Histórias de Conexão
“Tudo são pessoas”: o que o queijo pode nos ensinar sobre empreendedorismo e conexões
Por Carla Falcão
“Tudo são pessoas. A gente brinca que o queijo é o meio por onde a gente evolui como ser humano.”
Ouvi essa frase durante uma conversa com Élvio Rocha, fundador do Queijólatra, e ela ficou comigo. Talvez porque, embora estivéssemos falando sobre queijo, pequenos produtores, produtos artesanais e empreendedorismo, percebi que aquela história era, na verdade, sobre pessoas.
E começou com uma delas: uma mãe. Em 2006, Élvio era um jovem mineiro que havia se mudado para São Paulo para estudar Física Médica na PUC. Um dia, com o dinheiro acabando, ligou para a mãe pedindo ajuda. Dinheiro ela não tinha. Mas tinha queijos.
Mandaria os produtos para São Paulo e ele poderia vendê-los para conseguir algum dinheiro. Foi assim que tudo começou.
Primeiro vieram os amigos da faculdade. Depois, empresas, grêmios, bazares e feiras internas. O que nasceu de uma necessidade foi se transformando em negócio.
Anos mais tarde, a pandemia colocaria essa trajetória à prova. A empresa precisou mudar completamente seu modelo de atuação. Em determinado momento, restaram apenas Élvio e Priscila, sua esposa, sócia e figura fundamental nessa história.
Até que algo aparentemente simples aconteceu: um vídeo apresentando e cortando um queijo viralizou. Durante cerca de 14 dias, os pedidos não pararam. Élvio conta que chegou a dormir apenas duas ou três horas por noite para conseguir preparar tudo. Era mais uma virada.
O antigo Trem Bom de Minas, que havia nascido ainda nos tempos da faculdade, também evoluiu. À medida que passaram a trabalhar com queijos mais singulares e produtos de diferentes regiões, perceberam que o nome já não representava tudo aquilo que estavam construindo.
Nascia o Queijólatra.
As mãos do outro lado
Desde 2015, Élvio percorre o Brasil conhecendo pequenos produtores e acompanhando de perto o universo do queijo artesanal. Hoje, sua curadoria reúne produtos de dez estados brasileiros, da Ilha do Marajó ao Rio Grande do Sul.
Foi por meio desse universo que conheci também Tony, da Mais Charcutaria, um dos produtores que fazem parte dessa rede.
Sua história começou de maneira igualmente simples.
Tony queria comer uma sardela bem-feita. Como não encontrava facilmente o sabor que procurava, começou a pesquisar receitas italianas tradicionais e fazer suas próprias experiências.
Levava a sardela para churrascos e encontros. Os amigos experimentavam, gostavam e pediam novamente. Até que aquilo precisou virar produto.
Tony estudou, fez cursos de charcutaria e decidiu empreender. Hoje, a empresa é familiar e ele reconhece que o apoio da família e dos amigos foi decisivo para transformar uma experiência entre pessoas próximas em um negócio.
Há um detalhe que traduz muito do artesanal: eles próprios preparam a sardinha utilizada na sardela, em um processo de cura que leva três meses. O tempo também é ingrediente.
Uma cadeia feita de pessoas
Em outro momento da conversa ouvi uma frase que parece completar a primeira:
“Gente boa faz coisa boa.”
Porque um produto artesanal começa muito antes da embalagem. Existe o território, a matéria-prima, o conhecimento, o tempo e, principalmente, as mãos de quem produz.
Quando conhecemos essas histórias, deixamos de enxergar apenas um queijo, uma sardela ou uma marca. Passamos a enxergar alguém.
E foi então que percebi a cadeia de conexões existente por trás dessas duas histórias.
- Uma mãe mandou queijos para o filho e ajudou, sem imaginar, a plantar a semente de um negócio.
- Amigos experimentaram a sardela de Tony e incentivaram aquilo que viria a se transformar em uma empresa.
- Uma esposa esteve ao lado do marido em um dos momentos mais difíceis do negócio e participou de sua transformação.
- Pequenos produtores encontraram uma curadoria capaz de levar seus produtos a novos consumidores.
É uma cadeia de negócios, sem dúvida.
Mas, antes disso, é uma cadeia de relações humanas.
Talvez seja justamente por isso que a frase de Élvio tenha ficado comigo:
“Tudo São Pessoas.”
Produtos conectam pessoas. Pessoas abrem portas para outras pessoas. E algumas das melhores histórias de empreendedorismo começam exatamente assim: quando alguém encontra alguém.
É isso que quero descobrir e contar em Histórias de Conexão.
Porque toda empresa tem uma história. E, por trás de muitas delas, existem encontros que ajudaram a torná-las possíveis.
Cárla Falcão
Fundadora da Falcão Mentoring | Mentora de Negócios no LinkedIn | Conexões Estratégicas e Presença Comercial
📱 (19) 98178-7302
🌐 www.falcaomentoring.com.br



