Eu sou de esquerda, Eu sou de direita, Ou estamos fazendo a pergunta errada
O que a história política da América Latina e os números de Brasil e Uruguai revelam sobre desenvolvimento desigualdade e continuidade das políticas públicas
Por AILTON VENDRAMINI *
1 Eu sou de esquerda
Nas últimas décadas, a América Latina viveu uma sucessão de governos de esquerda que prometeram reduzir a pobreza, combater a desigualdade e ampliar a presença do Estado na economia. Lula, no Brasil; os Kirchner, na Argentina; Hugo Chávez, na Venezuela; Evo Morales, na Bolívia; Rafael Correa, no Equador; e a Frente Ampla, no Uruguai, representaram interpretações distintas desse projeto.
Houve conquistas sociais relevantes. Nos anos 2000, a desigualdade de renda caiu em boa parte do continente. Transferências de renda, valorização salarial e ampliação da proteção social contribuíram para esse movimento, favorecido também pelo crescimento econômico e pela alta internacional das commodities. Ainda assim, os resultados políticos e econômicos foram muito diferentes.
Lula encerrou seus dois primeiros mandatos com elevada popularidade e elegeu sua sucessora. Dilma Rousseff enfrentou forte recessão e foi afastada por impeachment. Na Argentina, a recuperação inicial dos governos Kirchner foi seguida por desequilíbrios fiscais, cambiais e inflacionários. Na Venezuela, a expansão de programas sociais precedeu uma crise econômica, humanitária e institucional prolongada. Na Bolívia, Evo Morales deixou o poder em meio a grave crise política.
O Uruguai seguiu outro percurso: a Frente Ampla governou por quinze anos, ampliou políticas sociais e transmitiu democraticamente o poder à oposição. A esquerda latino-americana, portanto, não produziu uma trajetória única. Suas experiências combinaram avanços sociais, dificuldades econômicas e diferentes graus de respeito e resistência institucional.
2 Eu sou de direita
A direita também apresentou suas respostas: abertura econômica, privatizações, responsabilidade fiscal, controle da inflação e maior participação do setor privado. No Chile, reformas de mercado iniciadas durante a ditadura de Pinochet foram modificadas e complementadas pelos governos democráticos. O país teve períodos expressivos de crescimento, mas continuou enfrentando conflitos ligados à desigualdade e à proteção social.
Na Argentina, Carlos Menem promoveu privatizações e adotou a conversibilidade cambial. A medida ajudou a controlar a inflação no início, mas acumulou vulnerabilidades que contribuíram para a crise posterior. No Brasil, Fernando Henrique Cardoso consolidou a estabilização monetária do Plano Real, reduzindo a corrosão diária da renda pela inflação, embora seu governo também tenha enfrentado crises cambiais, desemprego elevado e baixo crescimento.
Mauricio Macri encerrou seu mandato argentino em recessão, com inflação alta e endividamento externo. Sebastián Piñera concluiu democraticamente dois mandatos no Chile, mas o segundo foi marcado por grandes manifestações sociais.
Assim como ocorreu à esquerda, os resultados da direita foram heterogêneos: houve avanços na estabilidade monetária e mudanças produtivas, porém persistiram pobreza, desigualdade e vulnerabilidade econômica.
Uma constatação atravessa as duas experiências: governos de esquerda e de direita enfrentaram crises, perderam eleições ou entregaram problemas importantes a seus sucessores. O rótulo ideológico, isoladamente, não explica o êxito nem o fracasso de um país.
3 Eu não sou nem de direita nem de esquerda
E se, por alguns instantes, deixássemos as preferências ideológicas de lado para examinar os números? A comparação entre Brasil e Uruguai nos últimos vinte anos oferece um ponto de partida.
O índice de Gini mede a concentração da renda: zero representa igualdade perfeita e 100, desigualdade máxima. Portanto, quanto menor o índice, menos concentrada é a renda. Em 2005, o Brasil registrava 56,3 pontos e o Uruguai, 44,7. Em 2024, os valores haviam recuado para 50,3 e 40,0, respectivamente. Ambos melhoraram, mas o Uruguai partiu de uma distribuição menos desigual e manteve a vantagem.
Brasil e Uruguai em números
| Indicador | Brasil | Uruguai |
| Índice de Gini em 2005 | 56,3 | 44,7 |
| Índice de Gini em 2024 | 50,3 | 40,0 |
| Crescimento real do PIB por habitante 2005 a 2025 | aprox. 32% | aprox. 74% |
Fonte: Banco Mundial, World Development Indicators. Crescimentos arredondados.
Entre 2005 e 2025, o PIB real por habitante cresceu aproximadamente 32% no Brasil e 74% no Uruguai. Esse indicador corresponde à produção econômica dividida pela população, com desconto da inflação. Não é sinônimo de salário, mas ajuda a acompanhar a evolução da produção por pessoa.
Brasil e Uruguai têm tamanhos populacionais, estruturas produtivas e histórias diferentes. Os números descrevem trajetórias, mas não provam que uma orientação política, sozinha, tenha causado os resultados. A questão mais interessante talvez esteja no comportamento das instituições uruguaias.
De 2005 a 2020, o Uruguai foi governado pela Frente Ampla, coalizão de esquerda. Em 2020, a centro-direita assumiu a Presidência e, cinco anos depois, a esquerda retornou ao poder. Houve divergências relevantes sobre tributação, legislação trabalhista, previdência, segurança e prioridades econômicas. Algumas políticas mudaram, outras foram preservadas e certas reformas provocaram intenso debate público.
Apesar das diferenças, as alternâncias ocorreram dentro das regras democráticas, sem ruptura da ordem constitucional. Instituições e mecanismos importantes de proteção social atravessaram as mudanças de governo. Isso não significa que esquerda e direita tenham se tornado iguais, mas que projetos distintos coexistiram com uma tradição institucional capaz de preservar compromissos sociais.
O Uruguai não está livre de desigualdade, conflitos ou limitações econômicas. Sua história inclui a ditadura de 1973 a 1985, lembrança de que instituições democráticas não são indestrutíveis. Ainda assim, em 2026, a Freedom House atribuiu ao país 97 pontos em 100 na avaliação de direitos políticos e liberdades civis.
Também seria precipitado atribuir o desempenho uruguaio exclusivamente à estabilidade institucional. Estrutura produtiva, investimentos, conjuntura internacional e políticas específicas influenciam os resultados. Mas a experiência do país levanta uma pergunta essencial: como preservar políticas públicas que funcionam quando o eleitor decide trocar o partido no poder?
Conclusão
A resposta talvez comece pela distinção entre projeto de governo e projeto de país. O primeiro tem prazo: nasce numa eleição e termina com o mandato. O segundo precisa atravessar governos, resistir às disputas eleitorais e ser aperfeiçoado ao longo do tempo.
A democracia não exige que esquerda e direita pensem da mesma forma. Exige que suas divergências sejam resolvidas sem destruir as instituições e sem interromper políticas públicas que demonstram resultados. Crescimento, inflação, renda, pobreza, desigualdade, educação e qualidade dos serviços públicos precisam ser acompanhados continuamente, acima das conveniências eleitorais. E, dados confiáveis demonstram evidências, a resto são opiniões.
Talvez a discussão mais importante não seja apenas quem governará pelos próximos quatro anos, mas quais compromissos nacionais continuarão existindo depois deles. De que adianta vencer a próxima eleição se, a cada mudança de governo, precisamos começar novamente a construir o futuro? Bom Voto.
* AILTON VENDRAMINI, Engenheiro eletrotécnico com 40+ anos no setor privado (ABB, VA TECH, Schneider, Veccon etc.), liderando contratos e grandes projetos. Experiência executiva no Brasil e exterior. Hoje, Diretor de Dados & Estatística e DPO de Hortolândia, à frente de LGPD e projetos de dados/IA. Articulista e consultor; MBA USP, pós-graduações FGV e especialização em Big Data.
