Quase 4 em cada 10 adolescentes já sofreram bullying: como identificar quando a “brincadeira” passou do limite
Psicopedagogo explica como família e escola devem agir
“Era só uma brincadeira”. Essa frase comum pode esconder problemas mais sérios. Apelidos, xingamentos e situações de exclusão, em muitos casos, ainda são tratados como “zoeira”, mesmo quando provocam sofrimento e se tornam rotineiros para quem é alvo dessas atitudes. Um levantamento recente do IBGE mostra que 39,8% dos estudantes brasileiros entre 13 e 17 anos já sofreram bullying na escola, o que representa quase quatro em cada dez adolescentes.
Para André Domingues, Orientador Educacional do Colégio Objetivo Cambuí, o desafio para pais e educadores diante desse cenário alarmante está em reconhecer quando uma interação deixa de ser brincadeira e passa a ser uma forma de violência, já que nem sempre quem sofre bullying procura ajuda. A vergonha e o medo de retaliação podem fazer com que crianças e adolescentes permaneçam em silêncio.
“Quando uma agressão verbal é tratada como brincadeira, cria-se espaço para que ela continue acontecendo. Existe uma diferença entre uma brincadeira compartilhada, em que todos se sentem confortáveis, e uma situação em que alguém é humilhado, excluído ou sofre repetidamente”, explica.
É por isso que ter atenção, principalmente, às alterações de comportamento, é tão importante para identificar uma situação de bullying. Alguns sinais podem estar relacionados à resistência ou ansiedade para ir à escola, queda no rendimento, perda de interesse por atividades, irritabilidade e isolamento.
“Os sinais são sutis. Uma mudança de comportamento, isoladamente, não significa que exista bullying, mas, quando ela persiste e foge do padrão daquela criança ou adolescente, merece atenção”, orienta André.
A violência também continua fora da escola
Outra face desse problema é o cyberbullying. Em uma sociedade cada vez mais conectada, as interações digitais podem prolongar situações de exposição e humilhação para além do ambiente escolar. E, muitas vezes, o espaço digital apresenta mais barreiras na identificação e intervenção dos pais e educadores.
Nesse contexto, o comportamento diante do celular pode trazer pistas. Mas, para o psicopedagogo, o acompanhamento não deve se resumir ao controle do acesso. Mais importante do que simplesmente monitorar, é construir uma relação em que o adolescente se sinta seguro para contar o que está acontecendo. Se ele acredita que será imediatamente julgado, punido ou terá o celular retirado, pode preferir esconder o problema.
Quando a vítima pede ajuda, o que fazer?
Quando a criança, pré-adolescente ou adolescente decide falar, a resposta do adulto pode fazer toda a diferença. “Contar que está sofrendo bullying não é fácil. Então, antes de pensar no que fazer com o agressor ou em como resolver a situação, é preciso acolher quem está pedindo ajuda. Ouvir, validar o sentimento e mostrar que aquela pessoa não precisa enfrentar aquilo sozinha são atitudes fundamentais e devem ser feitas tanto pela escola quanto pela família”, destaca André.
A partir daí, família e escola devem buscar entender o que ocorreu, conversar com os envolvidos e adotar as medidas necessárias para interromper as agressões imediatamente. É importante que as escolas disponibilizem canais seguros de escuta, como espaços de atendimento e caixas de sugestões, para que os alunos saibam onde e como relatar situações de bullying e outros comportamentos que considerem inadequados.
Outro ponto importante é que a escola tenha protocolos bem definidos para situações de indisciplina e bullying. Estabelecer previamente como cada ocorrência deve ser acolhida, investigada e encaminhada traz mais segurança para os estudantes, as famílias e a própria equipe escolar, além de contribuir para que as situações sejam tratadas de maneira adequada e consistente.
A criação de um ambiente que estimule a escuta, por meio de rodas de conversa, palestras e atividades de conscientização, ajudam os estudantes a reconhecer as formas de violência e refletir sobre seus próprios comportamentos. Ao mesmo tempo, a família deve contribuir criando momentos de diálogo, estabelecendo vínculos de confiança e acompanhando de perto as mudanças na vida dos filhos.
“A prevenção acontece nas relações. Quando a criança sabe que pode conversar com os pais e que a escola é um ambiente seguro para pedir ajuda, fica mais fácil romper o silêncio. O respeito precisa fazer parte da convivência diária, e não aparecer apenas quando um problema acontece”, conclui o especialista.