O medo do desemprego por IA ainda não se confirmou nas pequenas empresas

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Por AILTON VENDRAMINI *

Pesquisa do Sebrae mostra forte avanço da inteligência artificial entre pequenos negócios brasileiros, mas o impacto sobre o número de empregos ainda é reduzido. A transformação aparece primeiro nas tarefas, nos processos e no perfil profissional exigido.

Durante os últimos anos, uma das previsões mais repetidas sobre a inteligência artificial foi a de que máquinas cada vez mais capazes eliminariam rapidamente milhões de empregos. Os primeiros dados dos pequenos negócios brasileiros, porém, mostram um cenário bem mais complexo.

Pesquisa do Sebrae, realizada com 7.182 empreendedores entre março e maio deste ano, revela que 52% dos pequenos negócios brasileiros já utilizam inteligência artificial. O número chama ainda mais atenção quando comparado aos Estados Unidos, onde levantamento semelhante aponta utilização por cerca de 21% das empresas.

A tendência também é de crescimento. Entre microempreendedores individuais, microempresas e empresas de pequeno porte, 60% pretendem começar a utilizar ou ampliar o uso da IA nos próximos seis meses.

Mas o dado mais importante talvez esteja em outro lugar: no emprego.

Entre os pequenos negócios brasileiros que utilizam inteligência artificial, 90% não reduziram o número de funcionários por causa da tecnologia. Apenas 5% diminuíram postos de trabalho, enquanto 3% chegaram a contratar mais pessoas em consequência da adoção da IA.

Portanto, pelo menos até agora, a tão anunciada substituição generalizada do trabalhador pela máquina não aconteceu.

Isso não significa que a inteligência artificial seja incapaz de eliminar empregos. Significa apenas que seu primeiro impacto parece estar acontecendo em outro nível: a IA está substituindo tarefas antes de substituir trabalhadores.

Atividades repetitivas, burocráticas ou baseadas em processamento de informações estão sendo automatizadas. Marketing, atendimento ao cliente, elaboração de contratos, controle de estoques, análise de despesas, produção de textos e planejamento são alguns dos exemplos apontados pelos próprios empresários.

O resultado é uma mudança no conteúdo do trabalho.

Em vez de gastar horas organizando informações, redigindo documentos simples ou realizando tarefas administrativas, o trabalhador passa a dedicar mais tempo à interpretação dos resultados, à tomada de decisões, ao relacionamento com clientes e às atividades que exigem julgamento humano.

O presidente do Sebrae, Rodrigo Soares, resume bem essa transformação ao afirmar que a tendência é a mudança do perfil das vagas, e não uma eliminação em massa de postos de trabalho. A demanda deverá crescer por profissionais capazes de combinar conhecimento operacional, domínio de ferramentas digitais, análise crítica e relacionamento pessoal.

O debate também está presente entre os grandes economistas internacionais.

Daron Acemoglu, professor do MIT e um dos vencedores do Prêmio Nobel de Economia de 2024, é hoje uma das principais referências mundiais no estudo das relações entre tecnologia, automação e trabalho.

É importante lembrar que Acemoglu recebeu o Nobel, juntamente com Simon Johnson e James Robinson, por suas pesquisas sobre instituições e prosperidade econômica, e não especificamente por seus estudos sobre inteligência artificial.

Mesmo assim, suas pesquisas recentes ajudam bastante a entender o momento atual.

Acemoglu é muito mais cauteloso do que parte da indústria tecnológica em relação aos ganhos econômicos proporcionados pela IA. Seus estudos apontam que o impacto sobre a produtividade pode ser positivo, mas inicialmente bem menor do que algumas previsões otimistas sugerem.

Mais importante, porém, é a distinção que ele faz entre dois possíveis caminhos.

A inteligência artificial pode ser desenvolvida simplesmente para automatizar tarefas e substituir trabalhadores. Ou pode ser utilizada para ampliar a capacidade humana, oferecendo informação, análise e apoio para que as pessoas trabalhem melhor.

Os dados do Sebrae sugerem que, pelo menos entre os pequenos negócios brasileiros, essa segunda utilização está ganhando espaço.

Há outro indicador revelador: 46% das empresas brasileiras que passaram a utilizar IA tiveram de criar novos fluxos de trabalho.

Ou seja, a mudança já está acontecendo dentro das empresas, ainda que não apareça na mesma proporção nas estatísticas de emprego.

Talvez, portanto, estejamos fazendo a pergunta errada.

Em vez de perguntar quantos empregos a inteligência artificial já eliminou, deveríamos perguntar quantas tarefas dentro de cada emprego ela já modificou.

Provavelmente encontraríamos uma transformação muito maior.

O risco de substituição continuará existindo, principalmente nas atividades altamente repetitivas e previsíveis. Mas o cenário atual das pequenas empresas brasileiras está longe de confirmar a ideia de uma destruição generalizada de empregos.

Por enquanto, a inteligência artificial parece estar fazendo outra coisa: ajudando pessoas e pequenas empresas a produzirem mais com os mesmos recursos.

A primeira grande revolução da IA talvez não seja o desaparecimento do emprego, mas a transformação do próprio trabalho.

* AILTON VENDRAMINI, Engenheiro eletrotécnico com 40+ anos no setor privado (ABB, VA TECH, Schneider, Veccon etc.), liderando contratos e grandes projetos. Experiência executiva no Brasil e exterior. Hoje, Diretor de Dados & Estatística e DPO de Hortolândia, à frente de LGPD e projetos de dados/IA. Articulista e consultor; MBA USP, pós-graduações FGV e especialização em Big Data.

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