Pesquisa brasileira reforça a segurança da cirurgia oncoplástica no tratamento do câncer de mama

Surgeons and nurse during a foot surgery
Estudo realizado com a participação da Sociedade Brasileira de Mastologia (SBM) destaca a preocupação de especialistas com resultados estéticos e traz uma análise comparativa dos desfechos de sobrevida entre mulheres submetidas à cirurgia conservadora convencional e à cirurgia oncoplástica
A cirurgia conservadora, combinada com radioterapia adjuvante, é uma estratégia amplamente difundida no tratamento de câncer de mama em estágio inicial. No entanto, essa abordagem pode resultar em desfechos estéticos desfavoráveis, especialmente em mulheres com mamas pequenas ou quando tumores maiores exigem ressecções mais extensas. Com o objetivo de minimizar deformidades mamárias, técnicas oncoplásticas foram desenvolvidas para ampliar as possibilidades da cirurgia conservadora, permitindo ressecções mais extensas com melhor preservação da forma e simetria mamárias. Nesse contexto, um estudo realizado com a participação de importantes centros de tratamento do câncer no Brasil avaliou se pacientes submetidas à cirurgia conservadora oncoplástica apresentam resultados oncológicos comparáveis aos observados após a cirurgia conservadora convencional.
O estudo “Resultados de sobrevida após cirurgia conservadora da mama padrão versus cirurgia conservadora da mama oncoplástica em pacientes com câncer de mama: um estudo de coorte multicêntrico com evidências do mundo real” foi publicado pela Surgical Oncology Insight conceituada revista internacional da Sociedade de Cirurgia Oncológica dos Estados Unidos (Society of Surgical Oncology – SSO), dedicada à divulgação de pesquisas de ponta e estudos na área de cirurgia oncológica. Coordenada pela mastologista Anne Dominique Nascimento Lima, membro da Comissão Científica e do Departamento de Cirurgia da Sociedade Brasileira de Mastologia (SBM), a investigação envolveu pesquisadores de seis centros de tratamento no Brasil.
“Os resultados estéticos desfavoráveis são uma preocupação relevante na cirurgia conservadora”, afirma Anne Dominique Lima. De acordo com dados já descritos na literatura, entre 25% a 30% das pacientes podem desenvolver deformidades mamárias significativas após a cirurgia conservadora convencional. “Isso ocorre principalmente quando os tumores são grandes em relação ao volume da mama ou localizados em regiões cosmeticamente desafiadoras”, explica a mastologista.
A pesquisa incluiu 685 pacientes, das quais 550 (80,3%) foram submetidas à cirurgia conservadora convencional e 135 (19,7%) à cirurgia conservadora oncoplástica (mamoplastia terapêutica). “Um dos achados mais importantes do estudo foi observar que pacientes submetidas à cirurgia oncoplástica apresentavam doença mais avançada ao diagnóstico e, ainda assim, tiveram resultados oncológicos semelhantes aos observados após a cirurgia conservadora convencional”, pontua Anne Dominique Lima.
No estudo, não foram observadas diferenças estatisticamente significativas nas taxas de sobrevida entre os grupos. Após 60 meses de acompanhamento, a sobrevida livre de recorrência locorregional (indicador de retorno do câncer na mesma área onde o tumor primário foi tratado) foi de 90% entre as pacientes submetidas à cirurgia conservadora convencional e de 96,3% entre aquelas tratadas com técnicas oncoplásticas. Esses resultados reforçam que a cirurgia oncoplástica pode ser utilizada sem comprometer os desfechos oncológicos, oferecendo uma alternativa segura para pacientes adequadamente selecionadas.
Para o mastologista André Mattar, tesoureiro da SBM, também participante do estudo, os resultados reforçam a segurança da cirurgia oncoplástica. “A qualidade de vida das mulheres não foi avaliada, mas podemos afirmar que há ganhos significativos para uma paciente que passa por um procedimento que combina abordagem oncológica correta e benefícios estéticos proporcionados pela oncoplástica”, destaca.
O Brasil é modelo de sucesso de treinamento e preparação de cirurgiões de mama em técnicas oncoplásticas. Também com a participação da SBM, estudo publicado pela ASO, revista científica oficial da Sociedade Americana de Cirúrgica Oncológica e da Sociedade Americana de Cirurgiões de Mama, revela que metade dos mastologistas brasileiros realiza cirurgia oncoplástica.
Comparativamente, dado divulgado pela Sociedade Americana de Cirurgiões de Mama indica que apenas 10% de seus membros realizam mamoplastia redutora ou simetrização contralateral. Levantamento canadense revela resultados semelhantes.
Com o propósito de formar profissionais, a Sociedade Brasileira de Mastologia mantém três cursos para reconstrução de mama e oncoplastia. Com um corpo docente renomado e reconhecido nacional e internacionalmente, as formações apresentam conteúdos teóricos e práticas direcionadas a mastologistas e cirurgiões de mamas de todos os estados brasileiros e também do Exterior.
Desde 2015, quando foi instituído o primeiro curso, mais de 2 mil mulheres foram beneficiadas diretamente com as cirurgias e 250 mastologistas capacitados a realizar os procedimentos. Somente no Estado de São Paulo, o curso formou 100 mastologistas e realizou 800 cirurgias.