Da periferia ao CPF

Por AILTON VENDRAMINI *
Recentemente comecei a leitura de O Mito do Desenvolvimento Econômico, de Celso Furtado. Embora o livro tenha sido escrito há mais de cinquenta anos, algumas de suas reflexões continuam surpreendentemente atuais. Outras, naturalmente, foram desafiadas pela história.
Uma das ideias centrais de Furtado é a distinção entre centro e periferia. Na época, muitos países pareciam presos a uma espécie de camisa de força econômica, incapazes de alcançar o mesmo nível de desenvolvimento das nações industrializadas. Sabemos hoje que o centro vende a ideia de que as nações periféricas podem chegar lá. O tempo mostrou que essa realidade é mais complexa. Alguns países conseguiram alterar sua trajetória histórica [não foi o Brasil]. Investiram em indústria, educação, tecnologia e inovação. Mas não apenas isso. Exigiram contrapartidas relacionadas a seus investimentos governamentais. Não se limitaram a proteger setores econômicos; cobraram resultados.
Podemos concluir que os países que saíram lá na frente não rezaram a cartilha do Consenso de Washington, um conjunto de dez diretrizes político-econômicas de caráter neoliberal formulado em 1989 pelo economista John Williamson [algumas das 10 regras da cartilha: Redirecionamento dos gastos públicos: Foco em serviços básicos (saúde e educação) em detrimento de subsídios industriais. Abertura comercial: Redução ou eliminação de tarifas alfandegárias e barreiras à importação. Investimento estrangeiro direto: Remoção de restrições à entrada de capital internacional. Privatização: Venda de empresas estatais para a iniciativa privada. Desregulamentação: Eliminação de leis e regras que limitavam a livre concorrência. Direitos de propriedade: Garantia de segurança jurídica para a posse de bens e patentes]. Laissez-faire. Os países que lograram desenvolvimento a ponto de se equipararem financeiramente aos EUA, não seguiram essa cartilha, e também deixaram um passivo ao planeta que está em aberto.
Enquanto refletia sobre essas ideias e como o mundo muda rapidamente quando as regras já não favorecem o centro, lembrei-me de uma palestra de Simon Sinek. Nela, ele utiliza a metáfora de uma árvore cheia de macacos. Os que estão embaixo enxergam apenas os galhos próximos. Os que estão acima conseguem ver mais longe. A posição que ocupamos influencia aquilo que somos capazes de enxergar.
Talvez parte da dificuldade brasileira tenha sido justamente essa. Em muitos momentos estivemos tão ocupados observando os galhos ao nosso redor que deixamos de olhar para o horizonte.
Foi então que coloquei um novo tijolinho no meu projeto:- Atlas Social. Quando comecei esse projeto, imaginava construir indicadores. Com o tempo, percebi que os indicadores são apenas instrumentos. Eles ajudam a apontar direções, mas não são o destino.
A verdadeira pergunta não é qual índice possui o melhor valor. A verdadeira pergunta é:-quem são as pessoas que estão por trás desses números? Foi nesse momento que deixei de olhar apenas para indicadores e passei a olhar para CPFs.
Quem são os vulneráveis? Onde estão? Quais vulnerabilidades se acumulam sobre a mesma pessoa? O que o Estado está fazendo? E, o que poderia fazer? E, principalmente, as ações realizadas estão produzindo resultados?
Essas perguntas me levaram a uma constatação importante. A vulnerabilidade não respeita organogramas e cartilhas. Um idoso com baixa renda, deficiência e analfabeto não pertence à Assistência Social, à Saúde ou à Educação. Ele pertence à realidade. Sua situação atravessa todas essas áreas simultaneamente. Veja, se os nossos macacos que estiveram e estão na copa da árvore não conseguem ver o horizonte, o que eles podem propor para a camada logo abaixo, e assim até chegar ao nosso exemplo?
Talvez o maior desafio da gestão pública no Brasil não seja criar novos programas, mas enxergar as conexões entre eles.
O projeto do Atlas Social não elimina a vulnerabilidade. Não substitui o trabalho dos resilientes profissionais da ponta. Não resolve, sozinho, problemas históricos. Mas pode tornar visível aquilo que antes permanecia oculto.
E talvez esse seja o primeiro passo de qualquer transformação social relevante no Brasil. Afinal, nenhuma política pública consegue enfrentar aquilo que não consegue enxergar.
* AILTON VENDRAMINI, Engenheiro eletrotécnico com 40+ anos no setor privado (ABB, VA TECH, Schneider, Veccon etc.), liderando contratos e grandes projetos. Experiência executiva no Brasil e exterior. Hoje, Diretor de Dados & Estatística e DPO de Hortolândia, à frente de LGPD e projetos de dados/IA. Articulista e consultor; MBA USP, pós-graduações FGV e especialização em Big Data.