Fundação OANI de Teatro, o festival ocupa espaços públicos de Valparaíso com pequenas caixas e casas cênicas nas quais as apresentações são destinadas, em geral, a um espectador por vez. A programação de 2026 se estende de 2 a 10 de outubro e inclui, além das apresentações, laboratórios, oficinas, mediações, palestras e outras atividades de formação.
A presença de Maria Clara no festival é resultado de um percurso que começou muito antes da inscrição no edital. E que, curiosamente, também começou com uma caixa.
Uma casa que nasceu para andar
Formada em teatro Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) , Maria Clara já tinha interesse pelo teatro de bonecos quando, em 2018, durante um período em Florianópolis, ingressou em um curso anual de profissionalização em Teatro de Formas Animadas oferecido pelo Instituto Federal de Santa Catarina.
O universo das formas animadas é amplo: inclui teatro de sombras, teatro de papel, mamulengo, manipulação direta e diferentes formas de animação de objetos. Naquele ano, o foco da formação era justamente o Lambe-Lambe — linguagem teatral criada no Brasil na década de 1980 e caracterizada pela apresentação de pequenas cenas em caixas ou estruturas destinadas a um número reduzido de espectadores.
Foi durante o curso que Maria Clara criou sua primeira obra. Em dezembro daquele ano, colocou a caixa na bagagem e partiu para uma viagem que duraria praticamente todo o ano seguinte.
Percorreu cidades da Bahia, Paraíba, Pernambuco e Ceará, passou pelo Cariri, pelo litoral nordestino e depois seguiu para o Sul do país. Apresentava em ruas, restaurantes e espaços culturais. Em alguns lugares, fazia parcerias com escolas e organizações. Em outros, trocava apresentações por hospedagem e alimentação. Era uma espécie de vida nômade construída em torno do teatro.
Em cidades turísticas, o dinheiro podia vir do chamado “chapéu” — a contribuição espontânea do público, hoje também apelidada de “chaPIX”. Em cidades onde isso era mais difícil, surgiam outras formas de parceria. Algumas noites eram passadas em casas de conhecidos; outras, em campings.
Foi nessa estrada que a atriz percebeu que o Lambe-Lambe poderia ser mais do que uma caixa carregada de um lugar para outro.
Poderia ser uma casa que também viajasse.
Da Baba Yaga à mandioca
A ideia começou a ganhar forma em 2023, quando Maria Clara iniciou a construção da segunda caixa. O ponto de partida foi uma imagem da mitologia russa: a Baba Yaga, figura folclórica cuja morada é representada como uma casa apoiada sobre patas de galinha. A imagem de uma casa viva, capaz de se deslocar pela floresta, serviu de disparador. Mas Maria Clara queria que aquela casa tivesse nascido no Brasil. Em vez de patas de galinha, imaginou pernas de mandioca, que arranca suas raízes do chão e sai andando, fazendo de si mesma morada e moradia de tantos outros seres.
Assim surgiu uma casa que não é apenas cenário. Ela é personagem.
“Casa da Floresta” fala sobre a importância de manter o fogo aceso. A chama aparece como metáfora de transformação, iluminação e desejo — aquilo que precisa ser cultivado para continuar existindo.
Dentro da caixa, o espectador encontra uma narrativa construída com papel, arame, tinta, luz e pequenos mecanismos. Os bonecos também são feitos de papel. A trilha sonora, criada com a colaboração de Gustavo Schiezaro, combina sons de floresta, música e efeitos sonoros que ajudam a conduzir a narrativa.
A iluminação, criada por Mônica Lovato, tem uma função particularmente delicada: direcionar o olhar. Não há como simplesmente assistir à cena inteira de uma vez. O teatro acontece em camadas. É preciso descobrir onde olhar. E é justamente essa limitação que cria a experiência.
Teatro para uma pessoa
No Lambe-Lambe, a escala é mínima, mas a experiência pode ser radicalmente íntima. A apresentação de “Casa da Floresta” dura no máximo três minutos. O espectador se aproxima da estrutura, coloca os fones de ouvido e recebe o convite da própria casa para olhar por uma pequena abertura. A obra começa antes de a pessoa enxergar o que acontece dentro dela. A casa fala.
Segundo Maria Clara, esse é um dos elementos que diferenciam seu trabalho. Ela não espera passivamente que o público chegue. A própria estrutura estabelece uma relação com quem está do lado de fora, criando curiosidade em quem passa. Quem observa de longe vê uma espécie de criatura estranha conversando com alguém. Mas só aquele espectador, de fones nos ouvidos, sabe exatamente o que está sendo dito. A artista gosta dessa dimensão pública do trabalho.
Em vez de depender de uma divulgação virtual para gerar interesse, a própria apresentação se transforma em uma espécie de intervenção urbana. “Tem que despertar a curiosidade”, diz.
A relação com o público também é parte importante da trajetória da atriz. Como trabalhou durante anos na rua, Maria Clara desenvolveu o hábito de abordar diretamente as pessoas, trocar olhares e perceber quem pode estar interessado em assistir.
Em festivais, quando há muitas caixas simultaneamente, ela brinca que prefere “evitar filas”. Caminha pelo espaço e convida as pessoas para uma experiência individual.
A escolha é coerente com a própria natureza do Lambe-Lambe: enquanto boa parte da cultura contemporânea é construída sobre a lógica da escala, da multiplicação e da audiência massiva, aquela caixa propõe exatamente o contrário. Uma pessoa. Três minutos.
Uma história que não se repete exatamente da mesma maneira porque o espectador também faz parte daquele encontro.
Uma caixa que precisou aprender a viajar
A seleção para o Festilambe trouxe, além da alegria, um problema bastante concreto: como levar uma casa de grandes dimensões até o Chile?
A primeira versão da estrutura era leve, mas volumosa. Em suas viagens pelo Brasil, Maria Clara já havia descoberto que a caixa podia não caber no porta-malas de um carro.
Para atravessar uma fronteira e entrar em um avião, a questão se tornou ainda mais complexa. A cenografia precisou ser reformulada com a ajuda da artista Mônica Lovato para se tornar dobrável, armazenável e transportável. Também houve a necessidade de substituir materiais naturais presentes na versão anterior — como folhas e cascas de árvore — por materiais adequados ao transporte internacional e às exigências sanitárias.
A nova versão ganhou uma estrutura feita com tecidos, algodão cru e outros materiais. A mudança, no entanto, não é apenas logística.
É quase uma continuação da própria dramaturgia da obra: uma casa que fala sobre deslocamento precisou, ela mesma, aprender novas maneiras de se deslocar.
Do Brasil ao Chile — e de volta ao Brasil
Para a apresentação no Chile, a obra também ganhou uma versão em espanhol. Maria Clara convidou a porto-riquenha Thaís Gonzales, que conheceu durante uma imersão de teatro antropológico realizada na Bolívia, para gravar a voz.
A adaptação mantém uma característica essencial do espetáculo: a experiência acontece pelo áudio, individualmente, nos fones de quem está diante da caixa.
A viagem ao Chile será também a primeira vez que Maria Clara estará no país. A artista conta que ficou ansiosa depois de receber a confirmação de sua seleção. O processo que antes era movido pelo desejo de aprimorar a caixa ganhou, de repente, uma dimensão internacional. No entanto, ela faz questão de relativizar a ideia de competição.
Embora os artistas precisem passar por um processo seletivo, o universo do Lambe-Lambe, segundo ela, é menos marcado pela disputa e mais pela comunidade. “Não se trata de um festival em que as obras competem por categorias de melhor iluminação, melhor cenário ou melhor atuação. O que existe é uma comunidade de artistas que compartilha processos, técnicas e descobertas”, explica.
Essa dimensão de troca é parte central do próprio Festilambe. Além das apresentações, a edição de 2026 promove laboratório de análise e aperfeiçoamento, atividades de formação, classe magistral, mediação e outras ações que aproximam artistas e público. E a viagem de Maria Clara não termina no Chile. Na semana seguinte ao festival, a atriz segue para Curitiba para participar da 3ª Bienal de Teatro Lambe-Lambe Brasil, entre 14 e 19 de outubro, levando novamente sua caixa para outro encontro dedicado à linguagem.
Uma artista — e uma comunidade inteira
Apesar de a imagem mais evidente ser a de uma atriz carregando sozinha uma casa nas costas, Maria Clara faz questão de desfazer a ideia de que o Lambe-Lambe seja uma arte solitária.
Mais de dez pessoas participaram, de alguma maneira, da construção de “Casa da Floresta”: profissionais e parceiros ligados à iluminação, mecanismos, cenografia, trilha, gravação, comunicação e outros aspectos da criação. É uma contradição que parece interessar à artista. “Essa lambe, apesar de eu estar à frente desse projeto, tem mais de dez pessoas envolvidas. Pode até parecer uma arte solitária o lambe, mas ela segue, também, essa linha comunitária do teatro. E, ao mesmo tempo, ela é contra a massificação, pois não apresento para várias pessoas de uma vez. Dessa forma, eu consigo acessar uma certa unicidade naquele momento que eu tenho de três a quatro minutos com o meu espectador. Então, acho que isso é revolucionário nos tempos de massificação”, define.
Em um tempo em que a cultura disputa atenção em telas cada vez maiores, diante de multidões cada vez mais numerosas, uma atriz de Vinhedo atravessa fronteiras carregando uma pequena casa para fazer justamente o contrário: pedir que uma única pessoa pare, coloque os fones, aproxime o rosto e olhe. Por alguns minutos, o mundo cabe inteiro dentro de uma caixa. E uma casa com pernas continua andando.