AILTON

Por AILTON VENDRAMINI *

No aniversário de Sumaré, é natural olhar para as obras realizadas, para os desafios ainda presentes e para os sonhos que continuam mobilizando a cidade. Mas talvez exista uma pergunta anterior a todas essas: de onde nasce a capacidade de uma comunidade para avançar?

A história mostra que não importa apenas de onde alguém vem, mas o quanto está disposto a caminhar. Os irmãos André e Antônio Rebouças são exemplos extraordinários dessa determinação. Negros, filhos de uma mulher escravizada e alforriada, tornaram-se dois dos engenheiros mais importantes do Brasil no século XIX, quando o país ainda vivia sob o regime escravocrata.

Eles encontraram barreiras que pareciam intransponíveis. Ainda assim, estudaram, viajaram, aperfeiçoaram seus conhecimentos e participaram de projetos decisivos para a infraestrutura brasileira. Estradas, ferrovias, portos, abastecimento de água e propostas de preservação ambiental nasceram de sua competência e de sua visão de futuro.

E aqui não há coincidência: essa história passa por dentro de Sumaré. Antes de receber o nome de uma orquídea nativa da região — escolhido em plebiscito, em 1945, porque a legislação impedia dois municípios homônimos e já existia uma Rebouças no Paraná —, o povoado nascido em torno da capela de Nossa Senhora de Sant’Ana, inaugurada em 26 de julho de 1868, chamava-se justamente Rebouças, em homenagem ao engenheiro dessa mesma família que chefiou a construção da ferrovia que ainda hoje cruza estas terras. A cidade que faz aniversário neste domingo não apenas se parece com a história dos Rebouças. Ela nasceu dela.

Talvez a maior obra dos irmãos Rebouças não tenha sido apenas aquilo que construíram. Foi também o caminho que abriram para aqueles que viriam depois.

O desenvolvimento funciona assim. Quando hoje uma cidade anuncia grandes projetos, mobiliza tecnologia, enfrenta problemas sociais complexos ou sonha em remover montanhas, isso acontece porque, no passado, alguém retirou as primeiras pedras do caminho.

Sumaré também foi construída dessa maneira. Cada geração recebeu uma cidade incompleta e acrescentou alguma coisa: uma rua, uma escola, uma unidade de saúde, uma empresa, um serviço público, uma ideia ou uma esperança.

Nenhuma cidade nasce pronta. As fortes são resultado de uma corrida de revezamento: cada geração recebe um bastão, percorre uma parte do caminho e o entrega para a seguinte.

O matemático John Nash mostrou algo que vale a pena levar a sério: quando cada participante decide olhando apenas para o próprio interesse, o conjunto pode se acomodar num resultado pior para todos — e ninguém consegue melhorar sozinho, mudando apenas a própria escolha. Essa ideia, conhecida como equilíbrio de Nash, ultrapassou a matemática e passou a influenciar a economia, a política e a compreensão das relações humanas.

Ela também pode nos ajudar a pensar as cidades.

Sumaré não existe isoladamente. Suas decisões influenciam Hortolândia, Nova Odessa, Paulínia, Americana, Campinas e toda a Região Metropolitana. Da mesma forma, o que acontece nesses municípios produz efeitos sobre Sumaré.

Empregos atravessam fronteiras. Trabalhadores moram em uma cidade e produzem em outra. O trânsito, a saúde, o meio ambiente, a segurança e o desenvolvimento econômico já não cabem dentro dos limites de um único município.

Por isso, cada cidade precisa oferecer o melhor de si. Mas o verdadeiro avanço regional começa quando esse esforço considera também o desenvolvimento dos vizinhos. Não se trata de uma cidade perder para que outra ganhe: o melhor resultado é aquele em que todas encontram espaço para crescer, cooperar e compartilhar soluções — exatamente o que a lição de Nash sugere quando as escolhas de cada um levam em conta as escolhas dos demais.

Os irmãos Rebouças compreenderam isso antes de todos nós: uma estrada ou uma ferrovia não liga apenas dois pontos. Ela cria novas possibilidades econômicas e humanas em todo o território ao redor.

Esse ensinamento permanece atual.

Ao completar 158 anos neste domingo, Sumaré celebra sua história — e assume novamente o bastão que carrega no próprio nome de batismo. Cabe à geração atual decidir quais pedras serão retiradas do caminho e quais pontes serão deixadas para o futuro.

Quando cada município busca o seu melhor e compreende sua responsabilidade com a região, todos ganham.

Somente assim Sumaré poderá comemorar não apenas mais um aniversário, mas muitas outras dezenas deles — sempre maior, mais humana e mais integrada ao destino de toda a região.

* AILTON VENDRAMINI, Engenheiro eletrotécnico com 40+ anos no setor privado (ABB, VA TECH, Schneider, Veccon etc.), liderando contratos e grandes projetos. Experiência executiva no Brasil e exterior. Hoje, Diretor de Dados & Estatística e DPO de Hortolândia, à frente de LGPD e projetos de dados/IA. Articulista e consultor; MBA USP, pós-graduações FGV e especialização em Big Data.

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