Associação dos Aposentados guarda tesouro de um artista que se apaixonou por Valinhos

No aniversário de Valinhos o destaque para um Sergipano de Aracaju, que retratou a Praça Brasil 500 anos, cartão postal da cidade

Na semana em que Valinhos completa 125 anos de Elevação à Categoria de Distrito de Paz, a história de um quadro oferecido ao saudoso Ovídio Vacari na Associação dos Aposentados e Pensionistas de Valinhos chama atenção. Ele foi pintado por Geraldo Vieira Bomfim, um ex-franciscano, natural de Sergipe – Aracajú, que na sua ordenação ganhou o nome de Frei Agnelo.

Durante sua existência de agosto de 1929 até o seu falecimento em 30 de janeiro de 2019, presenciou avanços tecnológicos, guerras e mudanças de governo. Ainda criança ingressou no Seminário Franciscano, foi professor de filosofia, de francês, falava cinco idiomas, era pintor, escultor e adorava a música, tocava piano, violão e violino. Como frei aprendeu a doar a vida para o próximo e por onde passou deixou a sua marca.

Na Bahia onde atuou, fazia homilias fortes e procurava mostrar aos trabalhadores da colheita de cacau, que não deviam aceitar a vida de quase escravidão, o que gerou descontetamento dos fazendeiros e era comum vê-los nas missas portando armas, o que não intimidou Frei Agnelo.

Na ditadura foi preso, acusado de subversão porque lutava pela liberdade de expressão e menos desigualdade social. Após um ano foi inocentado, foi quando os irmãos que já moravam no sul, resolveram trazê-lo para Curitiba onde ele continuou fazendo homilias com o mesmo teor de crítica. Foi quando seus superiores o orientaram para que parasse.
Ele tinha uma grande amiga, Cléa, uma professora que morava em São Paulo com a qual se correspondia. Ao saber da situação, a professora foi para Curitiba para apoiá-lo, mas não queria influenciá-lo porque sabia que ele também gostava muito dela, mas tinha um propósito em sua vida que era a igreja e a comunidade. Quando seus superiores decidiram que seu propósito tinha sido cumprido, ele pediu permissão ao Papa em Roma e recebendo a dispensa do sacerdócio, foi atrás de Cléa em São Paulo para pedi-la em casamento. Aceitando, foram morar em Curitiba, próximo à família dele. Tiveram dois filhos, Geisa e Dinho.

Geraldo Vieira Bomfim atuou como vendedor e corretor de imóveis e quando se aposentou, o filho Dinho que trabalhava na empresa Clicherlux com filial em Curitiba foi transferido para Valinhos, ao visitá-lo Geraldo e Cléa ficaram encantados com a cidade, venderam a casa em Curitiba e compraram uma em Valinhos.

Logo foi se adaptando à vida e conheceu a Associação dos Aposentados onde era frequentador, gostava dos papos como saudoso presidente Ovídio Vacari. Aqui viveu cerca de 20 anos.

Sabendo de seus dotes artísticos com trabalhos pouco divulgados e conhecidos, especialmente em Valinhos e que estão espalhados por diversos países e estados, Sr Ovídio pediu que pintasse um quadro da Praça Brasil 500 anos, onde retratou o obelisco e sua família, a esposa, filha, genro e netos.

O quadro está na sala da diretoria, exposto a todos que visitam a Associação e como disse o atual presidente José Carlos Cazzacio é uma lembrança de um sócio que fez questão de que toda família se associasse, valorizando o trabalho e servindo de exemplo para outras pessoas.

A filha Geisa Salati, que vive em Atlanta no EUA, disse que o pai nunca gostou do alarde e por gostar da Associação dos Aposentados resolveu fazer um presente. “Estou longe, mas também sou sócia da AAPV, minha mãe dizia que era importante ajudar e apoiar, da próxima vez que eu for ao Brasil e aproveitar Valinhos, cidade que amo muito, vou renovar a minha carteirinha e matar saudades dessa obra tão especial feita pelo meu pai”.

O filho de Geraldo Bomfim – Dinho Bomfim, músico, designer, cinegrafista contou a história do pai no Festival Aldir Blanc de Valinhos e disse emocionado que o pai não almejou ficar rico e nem famoso com suas obras, pintava por paixão e seu desejo é que Valinhos pudesse valorizar os seus artistas e os chegam aqui, para que não fiquem no anonimato ou que suas obras se percam. “Temos galeria e um museu que poucas pessoas conhecem , mas temos tantas manifestações de artes, que a cidade já merece ter um teatro, eu espero sinceramente que os artistas sejam valorizados em vida e que não se espere que eles deixem o nosso convívio para o seu reconhecimento”, finaliza Dinho Bomfim.

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