Água sem fronteiras: por que o setor empresarial precisa pensar por bacias, não por muros

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*Por Mônica Gregori

Há poucos dias, durante a SP Climate Week, reunimos em uma roundtable representantes de empresas de diferentes setores, com foco em energia, saneamento, bebidas, consumo, infraestrutura, para discutir um problema que já não cabe mais dentro dos limites de uma única operação, a segurança hídrica do Brasil.

O diagnóstico que trouxemos para a mesa era técnico, mas a conversa revelou algo mais profundo. Empresas de perfis muito distintos, com níveis de consumo de água completamente diferentes, chegaram à mesma conclusão: a gestão hídrica corporativa, mesmo quando avançada, segue fragmentada. Cada empresa cuida do seu próprio quintal, mas a água não respeita muros.

O Brasil concentra 12% da água doce do planeta, mas ainda tem mais de 30 milhões de pessoas sem acesso a água potável. Projeções da Agência Nacional de Águas indicam redução de até 40% na disponibilidade hídrica nas próximas duas décadas. Isso não é um problema distante: já aparece em balanços, em interrupções de fornecimento e em barragens redimensionadas às pressas depois de cheias que superam qualquer projeto de engenharia. Uma usina específica, que foi citada na roundtable, teve sua vazão de projeto praticamente dobrada por eventos extremos recentes, não uma, mas três vezes acima do esperado em um único ano.

O que ficou claro no encontro é que ações isoladas, por mais robustas que sejam, têm efeito limitado quando os demais usuários de uma mesma bacia não seguem o mesmo caminho. Embora empresas invistam pesado em replenishment (reposição hídrica) e eficiência hídrica, os desafios aumentam se a bacia inteira seguir sem coordenação, sem cobrança pelo uso da água e sem capacidade técnica nos comitês que deveriam gerir esse recurso coletivamente.

Por isso, a mesa caminhou para a seguinte conclusão: é preciso migrar de uma lógica operacional, o que cada empresa faz dentro do seu perímetro, para uma lógica territorial, organizada por bacia hidrográfica. Isso significa criar estruturas de coordenação entre empresas de uma mesma região para responder juntas a eventos climáticos extremos, compartilhar dados sobre bacias críticas e construir, de forma coletiva, os investimentos que nenhuma empresa sozinha consegue sustentar.

Não há consenso sobretudo. Neste roundtable, ficou evidente a tensão entre quem aposta em modelos de gestão privada para destravar investimento e quem defende o fortalecimento da governança pública dos comitês de bacia. Ficou evidente também que, em algumas regiões do país, o problema não é tecnológico, mas de planejamento territorial, ou seja, não existe solução de engenharia para a ausência física de água. Essas divergências não enfraquecem o diagnóstico; pelo contrário, elas mostram que o desafio é complexo demais para caber em uma única resposta.

O que a roundtable deixou como tarefa para o setor empresarial brasileiro é justamente construir essa resposta plural. Foi assinada uma carta-manifesto com recomendações concretas, organizada nos três eixos da próxima Conferência da Água da ONU (pessoas, planeta e prosperidade), a ser entregue em Abu Dhabi, em dezembro. O caminho até lá passa por rodadas regionais, coleta de casos reais de atuação, além dos muros das operações e o aprofundamento de propostas em regulação, financiamento, tecnologia e governança.

A água não vai esperar o setor empresarial se organizar. Por isso, o convite que fazemos agora é direto. Que mais empresas se juntem ao Movimento +Água, iniciativa do Pacto Global da ONU – Rede Brasil, e, assim, tragam seus dados de bacias críticas e ajudem a construir, nas próximas rodadas regionais, as recomendações que o Brasil vai levar para o mundo.

*Mônica Gregori é Diretora de Impacto e Comunicação do Pacto Global da ONU – Rede Brasil

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