Quem ousa questionar a Selic?
Por AILTON VENDRAMINI *
Na administração pública, quando alguém apresenta uma ideia inovadora, frequentemente escuta: “Existe alguma outra instituição fazendo isso?”. A pergunta parece prudente, mas contém uma armadilha: se todos esperassem pelo exemplo dos outros, quem seria o primeiro?
Lembrei-me dessa situação ao acompanhar as decisões do Banco Central sobre a taxa Selic. A cada reunião, o Comitê de Política Monetária (Copom) examina cenários econômicos e estabelece juros que influenciam o crédito, o emprego, os investimentos, a dívida pública e o crescimento do país.
Certamente, o Banco Central dispõe de economistas competentes e modelos sofisticados. Entretanto, suas atas apresentam reiteradamente um conjunto relativamente restrito de grandes temas: inflação, expectativas, atividade econômica, situação fiscal e cenário internacional.
Seriam suficientes para compreender toda a complexidade da economia brasileira?
Existe uma questão ainda mais intrigante: a chamada taxa neutra de juros.
Trata-se da taxa de juros real que, teoricamente, mantém a economia crescendo próxima de seu potencial, sem estimular nem restringir excessivamente a atividade econômica e sem provocar pressões persistentes sobre a inflação.
O problema é que ninguém consegue observar diretamente essa taxa. Ela precisa ser estimada por modelos matemáticos, sujeitos a hipóteses, incertezas e erros.
Se a taxa neutra for estimada acima de seu verdadeiro valor, o Banco Central poderá interpretar como necessária uma política monetária mais restritiva do que a economia efetivamente exige. Se for subestimada, poderá ocorrer o contrário.
Uma diferença aparentemente pequena nessa estimativa pode representar bilhões de reais em custos financeiros, além de consequências relevantes para o investimento, o emprego e a produção.
Portanto, não estamos discutindo apenas se a Selic deveria subir ou cair alguns décimos percentuais. Estamos questionando a robustez científica dos modelos que ajudam a determinar a intensidade da política monetária.
E um acontecimento recente sugere que podemos ampliar extraordinariamente nossa capacidade de investigação.
Em setembro de 2026, a OpenAI, empresa liderada por Sam Altman, anunciou uma possível solução para um dos célebres Problemas do Milênio da matemática: a questão da existência e suavidade das equações de Navier–Stokes, relacionadas ao movimento dos fluidos e investigadas há aproximadamente 90 anos.
O mais impressionante foi o método utilizado: segundo a empresa, cerca de 10 mil agentes de inteligência artificial trabalharam simultaneamente, explorando diferentes caminhos matemáticos, confrontando hipóteses e compartilhando descobertas. Uma solução teria sido encontrada em aproximadamente 88 horas, posteriormente formalizada com auxílio do sistema Lean.
A demonstração ainda exige o escrutínio independente da comunidade matemática. Mas o episódio revela o potencial de uma nova maneira de organizar a investigação científica.
E aqui surge minha provocação: se milhares de agentes podem colaborar na investigação de um problema matemático dessa magnitude, por que não utilizar sistemas semelhantes para examinar as estimativas da taxa neutra e as decisões sobre os juros brasileiros?
Não proponho substituir os diretores do Banco Central por computadores, tampouco interferir em sua autonomia.
Proponho algo mais simples: após a divulgação de cada ata do Copom, universidades brasileiras poderiam realizar avaliações científicas independentes, utilizando modelos econométricos próprios e sistemas multiagentes de inteligência artificial.
Algumas poderiam concordar com a decisão. Outras poderiam demonstrar que diferentes estimativas da taxa neutra conduziriam a trajetórias alternativas da Selic.
Um grupo investigaria inflação e expectativas. Outro examinaria produtividade, crédito e crescimento potencial. Um terceiro estudaria a interação entre juros, dívida pública e política fiscal. Outros agentes teriam a missão de contestar as hipóteses dos primeiros.
As divergências seriam públicas, acompanhadas de simulações, intervalos de incerteza e projeções verificáveis.
Com o passar do tempo, as previsões seriam confrontadas com os resultados observados. Isso não provaria automaticamente qual trajetória alternativa teria sido melhor, mas permitiria avaliar a qualidade dos modelos e aperfeiçoar continuamente as análises.
Experiências internacionais já demonstram a utilidade da avaliação externa da política monetária. O Banco Central da República Tcheca, por exemplo, submeteu sua estrutura de modelos à análise de especialistas independentes.
O Brasil poderia avançar, criando um observatório acadêmico permanente, plural e independente, apoiado por ferramentas avançadas de inteligência artificial.
Afinal, nenhuma instituição detém o monopólio do conhecimento. E modelos econômicos, diferentemente dos teoremas matemáticos, precisam enfrentar continuamente o teste da realidade.
A independência do Banco Central é uma conquista institucional importante. Mas independência não significa imunidade à contestação científica.
Talvez alguém pergunte: “Existe algum outro país fazendo exatamente isso?”.
Minha resposta seria outra pergunta:
Se a inteligência artificial está transformando as fronteiras da ciência, por que o Brasil deveria esperar que outro país fosse o primeiro?
* AILTON VENDRAMINI, Engenheiro eletrotécnico com 40+ anos no setor privado (ABB, VA TECH, Schneider, Veccon etc.), liderando contratos e grandes projetos. Experiência executiva no Brasil e exterior. Hoje, Diretor de Dados & Estatística e DPO de Hortolândia, à frente de LGPD e projetos de dados/IA. Articulista e consultor; MBA USP, pós-graduações FGV e especialização em Big Data.
