A cidade que os números ainda não mostram

Por AILTON VENDRAMINI *
O IBGE informa que determinado município possui milhares de jovens que não estudam nem trabalham. O número chama a atenção, mas, sozinho, explica muito pouco.
Quem são esses jovens? Onde vivem? Por que deixaram a escola? Procuram emprego? Cuidam de filhos, idosos ou familiares doentes? Enfrentam problemas de saúde, deficiência, falta de transporte ou simplesmente a ausência de oportunidades?
Uma estatística municipal revela a dimensão do problema. Para orientar uma política pública, porém, é necessário descobrir onde ele se concentra, com quais outras vulnerabilidades se combinam e quais serviços poderiam alterar essa realidade.
As cidades não são máquinas previsíveis. Parecem-se mais com organismos vivos: mudam, reagem, aprendem e, muitas vezes, surpreendem. Em cada bairro, jardim, vila ou parque, milhares de decisões acontecem simultaneamente. Pessoas trabalham, adoecem, mudam de endereço, têm filhos, envelhecem, constroem redes de apoio e procuram serviços públicos. Esses movimentos formam padrões que nem sempre aparecem nas médias municipais.
Dados sobre renda, escolaridade, saúde, moradia e composição familiar adquirem outro significado quando observados no território. Uma família em dificuldade representa uma necessidade individual. Centenas de famílias com dificuldades semelhantes, concentradas numa mesma região, revelam um problema estrutural. Nesse momento, a política pública precisa mudar de escala. Não basta atender os casos separadamente. É necessário compreender o território, sua infraestrutura, seus serviços, suas redes de apoio e suas carências acumuladas.
Essa forma de observar a cidade aproxima a gestão pública da chamada ciência da complexidade.
Ilya Prigogine demonstrou que sistemas vivos e sociais não permanecem em equilíbrio permanente. Eles atravessam instabilidades, reorganizações e transformações.
Luís Bettencourt, pesquisador da ciência das cidades, mostra que muitos fenômenos urbanos surgem das interações entre pessoas, instituições, infraestrutura e espaço.
A cidade, portanto, não é apenas um conjunto de ruas, edifícios e limites administrativos. Ela é uma rede de relações.
Uma ação na Educação pode produzir efeitos na Saúde. Uma melhoria habitacional pode reduzir demandas da Assistência Social. Mobilidade, meio ambiente, segurança e desenvolvimento econômico influenciam simultaneamente a qualidade de vida de um território.
Governar bem não é apenas melhorar o desempenho de cada secretaria isoladamente. É compreender e coordenar as interações entre elas.
Uma gestão orientada por inteligência territorial deve identificar onde a vulnerabilidade cresce, onde permanece estável e onde começa a diminuir.
Pode perceber, por exemplo, quando perda de renda, abandono escolar, doença, insegurança alimentar e violência começam a aparecer simultaneamente numa mesma região.
O objetivo não é controlar completamente a cidade. Isso seria impossível.
O caos também faz parte da vida social. Pessoas e comunidades reagem de formas diferentes às mesmas políticas. A realidade será sempre mais rica e imprevisível do que qualquer banco de dados. Por isso, o princípio deve ser claro:- ordem nos dados, abertura diante da realidade. A tecnologia deve apoiar decisões, e não substituir o julgamento humano. Deve combinar análise de dados, conhecimento dos servidores e escuta da população. Seu maior valor estará na capacidade de promover aprendizagem institucional.
O município identifica um problema, escolhe um território, realiza uma intervenção, acompanha seus efeitos e corrige o caminho. Assim, cada política pública também se transforma em fonte de conhecimento. Os dados deixam de ser apenas instrumentos de diagnóstico e passam a compor um sistema municipal de inteligência territorial.
O verdadeiro legado não será eliminar a complexidade da cidade, mas compreendê-la melhor para proteger as pessoas que mais precisam
* AILTON VENDRAMINI, Engenheiro eletrotécnico com 40+ anos no setor privado (ABB, VA TECH, Schneider, Veccon etc.), liderando contratos e grandes projetos. Experiência executiva no Brasil e exterior. Hoje, Diretor de Dados & Estatística e DPO de Hortolândia, à frente de LGPD e projetos de dados/IA. Articulista e consultor; MBA USP, pós-graduações FGV e especialização em Big Data.