Universidade e escola unidas: como o Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência contribui para aprimorar a educação básica

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Em parceria com a Escola Estadual Conde do Pinhal, iniciativa enriquece o ensino-aprendizado de matemática de alunos e  professores

A desvalorização da carreira docente no Brasil reflete diretamente na procura e na permanência de estudantes em cursos de formação de professores, configurando o que especialistas chamam de “apagão das licenciaturas”. A luta por uma educação de qualidade para todos é árdua: professores e gestores escolares, docentes universitários e estudantes de licenciaturas buscam consolidar projetos e parcerias para a valorização da docência.

Um desses projetos é o Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência (PIBID), que integra a Política Nacional de Formação de Professores do Ministério da Educação (MEC) e tem por finalidade contribuir para o aperfeiçoamento da formação de professores em nível superior e para a melhoria de qualidade da educação básica pública brasileira. Em São Carlos, o Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC) da USP é um dos núcleos promotores do PIBID na área da educação matemática. Em parceria com a Escola Estadual Conde do Pinhal, o programa vem obtendo resultados significativos.

Uma dessas conquistas é explicada por Denner Dias Barros, docente do ICMC: “Pesquisas mostram uma diminuição na procura pelas licenciaturas. Entretanto, esse tipo de programa permite que os licenciandos se aproximem da docência e que os alunos das escolas também interajam com futuros professores”. Denner afirma que é comum os estudantes do ensino básico questionarem os licenciandos: “Você está estudando para ser professor?”.

Denner coordena o PIBID no ICMC junto com as professoras Michela Tuchapesk da Silva e Renata Cristina Geromel Meneghetti. De acordo com Michela, além da valorização da docência, o programa também atende a uma demanda antiga das licenciaturas: “Os estágios obrigatórios na licenciatura não são remunerados, o que não acontece nas demais carreiras que não são voltadas à docência”.

Como o PIBID remunera os bolsistas de iniciação à docência com R$ 700 mensais, o trabalho dos licenciandos nas escolas públicas ganha uma compensação financeira. Mas atenção: isso não significa que o estágio curricular passou a ser remunerado. O que acontece é: se o estudante for bolsista do PIBID e estiver matriculado na disciplina de estágio, ele pode usar as horas trabalhadas no programa para abater a carga horária da disciplina. Para isso, há a condição de as atividades do PIBID ocorrerem dentro do mesmo período em que o estágio. Ações feitas fora desse prazo não podem ser contabilizadas.

O programa também remunera o supervisor, o professor da escola parceira, em R$ 1,1 mil mensais, além dos docentes universitários coordenadores das atividades com R$ 2 a R$ 2,1 mil mensais. “Essa é uma característica interessante do programa que estimula a sua implementação”, conta Renata.

A docente também explica que, no ICMC, para atingir resultados mais robustos e conciliar a carga de trabalho, o valor adquirido com a bolsa para o coordenador, professor universitário, é dividido entre os três docentes: “Preferimos nos organizar dessa maneira e dividir essa bonificação para construirmos coletivamente esse trabalho.”

Para participar do PIBID, a Instituição de Ensino Superior (IES) precisa construir um projeto em parceria com a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes). A partir daí, um edital é lançado com propósito de constituir os grupos de trabalho, com coordenadores, supervisores e bolsistas de iniciação à docência. “Na USP, foi construído um projeto contemplando várias áreas e disciplinas. No nosso caso, pertencemos a um dos núcleos do subprojeto de matemática, que envolve o ICMC e o Instituto de Matemática, Estatística e Ciência da Computação (IME), na capital”, diz Renata.

“O IME é responsável pela coordenação de outros três núcleos do subprojeto de Matemática”, explica a professora Michela. No ICMC o projeto conta com a participação de 18 licenciandos, dos cursos de Licenciatura em Matemática e Licenciatura em Ciências Exatas, e é atrelado a uma proposta maior. “A coordenação geral é vinculada à Universidade de São Paulo como um todo e contempla diversos subprojetos, para além da área de matemática”, complementa.

Os estudantes de licenciatura podem ser bolsistas do PIBID por até dois anos, que é o tempo total de duração do projeto. Além disso, a participação é permitida desde o primeiro semestre de curso até o final, sendo possível ser bolsista e realizar os estágios supervisionados ao mesmo tempo. Contudo, é preferível que o bolsista de iniciação à docência esteja mais próximo da finalização de seu curso, tendo maior experiência para atuar nas escolas.

Segundo Renata, vale ainda destacar que antes do PIBID, ocorreu também na escola Conde do Pinhal de 2022 a 2024 o projeto Residência Pedagógica (subprojeto de Matemática), coordenados por ela e Edna Maura Zuffi, também docente do ICMC, que ocorria, em geral, concomitante aos estágios supervisionados de matemática, e contava com a participação de licenciandos dos dois últimos anos dos cursos de licenciatura. “Esta foi nossa primeira experiência nesta linha, desenvolvido junto à escola Conde do Pinhal”, salienta a docente.

A experiência na escola – A estudante do curso de Licenciatura em Ciências Exatas, na habilitação em Matemática, Bianca de Castro Ferreira já participa do PIBID há quase dois anos. “O PIBID é realmente uma ajuda para a escola. Na Conde do Pinhal, eu sou uma entre os 18 bolsistas de matemática. Isso garante que a maioria dos jovens com dificuldades na disciplina possa ter um licenciando dedicado ao seu acompanhamento”, compartilha Bianca.

Para ela, um dos pontos positivos do programa é permitir aos alunos conhecer alguém que estuda em uma boa universidade pública, fazendo com que eles passem a ver a universidade como algo alcançável. Bianca explica: “Na escola acompanho duas turmas, o oitavo ano do ensino fundamental e a segunda série do ensino médio. Estou com o oitavo ano há dois anos, então, vi eles crescerem. Nós criamos uma verdadeira amizade”.

Dentre as atribuições como bolsista, a licencianda indica: “Faço listas de exercícios, participo das aulas de tutoria, auxílio em aulas de recomposição de matérias, corrijo atividades, forneço feedbacks aos alunos, faço adaptações para os estudantes que já compreendem o conteúdo, oferecendo exercícios mais desafiadores, participo dos clubes juvenis e das disciplinas eletivas”.

Essa multiplicidade de atividades enriquece a sua formação inicial docente para além dos períodos de estágio, que acabam sendo mais pontuais e de menor duração. Bianca já cursou os dois anos de estágios supervisionados de seu curso, e diferencia essa experiência do PIBID: “Temos mais liberdade de propor ideias para a escola. Eles sempre estão abertos a nos ouvir, principalmente na área da educação matemática, já que, em geral, ela é uma disciplina desafiadora. Buscamos propor atividades que melhorem essa relação com a matemática”.

Quanto aos clubes juvenis, Bianca conta que apenas os alunos e os estagiários participam, garantindo, assim, a máxima autonomia estudantil. “Participo de dois clubes, um focado em olimpíadas do conhecimento e outro em divulgação científica”.

Um dos professores que supervisionam Bianca é Renato Abrahão de Almeida Mello, que leciona matemática na Conde do Pinhal. Para ele, “a parceria com a USP é muito boa. Os coordenadores são sempre solícitos, e acredito que nossa escola seja muito receptiva aos bolsistas do PIBID”.

Para o professor de matemática, o programa consegue estimular uma transformação educacional: “Sempre acreditei que um bom professor pode transformar a escola. E ter um bolsista do PIBID com essa visão, que possui o sonho de lecionar, é muito motivador. Por isso, acompanho meus nove bolsistas. Gosto de fazer o bolsista ter vontade de lecionar”.

Renato afirma que o trabalho na escola busca sempre ser colaborativo, inclusive entre os bolsistas. “Quando percebo que o licenciando ainda não consegue trabalhar sozinho, coordenando uma atividade, por exemplo, fazemos duplas ou trios. Assim, eles começam a ganhar confiança e até a trabalhar fora da sala de aula, nas eletivas e nos clubes juvenis. Isso faz com que eles tenham autonomia, principalmente nos clubes, que nós, professores, não acompanhamos propositalmente, para ser um espaço verdadeiramente dos estudantes”.

A Conde do Pinhal é uma escola do Programa de Ensino Integral que já possui uma longa tradição junto ao PIBID. Para conhecer um pouco dos trabalhos realizados pela escola e pelos bolsistas, o professor Renato indica acompanhar o Instagram: @eecondedopinhal. Por meio dele, é possível verificar alguns dos trabalhos desenvolvidos nas eletivas e nos clubes juvenis.

Desafios – Segundo a professora Michela, por mais importante que seja o programa, enfrentamos desafios. Ela conta que um deles é superar as dificuldades da aprendizagem de matemática, muitas vezes relacionada ao ensino tradicional, uma vez que esse método atende às demandas exigidas pelas avaliações externas, ou seja, exames como a Prova Paulista, por exemplo. “Noto que a escola pública está sendo muito pressionada frente a essas avaliações. Mas, a proposta do PIBID é justamente abordar a matemática a partir de outras formas e metodologias”, reflete.

Assim como Michela, Denner comenta que isso é um desafio e uma demanda dos futuros professores: vivenciar a escola na prática. “Muitas vezes há um distanciamento entre teoria e prática”, revela. Por meio das reuniões junto aos bolsistas, o docente afirma que os participantes do programa vivem o inesperado: “Aquilo que não encontramos nos livros. Por vezes, cenários difíceis, como bullying ou preconceito e, juntos, pensamos em como superar essas situações”.

Sobre as avaliações externas, Denner aprofunda: “A escola precisa formar cidadãos críticos. Se o único objetivo for a avaliação externa, não haverá muito espaço para trabalhar essa função da educação, que demanda tempo”.

Sobre o PIBID – Hoje, o PIBID está nas cinco regiões do país. Iniciado em 2007 por meio de uma ação conjunta entre o Ministério da Educação (MEC), a Capes e o Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), o programa vem se consolidando. Em 2013, a iniciativa deixou de ser apenas uma ação governamental transitória e foi integrada à Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), por meio da Lei nº 12.796/2013. O programa possui 5 funções atreladas às bolsas:

1 – Bolsista de Iniciação à Docência: aluno regularmente matriculado em curso de licenciatura, com dedicação de carga horária mínima de 10 horas semanais. Valor da bolsa: R$ 700.

2 – Supervisor: professor da escola parceira que acompanha as atividades dos bolsistas de iniciação à docência. Valor da bolsa: R$ 1,1 mil.

3 – Coordenador de área: professor da IES responsável por planejar, organizar e orientar as atividades de iniciação à docência em sua área de atuação acadêmica. Valor da bolsa: R$ 2 mil.

4 – Coordenador de área de Gestão de Projetos Educacionais: professor de licenciatura que auxilia o coordenador institucional na gestão do projeto. Valor da bolsa: R$ 2 mil.

5 – Coordenador Institucional: docente da IES, responsável perante a Capes por planejar, organizar e executar as atividades previstas no projeto. Valor da bolsa: R$ 2,1 mil.

Segundo a coordenadora Renata, os supervisores podem acompanhar as atividades de seis a nove bolsistas de iniciação à docência. “Em nosso caso, na Conde do Pinhal, temos dois supervisores, cada um com nove bolsistas”, explica.

As bolsas são pagas pela Capes diretamente aos bolsistas, por meio de crédito bancário. Alguns dos requisitos para licenciandos, professores do ensino básico e superior são:

1 – Para a função de Bolsista de Iniciação à Docência: cursar licenciatura na área do subprojeto; possuir bom desempenho acadêmico; possuir disponibilidade de tempo exigida no edital.

2 – Para a função de Supervisor: possuir diploma de licenciatura na área do conhecimento do subprojeto (há exceções para subprojetos interdisciplinares, educação indígena, do campo, quilombola ou educação especial); comprovar o mínimo de dois anos de efetivo exercício no magistério da educação básica; atuar como professor efetivo em sala de aula na escola parceira da disciplina do subprojeto.

3 – Para as funções de Coordenação: possuir título de mestre ou doutor; pertencer ao quadro permanente da IES como docente; ministrar disciplinas na licenciatura por ao menos três anos; comprovar experiência na formação de professores.

Texto: Marcos Vinícius Ribeiro Ferreira – Bolsista de Jornalismo Científico FAPESP (processo número 2025/24158-0).
Sob supervisão de Denise Casatti, da Assessoria de Comunicação do ICMC/USP.

Agradecimentos: À Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP, processo número 2025/24158-0, vinculado ao processo número 2023/10100-4) pelo auxílio financeiro concedido no formato de uma bolsa de jornalismo científico, e ao professor Ricardo Marcondes Marcacini.

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