Como se não houvesse amanhã
Rafael Cervone*
É lamentável constatar que nós, brasileiros, estamos incluídos entre os 3,4 bilhões de pessoas que vivem em nações nas quais o dinheiro destinado ao pagamento dos juros da dívida pública supera o montante referente à saúde e à educação. Esses países são apontados pela ONU no Relatório 2026 sobre Financiamento dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS).
Visando dimensionar o impacto negativo dessa distorção para o Brasil, faço aqui uma rápida análise de alguns números oficiais do País, que ultrapassou a marca de um trilhão de reais em juros nominais para o serviço da dívida acumulados em 12 meses até fevereiro de 2026, o equivalente a cerca de 8% do PIB. A perversa equação é impulsionada pela Selic persistentemente elevada, que se mantém num patamar exagerado (14,50% ao ano).
Em contraste, o orçamento federal da saúde para 2026 é de R$ 271,3 bilhões e o da educação e cultura, R$ 233,4 bilhões, perfazendo R$ 504,7 bilhões. A comparação é absurda e incômoda, pois pagamos duas vezes mais para remunerar credores com juros imorais do que o total de tudo o que despendemos com o ensino e o SUS.
Não se trata de uma jabuticaba apenas brasileira, pois o novo relatório da ONU revela uma deterioração sistêmica nas condições de financiamento global dos ODS. Em 2024, o serviço da dívida nos países em desenvolvimento atingiu o maior patamar em duas décadas. Como se não bastasse, o apoio oficial aos Objetivos caiu 6% em 2024, para US$ 214,6 bilhões. Nos países mais pobres, os cortes podem chegar a um quarto do total. O investimento estrangeiro direto também encolheu pelo segundo ano consecutivo.
Muito provavelmente, o próximo relatório, a ser divulgado em 2027, com base em dados de 2025 e alguns de 2026, deverá apontar o agravamento do quadro, considerando as guerras e tensões geopolíticas e comerciais. O pano de fundo desse cenário é a exaustão de um modelo. A globalização, como concebida a partir dos anos de 1990, dá sinais claros de esgotamento.
O multilateralismo enfraquece e não são cumpridos acordos como o firmado na Cúpula de Sevilha, em 2025, para reestruturar a arquitetura financeira mundial, aliviar dívidas de países vulneráveis e subvencionar o progresso sustentável. Nesse contexto, os ODS, cujo prazo expira em 2030, parecem cada vez mais distantes. É difícil imaginar seu cumprimento quando numerosas economias são afetadas gravemente pela dívida pública e juros elevados e recebem cada vez menos aportes internacionais.
O Brasil, ao carregar uma das mais corrosivas mesclas de descompasso fiscal e juros extorsivos, é uma triste síntese desse impasse contemporâneo. Por isso, seguimos cobrando a redução da Selic, que permanece exagerada, e a realização da reforma administrativa, pois precisamos de um Estado que gaste menos e entregue mais e melhores serviços à sociedade. Não podemos, como se não houvesse amanhã, continuar gastando mais com a dívida pública do que com a saúde, a educação e as políticas voltadas à inclusão e ao bem-estar social.
*Rafael Cervone é o presidente do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp) e primeiro vice-presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp).
Roncon & Graça Comunicações
Jornalistas: Edécio Roncon / Vera Graça