Como o empresário brasileiro pode sobreviver?

Por AILTON VENDRAMINI *
Vivemos uma época curiosa.
Os números da economia mundial se tornaram tão gigantescos que já não parecem reais. Trilhões circulam diariamente pelos mercados, empresas surgem e desaparecem em questão de meses, tecnologias mudam setores inteiros quase da noite para o dia, e a inteligência artificial começa a pressionar profissões, negócios e modelos econômicos tradicionais.
Nesse ambiente, muitos empresários fazem a pergunta silenciosa:
:- Como sobreviver?
Talvez a resposta esteja escondida justamente em nossos ancestrais mais distantes.
O ser humano surgiu em um mundo hostil. Predadores, fome, frio, doenças e escassez estavam por toda parte. Muitos ficaram pelo caminho. Outros sobreviveram. E sobreviveram não necessariamente porque eram os mais fortes, mas porque conseguiam perceber o perigo antes dos demais.
Na natureza, vários animais possuem sentidos extraordinários:
- águias enxergam presas a quilômetros de distância;
- cães detectam odores imperceptíveis aos humanos;
- gatos percebem frequências sonoras muito acima da nossa capacidade;
- algumas espécies conseguem literalmente sentir vibrações invisíveis ao ambiente.
O ser humano, isoladamente, é limitado em quase todos esses sentidos.
Mas desenvolveu algo único:
capacidade de antecipação.
O empresário moderno vive exatamente esse dilema.
Pensemos em um pequeno empreendedor que acorda cedo todos os dias para abrir sua padaria. Ele trabalha duro, conhece seus clientes, luta contra impostos, juros, concorrência e custos crescentes. Tudo isso importa. Mas somente esforço operacional talvez já não seja suficiente.
Porque o mercado mudou.
Hoje, sobreviver depende cada vez mais da capacidade de:
- perceber tendências;
- interpretar sinais;
- antecipar movimentos;
- entender probabilidades.
O empresário não consegue prever o futuro.
Ninguém consegue.
Mas ele pode desenvolver algo próximo de um “sexto sentido estratégico”.
Pode perceber:
- mudanças no comportamento do consumidor;
- novas tecnologias;
- alterações regulatórias;
- transformações econômicas;
- riscos invisíveis que ainda não chegaram oficialmente ao seu setor.
E talvez essa seja a grande habilidade do século XXI:
ler o ambiente antes da colisão.
Curiosamente, até a física moderna passou a trabalhar cada vez mais com probabilidades. Em várias áreas da ciência, o universo já não é interpretado como algo absolutamente previsível, mas como um conjunto de possibilidades.
No mundo empresarial, ocorre algo parecido.
O empreendedor que ignora sinais:
- tecnológicos;
- econômicos;
- sociais;
- digitais;
corre o risco de se tornar invisível para o próprio mercado.
Já aquele que desenvolve percepção estratégica ganha algo extremamente valioso:
tempo.
E, muitas vezes, sobreviver significa exatamente isso:
perceber primeiro.
Porque no final, da porteira para fora, o mundo continuará imprevisível.
Mas aqueles que aprenderem a interpretar melhor os sinais talvez consigam atravessar a tempestade antes dos demais.
* AILTON VENDRAMINI, Engenheiro eletrotécnico com 40+ anos no setor privado (ABB, VA TECH, Schneider, Veccon etc.), liderando contratos e grandes projetos. Experiência executiva no Brasil e exterior. Hoje, Diretor de Dados & Estatística e DPO de Hortolândia, à frente de LGPD e projetos de dados/IA. Articulista e consultor; MBA USP, pós-graduações FGV e especialização em Big Data.