Inteligência Artificial: o desafio de permanecermos plenamente humanos

* Flávio Pinheiro
“O grande desafio do homem contemporâneo será permanecer plenamente humano em uma época em que as máquinas são capazes de imitar muitas de suas capacidades” (Papa Leão XIV, Magnífica Humanitas).
A tecnologia avança em um ritmo cada vez mais acelerado e nos oferece recursos inimagináveis, capazes de facilitar a nossa vida, transformar comportamentos e influenciar profundamente a sociedade. No entanto, esse mesmo avanço pode, em alguns aspectos, nos afastar daquilo que nos torna verdadeiramente humanos.
No mundo da tecnologia, a palavra preponderante é IA, ou seja, Inteligência Artificial. O próprio nome nos lembra que se trata de uma inteligência criada pelo ser humano. Ela não é natural nem possui consciência, mas é capaz de reproduzir muitas capacidades humanas. Quando utilizada sem discernimento, pode ocupar espaços importantes da nossa vida e enfraquecer dons que Deus concedeu ao ser humano, como a criatividade, a espontaneidade, a sensibilidade e a autenticidade.
Por isso, o tema foi abordado pelo Papa Leão XIV em sua primeira encíclica, Magnífica Humanitas. O objetivo do Santo Padre é alertar a humanidade para os riscos e desafios que acompanham uma revolução tecnológica dessa magnitude. Toda grande transformação produz benefícios, mas também consequências que exigem reflexão e responsabilidade. A Igreja, como mãe e mestra, tem o dever de orientar não apenas os católicos, mas toda a humanidade, oferecendo princípios que ajudem a construir uma sociedade mais justa, fraterna e verdadeiramente humana.
Existem muitos interesses envolvidos nos bastidores das grandes empresas que disputam a liderança no mercado tecnológico. Vivemos na era da informação, e quem sair na frente terá grandes chances de estabelecer seus modelos de Inteligência Artificial e exercer enorme influência sobre a economia, a cultura e até mesmo sobre as decisões que moldarão o futuro da humanidade.
A luta pelo poder não é novidade. Ao longo da história, povos, nações, empresas e até pessoas disputaram influência e domínio. Infelizmente, nessa disputa, continua sendo verdadeiro o antigo ditado: “A corda sempre arrebenta para o lado do mais fraco.” São justamente os mais vulneráveis que acabam sofrendo as consequências da ambição humana, como a exclusão, pobreza, fome, desigualdade e tantas outras formas de sofrimento.
Existe também o risco de que a Inteligência Artificial ocupe espaços que deveriam continuar sendo iluminados pela inteligência, pela consciência e pela responsabilidade humanas. Em um mundo que já convive com tantos sinais de artificialidade, poderá tornar-se cada vez mais difícil encontrar autenticidade, naturalidade e originalidade.
Diante desse cenário, qual deve ser o posicionamento do cristão? Não podemos demonizar aquilo que Deus permite ao homem desenvolver por meio da inteligência que Ele próprio concedeu. Ao mesmo tempo, somos chamados a utilizar toda tecnologia com sabedoria, responsabilidade e sempre orientados pelos valores fundamentais da dignidade da pessoa humana, da justiça e do amor.
O Papa Leão XIV nos aponta esse caminho em sua encíclica Magnífica Humanitas, deixando claro que o grande desafio do homem contemporâneo será permanecer plenamente humano em uma época em que as máquinas conseguem imitar muitas de suas capacidades.
O desejo de Deus é que seus filhos e filhas utilizem a Inteligência Artificial e todas as demais tecnologias para promover a vida, aliviar o sofrimento e devolver dignidade às pessoas, criadas à sua imagem e semelhança. Nunca para que as máquinas dominem o ser humano ou o levem a esquecer sua própria humanidade.
Que a Inteligência Artificial seja utilizada para acelerar a descoberta de vacinas e tratamentos para doenças ainda sem cura, e não para aperfeiçoar armas de guerra ou ampliar a destruição entre os povos. Que ela seja uma ferramenta para ampliar o acesso à educação, levando conhecimento às crianças, aos jovens e aos adultos que ainda não tiveram a oportunidade de aprender a ler e a escrever. Que seja colocada a serviço da medicina, da justiça, da paz e da solidariedade.
Enfim, que essa tecnologia jamais nos roube a esperança de construir um mundo novo. Um mundo mais justo, fraterno e humano, que precisa ser edificado por cada um de nós, todos os dias.
“Tudo o que fizerdes, fazei de coração, como para o Senhor e não para os homens.” (Colossenses 3,23)
* Flávio Pinheiro Costa é missionário da Comunidade Canção Nova, analista de sistemas e atua no setor de Tecnologia e Inovação da Associação Internacional Privada de Fiéis (AIPF)
Instagram: @flaviopinheirocn